Faltam ciclovias onde mais se usam bicicletas em São Paulo

Jardim Helena, na zona leste, lidera ranking e tem mais gente pedalando do que em qualquer faixa instalada recentemente

DIEGO ZANCHETTA, RAFAEL ITALIANI, O Estado de S.Paulo

14 Setembro 2014 | 02h00

A 30 quilômetros do centro de São Paulo, o Jardim Helena tem mais ciclistas em suas ruas do que em qualquer ciclovia implementada recentemente na cidade. Sem faixa exclusiva e alheios às discussões sobre os prós e contras das faixas, moradores do bairro na periferia da zona leste já usam a bicicleta para trabalhar, ir à casa de amigos e buscar filhos na escola.

"Bicicleta sempre fez parte da minha rotina, desde criança. Para mim, a cidade inteira deveria ter ciclovia", afirma o auxiliar de enfermagem Rafael Ramos, de 21 anos. Morador no Jardim Helena, por volta das 6h20 ele desce de sua bicicleta na estação da CPTM usando roupa social, após pedalar quase dois quilômetros, de forma tranquila e sem pressa, para não amassar a calça e a blusa. E vai de trem até o emprego no Brás. Na volta, pega a bicicleta na mesma estação e retorna para casa.

Ramos hoje é um exemplo que deve ser seguido por milhares, pelo menos na visão da gestão do prefeito Fernando Haddad (PT), que aposta nas ciclovias como a mais forte marca de governo. A prioridade da Prefeitura, entretanto, tem sido a construção das ciclovias em bairros do centro expandido.

Fora das regiões nobres da capital apenas a Vila Prudente, na zona leste, e a Capela do Socorro, na zona sul, receberam cerca de 3 quilômetros de ciclovias nas recentes inaugurações do governo. No mesmo período só o centro ganhou 20,5 quilômetros de faixas para bicicletas.

Mas é na periferia onde mais se anda de bicicleta em São Paulo. É o que apontam dados de 2012 da Pesquisa Origem de Destino do Metrô, divulgada no início do ano. O extremo leste é o lugar onde mais se usa o meio de transporte para trabalhar, conforme o levantamento. O grupo de bairros formado por Jardim Helena, Itaim Paulista, São Miguel, Vila Curuçá e Vila Jacuí, onde ainda não foi inaugurado nenhum quilômetro de ciclovia da Prefeitura, está em primeiro lugar no uso das bicicletas. A média é de 18.008 viagens de bicicleta a trabalho, por dia, na região.

Os bicicletários das estações da Linha 12-Safira da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que corta a região desde Poá, na Grande São Paulo, até o Brás, no centro, também estão entre os mais disputados da capital. No bicicletário da Estação Jardim Helena-Vila Mara são 256 vagas. A média de entradas de bikes em dias úteis é de 285. Na unidade da Estação Itaim Paulista, que tem a mesma quantidade de vagas, a entrada é ainda maior: 295.

"A bicicleta para mim representa saúde, ganho de tempo e economia no fim do mês. Meu trabalho só paga uma condução por dia", afirmou o vigilante Gildo dos Santos, de 45 anos, que do bicicletário até sua residência pedala por 15 minutos. Ele trabalha de madrugada em Pirituba, do outro lado da cidade, e deixa a bike no bicicletário. "Não sei se precisa de ciclovia na região. Basta que os motoristas respeitem os ciclistas."

Também por motivos de economia a doméstica Juvanira Julio de Souza, de 40 anos, resolveu adotar a bicicleta. Ela trabalha na região da Luz. Mas antes de ir para a estação da CPTM precisa pedalar por 20 minutos. "O tempo para esperar o ônibus seria praticamente o mesmo. E, além disso, não teria condições de pagar pelo lotação até o trem", afirmou Juvanira, que ganha R$ 800 por mês.

Geografia. Por ficar na várzea do Rio Tietê, o Jardim Helena é um bairro totalmente plano. As ruas largas também facilitam a vida dos ciclistas. Após o pico de procura pelo trem, que deixa o bicicletário já lotado antes das 7 horas, outros perfis de ciclistas ocupam as ruas do bairro: mães com filhos em cadeiras acopladas ao quadro da bicicleta, adolescentes e até aposentados. Apesar de não haver sinalização, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) promete construir 12,7 quilômetros de ciclovias no bairro até o fim deste mês.

O cicloativista William Cruz, do site Vá de Bike, explicou que o fator econômico é um dos mais importantes para o uso das bicicletas. "Representa um bife a mais no prato das famílias. A periferia já está acostumada a usar a bicicleta e a classe média ainda está aprendendo, está descobrindo a bicicleta agora", explicou.

Atrás do extremo leste da cidade aparece o centro de São Paulo no uso das bicicletas, segundo a pesquisa do Metrô. De acordo com o levantamento, moradores dos distritos de Bela Vista, Bom Retiro, Brás, Cambuci, Consolação, Liberdade, Pari, República, Santa Cecília e Sé fazem 11.960 viagens diárias de bicicleta para trabalhar.

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