Falta de água causa prejuízos às indústrias de SP e MG

Em território mineiro, quem usa o Rio Jaguari diz que ajudar o Sistema Cantareira pode custar muitos empregos

Rene Moreira , Especial para O Estado

17 Outubro 2014 | 20h35

 FRANCA - A falta de água sentida no sudeste brasileiro já causa prejuízos para indústrias de São Paulo e Minas Gerais. Férias coletivas são anunciadas, ameaças de demissões em larga escala se tornam mais comuns e as perdas financeiras vão sendo contabilizadas. No Sul de Minas as empresas reclamam que deixar de usar o Rio Jaguari para ajudar o Sistema Cantareira pode custar muitos empregos.

Empresários das cidades diretamente atingidas pela proposta - Camanducaia (MG), Extrema (MG), Toledo (MG), Itapeva (MG) e Sapucaí-Mirim (MG)- estiveram reunidos por mais de uma vez nos últimos dias para discutir a proposta da Agência Nacional das Águas (ANa) que quer restringir o uso da água da Bacia Hidrográfica do Piracicaba-Jaguari. As indústrias teriam 30% a menos na captação diária.

Nos encontros organizados pela Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), o setor chegou à conclusão de que no porcentual proposto haverá demissões e o prejuízo será grande, por isso, foi redigido um documento pedindo a flexibilização das regras, algo já reivindicado pelas indústrias a serem penalizadas do lado paulista. A Melhoramentos, que tem uma unidade na região mineira afetada, foi uma das companhias que ameaçaram demitir se tiver de reduzir tanto o uso da água.

O documento preparado pelas empresas foi a contra-proposta da Bacia do Piracicaba-Jaguari. De acordo com o Comitê da região, em torno de 56% do volume da água que abastece o Sistema Cantareira saem do Sul de Minas. "Não temos reserva de água aqui. Se faltar na região, a gente pode buscar no Sistema Cantareira?", questionou em um dos encontros o secretário executivo da bacia, Sidney José da Rosa.

Em Minas, os rios Jaguari e Camanducaia e seus afluentes nascem em Camanducaia, Itapeva, Toledo e Sapucaí-Mirim e se juntam em Extrema antes de entrarem no Estado de São Paulo. Os empresários dizem não ter ainda calculado valores, mas não é exclusividade da região somar perdas com a chuva em Minas. No Estado, a meteorologia aponta índices pluviométricos que se equiparam ao sertão nordestino e muitas áreas sentem os efeitos da estiagem.

O Ministério da Integração Nacional indica que 228 municípios mineiros decretaram situação de emergência, quase todos em razão da seca. Especialistas alertam ser esta a maior estiagem dos últimos cem anos. No município de Formiga, que decretou estado de calamidade pública, o prejuízo para as indústrias de alimentos e para os produtores de gado foi calculado pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater) em R$ 15 milhões.

São Paulo. Se em Minas a seca castiga o setor industrial, em São Paulo não é diferente. São muitas as regiões onde as empresas contabilizam prejuízos, falam em demitir e anunciam férias. Em Barretos (SP) foi o que fez o frigorífico JBS após o município decretar, nesta quinta-feira, 16, o racionamento. De acordo com a assessoria da prefeitura, foi uma medida adicional do frigorífico que deixará de captar 260 metros cúbicos por hora de água do Rio Pitangueiras.

Já em Tambaú (SP), um levantamento divulgado pela Associação Comercial e Industrial da cidade aponta um prejuízo de R$ 4 milhões no setor de cerâmica Por causa de quatro meses de racionamento, medida que ocasionou a perda de produção e adaptações diversas no sistema de trabalho para 70 indústrias. Já no comércio, o prejuízo foi de R$ 600 mil.

No Estado de São Paulo a Associação Brasileira do Agronegócio, calcula que somente com o setor de logística - por causa da suspensão da navegação na Hidrovia Tietê-Paraná - o prejuízo com a estiagem chega a R$ 30 milhões. Já na região de Piracicaba (SP), segundo cálculo da Cooperativa dos Plantadores de Cana (Coplacana), a perda com a seca foi bem maior - de R$ 54 milhões, mas para usinas e fornecedores do setor sucro-alcooleiro, como indústrias metalúrgicas.

Já na região de Campinas, a estiagem fez o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) recomendar às pequenas e médias empresas que não demitam, após algumas informarem já terem reduzido a produção. Para apoiar os empresários, a entidade também tenta junto ao Departamento de Água e Energia Elétrica (DAEE) liberar poços artesianos ou outros mananciais para o uso das indústrias.

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