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Estado de SP já previa desabastecimento em estudo de 2009

Trabalho feito com colaboração de 200 especialistas projetava dificuldades no Cantareira para 2015 e mais problemas em 2018

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Fabio Leite e Felipe Resk,
O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Uma crise na bacia hidrográfica do Sistema Cantareira em 2015, que desencadeia uma “guerra da água”, foi prevista em um estudo de planejamento feito há seis anos pelo governo José Serra (PSDB). O documento fazia uma projeção de São Paulo, a partir de cenários ambientais nas décadas de 2010 e 2020.

Intitulado “Cenários Ambientais 2020”, o documento foi elaborado pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente em 2009 e contou com a colaboração de mais de 200 especialistas. O objetivo, segundo o estudo, era estabelecer diretrizes e planos de ação para o Estado de São Paulo e, assim, evitar que as previsões mais pessimistas se confirmassem.

Como se estivesse situado em 2020, mas olhando para os anos anteriores, o cenário de referência destaca impactos no balanço hídrico e períodos extremos de chuva (que aconteceram em 2010 e 2011, após a publicação do estudo) e seca (em 2014). E fala como se estivesse no futuro. “Por volta de 2015, a crise atingiu também a Bacia Hidrográfica dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí ”, diz o texto. Os rios citados compõem o Sistema Cantareira – o principal manancial de São Paulo, que hoje opera com 5,1% da capacidade, incluindo volume morto.

A projeção narra, ainda, que o Estado teria assistido nesse período a um “conflito pelo uso dos recurso hídricos, que desencadeou uma ‘guerra da água’ entre algumas regiões”. Essa “guerra” teria começado após “um ano atípico de chuvas, com precipitações muito abaixo do esperado”. Desde o início da crise hídrica, há um ano, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) tem responsabilizado as chuvas abaixo da média histórica para justificar a má situação dos reservatórios paulistas.

O cenário também prevê uma nova crise em 2018, em decorrência da primeira, quando águas superficiais e subterrâneas seriam afetadas, comprometendo o fornecimento de cidades. “Ações judiciais se multiplicaram, no rastro das manifestações populares que reivindicaram abastecimento público em detrimento do agronegócio.”

“A Agência Nacional de Águas (ANA) disponibilizou técnicos que auxiliaram na mediação do conflito. No auge da crise, prefeitos e vereadores aprovaram pacotes com leis restringindo temporariamente algumas atividades econômicas de uso intensivo de água”, continua o prognóstico.

Todos esses trechos fazem parte da projeção definida no documento como o “cenário de referência”. “Aquele que ocorrerá caso sejam mantidas as percepções atuais da evolução do presente. Matematicamente, é considerado o mais provável de ocorrer”, diz o texto. Além dele, o estudo discorre sobre os cenários Ideal (uma visão “quase utópica”, segundo o documento) e Alvo (o melhor futuro possível, considerando restrições econômicas e institucionais).

Medidas. Para promover uma gestão eficiente dos recursos hídricos, o estudo sugere medidas ambientais e específicas. Entre elas, incluir diagnósticos e cenários nos planos regionais, além de mapear, monitorar e implementar planos de ações. Outras propostas são estabelecer, por meio de lei, planos para o aumento da eficiência de uso da água nas principais atividades econômicas e criar áreas de proteção e recuperação de mananciais nas bacias de interesse regional.