Exposição mostra as Brasílias que só ficaram no papel

Arquiteto rodou o Brasil em busca de detalhes dos projetos preteridos no concurso para a construção da capital federal

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2010 | 00h00

 

 

Entre 1998 e 2004, o arquiteto Jeferson Tavares mais parecia um detetive. Para descobrir detalhes dos projetos não escolhidos para a construção de Brasília - capital federal que completa meio século de fundação amanhã - ele rodou o País todo. "Encontrei projetos na Câmara Municipal de uma cidadezinha do interior de Goiás, em grandes bibliotecas e nos arquivos pessoais de arquitetos", enumera ele, que, no processo, contabilizou 32 planos diferentes para a criação da cidade.

Parte dessa pesquisa pode ser conferida na exposição Outros Planos: Brasílias, em cartaz a partir de amanhã no Museu da Casa Brasileira, Jardim Paulistano, em São Paulo. "A mostra resgata o espírito daquela época, um período de grande relevância para a produção arquitetônica brasileira", diz o arquiteto Eduardo Della Manna, curador do evento. "É interessante notar como todas as propostas representavam o otimismo desenvolvimentista daqueles anos."

A mostra foi viabilizada graças a uma parceria com a Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA). "A expectativa é de que seja o início de um processo de debates sobre as cidades brasileiras, tantos as planejadas quanto as não planejadas", completa Della Manna.

Pesquisa. Tavares iniciou o garimpo pelos projetos não selecionados para a construção de Brasília em seus tempos de estudante universitário, no câmpus de São Carlos (SP) da Universidade de São Paulo (USP). "Foi meu trabalho de iniciação científica ao longo de dois anos", conta ele. Completada a graduação, continuou se aprofundando no tema para seu mestrado, obtido na mesma instituição acadêmica. "Parecia uma investigação policial", compara. "Um dado acabava levando a outras pessoas."

Conseguiu reunir 32 projetos para a capital federal. Entre eles, os sete que foram finalistas do certame que acabou vencido pelo arquiteto Lúcio Costa (1902-1998), com suas superquadras, as Asas Norte e Sul, a Praça dos Três Poderes, os Eixos Monumental e Rodoviário, as "tesourinhas", os comércios locais e os prédios de seis andares.

"Quando me perguntam se eu acho que a escolha foi apropriada, costumo ponderar que não dá para voltar a fazer esse julgamento", diz Tavares. "Muitas questões urbanas trazidas por Lúcio Costa estavam em voga naquela época. E é inegável que ele conseguiu a proeza de resolver uma cidade inteira em apenas dois traços." O arquiteto ainda ressalta que a ideia das superquadras é tão original que "não há nada parecido na história do urbanismo".

Mas o mais curioso da exposição, sem dúvida, são os projetos que perderam a disputa. Entre os concorrentes, arquitetos de peso como Rino Levi (1901-1965) e Vilanova Artigas (1915-1985). "O concurso durou de 1956 a 1957 e teve 72 inscritos. Mas só 26 equipes acabaram participando de fato", diz Tavares.

Debates. Além da exposição, o Museu da Casa Brasileira sediará dois debates sobre as outras Brasílias. O primeiro ocorre dia 27 de abril. O outro, em 11 de maio. Este último será seguido do lançamento do livro O Concurso de Brasília - Sete Projetos Para Uma Capital (Editora Cosac Naify), de Milton Braga, com apresentação e edição de Guilherme Wisnik e ensaio fotográfico de Nelson Kon. A obra, com 288 páginas, deve custar R$ 89.

Artigo - Brasília: ideia bem planejada e mal conduzida

PARA ENTENDER

O edital de lançamento do concurso do plano piloto de Brasília foi lançado em 19 de setembro de 1956. Os trabalhos foram recebidos pela organização até o dia 11 de março daquele ano. Entre os jurados, o arquiteto Oscar Niemeyer, um representante do Instituto de Arquitetos do Brasil, outro do Clube de Engenharia do Brasil, o urbanista inglês William Holford, o francês André Sive e o americano Stamo Papadaki. "Foi um júri internacional, mas o resultado representou a opinião de Niemeyer", analisa Jeferson Tavares.

OS PROJETOS PERDEDORES

2º lugar

Era assinado por Boruch Milmann, João Henrique Rocha e Ney Fontes Gonçalves. "Trata-se de proposta vinculada ao modernismo, com setorizações funcionais", diz Jeferson Tavares

3º lugar

Na sequência, ficou o plano dos irmãos Marcelo e Maurício Roberto. "É bem curioso. Eles inovaram o conceito de cidade, ao propor divisão em sete células autônomas", comenta Tavares

3º lugar

A ideia de Rino Levi, Roberto Cerqueira César, Luiz Roberto de Carvalho Franco e Paulo Fragoso sugere uma capital com edifícios de 80 a cem andares, com estruturas de bairros

5º lugar

Não houve 4º lugar. Em 5º, ocorreu empate. O projeto de Carlos Cascaldi, Vilanova Artigas, Mário Wagner Cunha e Paulo de Camargo e Almeida previa moradia para os operários de Brasília

5º lugar

"Formalmente, o plano de Henrique Mindlin e Giancarlo Palanti era muito similar ao de Lúcio Costa", compara Tavares, sobre o outro projeto que ficou em quinto lugar no certame

5º lugar

Por último, também empatada na quinta colocação, ficou a ideia de Milton Ghiraldini. "É interessante porque ele pensou em vilas rurais para abastecer a cidade", ressalta Tavares

 

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