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Entrevista.

Para promotor, 'tribunal do crime' como o de Várzea Paulista choca pela ousadia, mas não é único

'Execuções do PCC ocorrem diariamente'

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RICARDO BRANDT / CAMPINAS

16 Setembro 2012 | 03h 02

Em 2001, após o Primeiro Comando da Capital (PCC) organizar sua primeira rebelião em série nos presídios paulistas, o promotor de Execuções Penais e corregedor do Complexo Penitenciário Campinas-Hortolândia, Herbert Teixeira Mendes, alertava as autoridades sobre a força crescente da facção. Hoje, mais de dez anos depois, ele afirma, em entrevista ao Estado, que todo o sistema carcerário está dominado pelo PCC e que sentenças de morte são dadas diariamente pelos criminosos.

"Tribunais do crime", como o ocorrido em Várzea Paulista, que resultou na operação da Rota com nove mortos e cinco presos, são uma exceção?

O julgamento choca mais porque mostra uma audácia. Ele fere porque humilha, mas há julgamentos a todo o momento. São eles ajustando contas entre si, ou punindo outros criminosos, ou criminosos que delatam. Essa caricatura chama mais a atenção, ela mostra certa ousadia. Não vou entrar no mérito desse caso, mas execuções acontecem diariamente. Recebo mensalmente atestados de óbito com instrumento perfuro contundente no crânio.

Facções criminosas existem em sistemas prisionais pelo mundo. O PCC difere da realidade de outras prisões?

Sim. Eles não atuam só no interior dos presídios. O sistema deles de arrecadação, de cometimento de crimes, de obtenção de dinheiro, tanto é no interior dos presídios como fora. É uma espécie de franchising.

Desde 2006, quando houve outra megarrebelião e os ataques em série no Estado, o que aconteceu com o PCC?

Passou a existir um acompanhamento contínuo pelas instituições estatais, mas isso não diminuiu a atividade criminosa. Não existe nenhum dado de redução do tráfico de drogas. Ocorre a tentativa de barrar operações ousadas contra o Estado.

E as condições internas dos presídios melhoraram desde a consolidação do PCC como grupo dominante dos presídios?

Pioraram. Até 2006, São Paulo investiu na criação de vagas. Não foram criadas vagas de 2006 até agora no mesmo ritmo de a partir de 1995. Por baixo, hoje os presídios estão 30% mais superlotados do que em 2006.

Então, por que o PCC não faz mais rebeliões?

Porque estão interessados em ganhar dinheiro. Se especializaram, como as grandes facções criminosas, em ter maior poder econômico.

Por que não há um enfrentamento do Estado para desarticular a facção?

O Estado tem dificuldade. Percebo que há empenho de controlar o grupo ao máximo possível. Uma ação para desestabilizar ou realmente acabar é difícil. É uma ação de longo prazo, que tem de ser permanente e é muito desgastante.

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