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Estudo para Anhangabaú de Haddad é criticado

Arquitetos cobram mais discussão e concurso público; revitalização deve custar R$ 100 mi

Bruno Ribeiro e Edison Veiga, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2015 | 03h00

O projeto de reurbanização do Vale do Anhangabaú, no centro, vem provocando polêmica. Entidades de classe reclamam que a administração municipal não abriu um concurso público para escolher a melhor proposta. E a arquiteta Rosa Kliass, coautora do desenho atual - feito em parceria com Jorge Wilheim (1928-2014) nos anos 1980 - alega que gostaria de, ao menos, ter sido ouvida pela gestão. As propostas até agora só estão no site da Prefeitura.

A administração argumenta que o processo conduzido para a definição do projeto buscou ser mais democrático do que um concurso público - que traria um traçado de um único escritório. O plano será detalhado em uma apresentação cuja data ainda será marcada - era para ter ocorrido no início de agosto, mas o evento foi cancelado diante da expectativa de um público maior do que a capacidade da Praça das Artes, no centro, local que abrigaria o evento.

Rosa Kliass é a arquiteta que assina o cartão-postal com foto aérea do Anhangabaú que tem viralizado nas redes sociais, sobretudo por meio de perfis de arquitetos. “Caro prefeito, das janelas de seu gabinete, avistava-se este cartão-postal, criado em um concurso nacional de projetos promovido pela Prefeitura e pelo IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil). Com um moderado investimento, o cartão-postal do Vale do Anhangabaú poderá ser recuperado. Zelar por esse espaço será uma justa homenagem a Jorge Wilheim - cidadão paulistano em 2015”, diz o texto.

Desenvolvido por uma equipe local, o projeto de revitalização do espaço que tramita na Prefeitura nasceu após estudos metodológicos do escritório dinamarquês Gehl Architects, chefiado por Jan Gehl - que assina propostas de revitalizações em Nova York, Londres e Sydney. A ideia é melhorar o fluxo de pedestres do Vale, principalmente na locomoção de um lado para outro - do lado da Prefeitura para o do Teatro Municipal, por exemplo. Outra demanda percebida pela equipe de Gehl foi a falta de atividades fixas na região, que dariam vida ao espaço e, também, uma maior sensação de segurança. A proposta ainda prevê a instalação de espelhos d’água que podem ser reconfigurados de acordo com o evento previsto.

O presidente do IAB-SP, José Armênio de Brito Cruz, lamenta o fato de o projeto não ter sido escolhido mediante concurso público. “Sou da opinião que o projeto da Rosa e do Wilheim é bom, o que não significa que, 35 anos depois, não possa ser atualizado, considerando as necessidades atuais da cidade”, afirma. “Mas o IAB é da posição de que qualquer projeto público dessa envergadura precisa ser escolhido mediante concurso público aberto, em que aspectos técnicos são julgados.”

Para o arquiteto Gilberto Belleza, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU-SP), a Prefeitura deveria, primeiramente, ter ouvido Rosa Kliass, autora do projeto original. E, em seguida, aberto um concurso público. “O que não pode ser feito é um projeto desse tamanho sem uma ampla discussão”, diz ele.

Consenso. Já o diretor da SP Urbanismo, Gustavo Pertezani, principal responsável pela condução do processo de revitalização, argumenta que a gestão quis, primeiramente, ouvir a população que usará o Vale. “O processo (para construção do projeto) começou em abril de 2013, em um procedimento chamado Diálogo Aberto, que foi conduzido em três workshops, em que foram ouvidos diversos agentes do setor”, argumenta. “Contou com a participação de muita gente, de diversas organizações.” 

“O Jan Gehl tem uma metodologia de análise para diagnósticos de espaços públicos”, enfatiza o diretor. “Ele tem uma forma de ocupação dos espaços públicos, e é desse processo que saíram as ações do Centro Aberto (nos Largos de São Francisco e do Paiçandu), os parklets, coletivos que ocupam os espaços públicos, como têm no Largo da Batata, no Minhocão.”

Pertezani diz que o Anhangabaú foi entendido, nessas discussões, como um local de conexão entre o centro velho e o centro novo e as propostas devem atender às demandas vindas das pesquisas feitas no local.

“Diferentemente do que foi feito na história da cidade, em que um autor define que tem de ser isso e ser aquilo para determinado espaço, a gente fez o contrário. Fizemos as pessoas usarem o espaço, entenderem o que é melhor, produzirem um conceito e, com base nesse conceito, desenvolver um projeto. Não é mais um projeto autoral”, explica o diretor. 

O projeto da Prefeitura, que segue as premissas desse processo de discussão citado por Pertezani, é assinado pelo escritório curitibano PJJ Malucelli. As obras estão estimadas em R$ 100 milhões e há previsão de que comecem no ano que vem. O dinheiro virá de recursos da Operação Urbana Centro.

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