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EUA e Europa subestimaram poder do vírus e do ‘Aedes

Zika não foi incluído entre os que podiam ser usados por terroristas, o que atrasou pesquisas

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Jamil Chade,
O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2016 | 05h00

GENEBRA - O zika vírus hoje sofre pela falta de pesquisa e de cientistas dedicados ao assunto por causa de uma decisão estratégica: na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos: o vírus não foi incluído nos potenciais elementos que poderiam ser usados como armas terroristas nos últimos 15 anos, secando recursos para instituições que tinham projetos no setor e atraindo cientistas a outras áreas com maior remuneração. 

O resultado é que, agora, as pesquisas partem praticamente de um patamar baixo e o desenvolvimento de uma vacina pode produzir algo apenas para o fim da década. Mas o surto que tem o Brasil como epicentro também recolocou a questão sobre como o mundo deve se preparar para novas ameaças biológicas desconhecidas, alimentadas principalmente por um clima cada vez mais quente e uma pobreza persistente. “A humanidade ainda se depara com novas doenças e, com a globalização, a realidade é que não existe motivo para pensar que esses vírus não viajarão”, disse Bruce Aylward, chefe da unidade de emergência na OMS para lidar com o zika. 

Mas, na entidade com sede em Genebra, a cúpula não nega que a relação entre “segurança nacional” e a cura para doenças se transformou em um elemento central para o avanço da medicina. Inofensivo em 75% dos casos, o zika vírus foi praticamente abandonado pelos centros de pesquisas financiados pelas potências militares. 

Ebola. Desde 2001, o governo federal americano destinou mais de US$ 60 bilhões para se defender de um atentado bioterrorista. O dinheiro foi usado para desenvolver e distribuir sensores, educar milhares de médicos sobre sintomas e produzir e distribuir pelo país materiais de biodefesa para hospitais e prefeituras. Pelos cálculos dos EUA, um ataque bioterrorista poderia causar um custo à nação de quase US$ 1 trilhão e colocar centenas de milhares de pessoas sob risco. Portanto, a opção de preparação militar foi a de tratar a ameaça no mesmo patamar de um ataque nuclear. 

Na base dessa estratégia está a pesquisa em relação a uma lista de vírus e bactérias consideradas como “ameaças materiais”. Identificadas pelo Departamento de Segurança Interior, a lista inclui o ebola, varíola, pragas e dezenas de outros organismos. Mas não zika. 

Desde 2004, o Departamento de Saúde passou a liderar um segundo programa, destinado a desenvolver e estocar em locais sigilosos vacinas e tratamento para essas ameaças. Quem estava atuando nessas áreas foi amplamente apoiado e centenas de pesquisadores que saíam das faculdades foram recrutados para esses projetos. 

O Project BioShield (projeto bio-escudo) hoje conta com um estoque de vacinas de varíola para cada um dos cidadãos americanos, além de tratamento para antrax suficiente para cobrir três ataques simultâneos a três grandes cidades americanas e dezenas de outras vacina desenvolvidas nos últimos dez anos. Mas não para zika. 

O investimento se mostrou útil no último surto do ebola. Assim que o vírus foi identificado na África em março de 2014, uma operação global permitiu que uma vacina estivesse disponível um ano depois. Mas isso não ocorreu por acaso. Por ser considerado pelos militares e por setores da inteligência como um potencial vetor de um ataque bioterrorista, o ebola já tinha seu sequenciamento pronto e dezenas de testes secretos já haviam sido feitos. “Transformar isso em um produto comercial levou poucos meses”, confirmou ao Estado uma alta funcionária da OMS do Departamento de Vacinas. 

No Reino Unido, documentos oficiais revelados pelo governo indicaram que existia o temor de que grupos como Al-Qaeda ou o Estado Islâmico usassem o ebola contra alvos ocidentais. O serviço secreto inglês mantinha três cenários de um eventual ataque e, para todos, era fundamental contar com uma vacina para imunizar a população com certa rapidez. O governo admitia que um ataque bioterrorista seria “desafiador tanto em termos tecnológicos como logísticos para os grupos”. Mas não se poderia excluir o risco.

No ano passado, o secretário de Segurança da Espanha, Francisco Martinez, chegou a declarar que grupos terroristas estavam examinando a possibilidade de usar o ebola em um ataque e outras armas biológicas também estavam sendo consideradas. Ele garante que a informação foi coletada por serviços de inteligência em escutas de células terroristas. 

Corrida. Abandonado, o zika vírus só agora começa a ser tratado como uma ameaça, ainda que tenha sido descoberto em Uganda e até patenteado nos Estados Unidos nos anos 1940. “Não temos respostas para muitas das dúvidas sobre o vírus”, disse Anthony Costello, diretor do Departamento de Saúde Infantil da OMS.

Desde a eclosão dos casos no Brasil e sua proliferação pelas Américas, o zika ganhou um novo status na agenda internacional. Uma corrida foi lançada entre as empresas farmacêuticas por um produto que possa atender a essa população. Uma vez no mercado, a vacina poderia ter um mercado de 500 milhões de pessoas e, claro, para a indústria isso significa que as pesquisas passaram a ser rentáveis. “Quem chegar primeiro ao produto terá ganhos muito importantes”, admitiu Costello.

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