Ex-delegado condenado a 23 anos por corrupção

André Di Rissio era presidente de associação da Polícia Civil quando foi flagrado pela Polícia Federal em esquema de contrabando em Viracopos

Bruno Tavares e Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

28 Abril 2010 | 00h00

O ex-delegado de polícia André Luiz Martins Di Rissio Barbosa foi condenado a 23 anos e 8 meses de prisão, além de uma multa de R$ 67 mil. O juiz Waldyr Calciolari, da 25.ª Vara Criminal de São Paulo, considerou Di Rissio culpado de cinco acusações de corrupção passiva e uma de advocacia administrativa, mas lhe deu o direito de apelar em liberdade.

A decisão não é definitiva, e a defesa deve recorrer. Di Rissio foi surpreendido pela Polícia Federal durante a Operação 14 Bis, em 2006, que apurou um esquema de contrabando e corrupção que atuava no Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Di Rissio era então o presidente da Associação dos Delegados da Polícia Civil de São Paulo.

Em dezembro de 2009, ele foi demitido da polícia pelo então governador José Serra (PSDB). A decisão foi baseada no processo administrativo da Corregedoria da Polícia Civil, que recomendou sua demissão mesmo tendo mobilizado seis desembargadores e dois deputados estaduais e um federal que prestaram depoimento em sua defesa.

O juiz declarou no processo a perda do cargo do delegado. Para fixar a pena do réu acima do mínimo legal, o juiz levou em consideração o "dolo extremado do réu" e o fato de sua "ter maculado a instituição".

O magistrado determinou a punição ao ex-delegado somando a pena de cada suposto crime de corrupção e advocacia administrativa que teria sido praticado por Di Rissio. Segundo a acusação, o então delegado teve conversas interceptadas nas quais ele pedia favores a colegas policiais que investigavam contrabandista, dono de bingo, de casa de prostituição e um amigo.

Gestão. Como presidente da associação, ele teria desenvolvido "gestões para corromper seus próprios colegas", o que segundo o Ministério Público Estadual causou "sensível prejuízo à administração e credibilidade da Justiça". "Aludindo a importância do cargo público por ele ocupado e autoridade dele decorrente, o denunciado não só iludia a boa-fé das pessoas a quem prometia vantagens na Administração Pública (...) como também interferia no ânimo dos próprios agentes públicos a quem dirigia a solicitação de favores", diz a sentença.

A sentença relata, entre outros casos, um em que Di Rissio conversou com policiais para supostamente favorecer um contrabandista de computadores de origem libanesa. Di Rissio recebeu um telefone de um delegado que trabalhava nma época (2005) no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic), que teria atendido a solicitação feita pelo colega.

"Você só dá um toque para seu primo lá, que ele fez meia nota (...) Ele tá caguetadíssimo (denunciado), manda ele se cuidar e ver quem tá em volta dele". "Em razão da solução criminosa dada pelo delegado (do Deic), ao prevaricar de suas funções, Fabrício (um dos acusados de contrabando) e a loja para a qual ele trabalhava sequer foram identificadas."

Recurso. O Estado procurou a defesa de Di Rissio. A advogada Maria Elizabeth Queijo adiantou que vai recorrer da sentença do magistrado da 25ª Vara Criminal. "Ainda não tomei ciência do teor da sentença, mas posso afirmar que o recurso é uma certeza", assinalou a advogada.

PERFIL

André Di Rissio

EX-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO DOS DELEGADOS DE POLÍCIA DE SÃO PAULO

Policial teve 54% dos votos

Jovem, competente e homem de sucesso. Era assim que o então delegado André Luiz Martins Di Rissio Barbosa era visto pelos seus colegas delegados quando se tornou o principal representante da categoria em São Paulo. Ele foi eleito em 2004 com 54% votos dos mais de 3 mil sócios para a presidência da associação. Seus ternos impecáveis, sua retórica e o trabalho em defesa da classe chamaram a atenção.

Em sua casa, os federais que participaram da Operação 14 Bis encontraram dois Jaguar. Ele foi preso com outras 15 pessoas durante a operação.

No presídio especial da Polícia Civil, no Carandiru, o então líder da classe recebeu a visita de dezenas de delegados, inclusive chefes de delegacias e de divisões da Polícia Civil. Acabou preso três vezes e solto outras três.

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