Família cava com as mãos para salvar menino

Garoto de 8 anos foi encoberto por lama e entulho em deslizamento no Morro dos Prazeres; o que restou de sua casa foi interditado pela Defesa Civil

Alfredo Junqueira, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2010 | 00h00

Como muitas crianças do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, o menino Anderson Luis Roque, de 8 anos, misturava tristeza e excitação depois que as chuvas devastaram parte da comunidade nesta semana. Quando falava dos amigos que havia perdido ou do perigo que correu, o garoto tinha um semblante cinza, falava com a voz fraca, parecia assustado. Ao reencontrar os meninos de sua idade que corriam pelas ruas para acompanhar o trabalho dos bombeiros, Anderson era apenas mais uma criança animada com toda aquela movimentação. Até ontem, a Defesa Civil havia registrado 22 mortes apenas no Morro dos Prazeres - foram 55 no Rio.

Integrante de uma família com nove pessoas, que dormiam em uma casa de três cômodos, Anderson quase morreu na manhã de terça-feira. Quando o barranco que destruiu mais de dez casas vizinhas começou a desmoronar, o menino estava no banheiro. Os parentes conseguiram escapar e metade da casa ficou destruída. Anderson foi encoberto por lama e entulho. Ao lado do que restou de sua residência, fica a enorme cratera onde os bombeiros procuram os corpos das vítimas do desabamento.

Logo que os parentes deram por sua falta, voltaram correndo. O menino estava parcialmente soterrado no banheiro e gritava por ajuda. Amigos e vizinhos ajudaram a família a cavar um buraco com as mãos para retirar Anderson por uma parede destruída. Do susto, o menino guarda arranhões no rosto e um curativo na perna direita.

Força. "Ouvi um barulhão, mas pensei que não ia ser nada. Não dei muita importância. Mas a terra me cobriu todo. Agora já não estou sentindo mais dor. Eu sou forte mesmo", brincou o menino, enquanto mostrava o que restou da casa em que morava.

Tia de Anderson, a recepcionista Helena Cristina Delfim, de 32 anos, contou que o salvamento do menino foi a única notícia boa que a família teve "desde que o mundo caiu sobre a gente". O que restou da casa onde moraram nos últimos 15 anos foi condenado pela Defesa Civil. Muitos amigos e vizinhos morreram. Para dormir, Helena, Anderson e a família estão contando com a solidariedade de parentes e amigos que moram em setores não atingidos da comunidade.

"Não tenho nem o que achar dessa história toda. Eu só queria encontrar um lugar para ir, estabelecer-me e começar tudo de novo", lamentou Helena, que é mãe de Helen, de 11 anos, e Brian, 1. Ao ver a tia triste, Anderson se aproximou para consolá-la.

De acordo com o pedreiro Jorge Pereira Lemos, de 59 anos, padrasto de Helena, a família não percebeu que a tragédia estava para acontecer. Apesar da chuva forte, para eles aquela manhã de terça-feira seria como outra qualquer.

Dia comum. "Minha mulher preparava o café e todo mundo se arrumava para sair, ir para a escola, para o trabalho", contou o pedreiro. "De repente, veio o estrondo. Parecia uma bomba. Só deu tempo para sairmos correndo de casa", comentou.

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