Reprodução/Ernesto Rodrigues/AE
Reprodução/Ernesto Rodrigues/AE

Falso militar dava curso de selva em São Paulo

Antes de ser preso, Rafael Fernandes dos Santos enganou mais de 20 pessoas e cobrou até R$ 5 mil de recrutas

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

04 Novembro 2009 | 00h01

Rafael Fernandes dos Santos montou um curso de formação de militares. Dava aulas na selva, ensinava a marchar e cobrava até R$ 5 mil para garantir aos alunos uma vaga na tropa brasileira que participa da força de paz das Nações Unidas no Haiti. Exigia que policiais militares lhes prestassem continência, pois "era o primeiro-tenente Fernandes, do 2º Batalhão de Polícia do Exército (2º BPE)". Enganou mais de 20 pessoas, que sonhavam com a carreira militar. Acabou denunciado por duas das vítimas e preso pela Polícia Civil de São Paulo.

 

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Fernandes, de 24 anos, teve a ideia de montar a academia particular há dois anos. Sua formação militar se resumia a cinco meses de treinamento como recruta do 6º Batalhão de Infantaria Leve (6º BIL), em Caçapava (SP), de onde foi desligado por indisciplina. "Ele era go-go boy", afirmou o delegado Oswaldo Nico Gonçalves, do Grupo de Repressão a Roubos e Assaltos (Garra), responsável pela prisão. O acusado se dizia amigo de um coronel do Exército. "Ele dizia tê-lo conhecido em uma sauna", afirmou G.C.S., de 21 anos, um dos alunos que denunciaram o falso oficial.

 

O tal coronel seria quem iria garantir a presença dos alunos, após o curso, na força de paz no Haiti. "Era convincente. Tratava os alunos como se fosse o capitão Nascimento", disse o delegado. De fato, Fernandes não dava mole para os recrutas. Durante a instrução de guerra na selva, ralava todo mundo. "Ele dava tapa na cara se alguém fazia coisa errada. Era um treinamento normal", disse o ex-aluno G.C.S.. As aulas teóricas de ordem unida eram dadas na casa do acusado, na Vila Brasilândia, zona norte da capital.

  

 

Os acampamentos duravam até quatro dias e eram feitos em Paranapiacaba. "O cara é bom. Ele faz rappel de ponta-cabeça. Aprendi várias coisas. O ruim é que ele mentiu", disse o aluno. Cada recruta pagava de R$ 1 mil a R$ 5 mil pelo curso. Além das instruções de ordem unida e sobrevivência na selva, o tenente Fernandes dava instrução de tiro. Usava pistolas semiautomáticas e uma carabina.

"Uma vez a Rota parou ele. E ele enquadrou a guarnição: ‘Ô seu bisonho, presta continência para o seu superior’. E o PM se enquadrou. Tinha um colega meu que foi detido uma vez pela PM e ele foi lá retirar o cara. Foi fardado e voltou com o rapaz", afirmou G.C.S.. "Como é que a gente ia desconfiar?"

 

Mas o tempo passou e nada de os alunos serem apresentados ao tal coronel. G.C.S. e um colega resolveram procurar o quartel do 2º BPE. Ali souberam que não havia nenhum tenente Fernandes entre os oficiais do batalhão. Preocupado com a ação do acusado, o Exército resolveu agir. Pôs um dos homens da Companhia de Informações, do Comando Militar do Sudeste (CMSE), para averiguar a existência do curso. O agente secreto constatou a veracidade da denúncia e o Exército informou a polícia.

 

Eram 18h30 do dia 29 de outubro quando os homens do Garra bateram na porta da casa de Fernandes. Ele abriu a porta e os policiais revistaram o lugar, onde estavam 12 alunos - a maioria ficou sabendo ali que era vítima de um golpe. Em pouco tempo, os investigadores encontraram duas pistolas calibre 7,65 mm, fardas do Exército, coletes à prova de bala, espadas, braçadeiras da Polícia do Exército, 334 gramas de maconha, documentos de identidade militar falsificados, cheques e um Peugeot com sirene.

 

"Ele foi preso por porte ilegal de arma e tráfico de drogas", disse o delegado Arly Antônio Reginaldo. Fernandes, segundo a polícia, disse que havia recebido uma missão. Queria voltar ao Exército e, se conseguisse arregimentar 20 alunos, seria reintegrado. Deve responder preso às acusações.

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