'Eu tinha vergonha de falar'

"Eu tinha vergonha de falar", lembra Talita Ribeiro Corrêa, de 8 anos, ao comentar como era a vida antes da cirurgia a que foi submetida, em 2012, para fechar uma fenda no céu da boca (palato). Hoje não há mais sinal de inibição nessa menina que se tornou garota-propaganda da Operação Sorriso em Fortaleza. Talita ainda tem a fala fanhosa, tratada aos poucos em sessões de fonoaudiologia e de psicologia. Mas isso não é mais problema para ela.

ENVIADA ESPECIAL A FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2014 | 02h04

Fechar a fissura no palato foi o objetivo da segunda cirurgia da vida de Talita. A primeira, quando tinha 4 anos, corrigiu uma ampla fenda em seu lábio superior. "Quando eu acordei (da cirurgia), uma mulher estava me segurando. Eu me vi em um espelho e me achei bonita. Gostei e fiquei alegre", contou ela, durante sua visita ao Hospital Infantil Albert Sabin, no dia da triagem de 250 crianças candidatas às cirurgias já enfrentadas por ela.

Talita viera acompanhada do pai, Godofredo José Corrêa, de 52 anos, que coleta material reciclável puxando uma carroça pelas ruas de Fortaleza e mantém a família em um barraco de taipa da Favela Conjunto Rosalina. A renda mais garantida vem dos R$ 700 por mês da aposentadoria por invalidez da mãe de Talita, Adriana Ribeiro, surda-muda e suscetível a surtos de violência. O Bolsa Família, segundo Corrêa, foi cortado quando a aposentadoria foi liberada.

Desafios e orgulho. "Quando Talita nasceu, fiquei triste porque era mais um problema para eu cuidar", afirmou Corrêa, que não disfarça os olhares de admiração e orgulho para a filha. "Eu tinha medo de sair com ela na rua porque as pessoas zombariam da Talita. Tinha medo do que ela pudesse sofrer na escola. Hoje, eu a levo para onde eu for."

Na 2.ª série de um colégio público, confessa ter passado maus momentos até fazer as cirurgias, tornar-se querida dos médicos do Albert Sabin e "famosa" por causa das entrevistas que concedeu. Na escola, tinha apenas uma amiga, também com lábio leporino, mas que se mudou da vizinhança. "As pessoas riam, debochavam de mim e eu ficava triste. As outras meninas não gostavam de mim. Acho que era porque eu tinha esse probleminha", disse. "Eu gosto muito dos meus médicos. Quando crescer, quero ser médica ou veterinária." / D.C.M

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