Estado quer 'mutirão' para internação involuntária de viciados na cracolândia

Governador anuncia início, em dez dias, de programa envolvendo psiquiatras, juízes e promotores para tirar dependentes do centro

BRUNO BOGHOSSIAN , TIAGO DANTAS , WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

04 Janeiro 2013 | 02h07

Um ano após o início da operação na cracolândia, o governo do Estado de São Paulo vai fazer um "mutirão" para internações involuntárias de dependentes químicos que ficam nas ruas do centro da capital. A permissão de recolhimento será dada por um parente. A ideia é lançar o programa em dez dias, com apoio de psiquiatras, juízes, promotores e advogados.

O usuário de crack deverá ser levado por familiares ou agentes de saúde e assistência social para o Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), na Rua Prates. Ali, psiquiatras vão avaliar se ele tem condições de decidir sozinho sobre o tratamento. Caso contrário, poderá ser internado, mesmo que se recuse a ficar no centro médico.

"É um trabalho de internação involuntária para casos mais graves, que comprometem a vida e a saúde das pessoas", afirmou ontem o governador Geraldo Alckmin (PSDB). "Já vai ter no Cratod o juiz, o promotor e o advogado. Estamos avançando (no combate ao crack)."

"A participação da Justiça e da OAB é justamente para evitar exageros. O objetivo do programa é garantir tratamento adequado para quem precisa e não tem condições de decidir sobre isso", diz o advogado Cid Vieira de Souza Filho, presidente da Comissão de Estudos sobre Educação e Prevenção de Drogas da OAB-SP, que participa das discussões com o governo. Já o Ministério Público está em recesso e não foi possível encontrar promotores para comentar o caso.

A internação involuntária é prevista em lei desde 2001. De janeiro de 2009 a outubro do ano passado, o Município fez 303 internações involuntárias e compulsórias (determinadas pela Justiça), segundo a Secretaria Municipal de Saúde.

A ação será detalhada na próxima semana pelas Secretarias de Justiça, Desenvolvimento Social e Saúde. O governo ainda estuda, por exemplo, se a internação involuntária valerá somente para adultos ou também para menores de idade, como no Rio (veja acima).

Mas o desembargador Antônio Carlos Malheiros, responsável pela Vara da Infância e da Juventude do Tribunal de Justiça, teme que o programa proposto pelo governo se transforme em política higienista. "Meu receio é de que isso seja uma desculpa para se fazer uma internação em massa na região."

No fim de 2011, Malheiros chegou a elaborar um projeto que previa a presença de juízes, promotores e médicos na cracolândia para avaliar os casos de internação. O plano não avançou por causa da ocupação da PM na região, há um ano.

Rotina. Na cracolândia, o consumo e o tráfico seguiam ontem normalmente, com mais de cem pessoas seguindo o "fluxo" - grupo onde se compra, vende e fuma a pedra. "Vai ter morte se tentarem tirar a gente daqui", afirmou um ex-atendente de uma loja de som da Rua Santa Ifigênia, de 33 anos, que disse consumir 20 pedras por dia. Ele falou que mantém contato esporádico com a família - o pai trabalha com frutas e legumes no Mercado Municipal.

Os usuários estavam concentrados ontem, às 15h, na Rua Dino Bueno. Em determinado momento, uma viatura da PM se aproximou e espalhou a multidão, que se reagrupou depois, como ocorre rotineiramente.

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