Espírito do cinema sobreviveu à última sessão

Várias sessões de clássicos marcaram a despedida do Belas Artes. Com a segurança relaxada, espectadores podiam passar de uma sala a outra. Cinéfilos viram um pouquinho de um filme, de outro, mais outro. Riram com os irmãos Marx (No Tempo do Onça), viveram as viscerais mudanças de comportamentos de La Dolce Vita, de Federico Fellini, sofreram com a tragédia crepuscular do príncipe Salinas de O Leopardo, de Luchino Visconti.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

Pelo horário - e pela duração do filme -, O Leopardo ficou sendo a última das últimas sessões do Belas Artes. Depois da projeção, restaram as despedidas no lobby. As luzes se apagaram, a porta foi fechada. O Leopardo acaba com o baile que celebra a derrocada da aristocracia e a ascensão da burguesia. O último baile/a última sessão. O dono do cinema, André Sturm, escolheu a dedo a despedida.

Muita gente ficou ali, contando histórias, dando depoimentos. Todos tinham algo a dizer. Alguns o fizeram por meio de bilhetes, cartões e até mesmo guardanapos com mensagens afixados em uma espécie de árvore. Anderson agradeceu as 1.001 emoções de tantas projeções, mas lembrou, em especial, que foi em um Noitão que conheceu sua alma gêmea. Luciana escreveu que se aprimorou com os filmes do Belas Artes. A gaúcha Consuelo deixou registrado que o Belas Artes não é patrimônio de paulistas nem paulistanos, mas dessa pátria chamada cinefilia, que não tem fronteiras.

O arquiteto Ricardo Ohtake não foi ver filme nenhum. Permaneceu no lobby, lembrando de quando o Belas Artes ainda não era o Belas Artes. Nos anos 1960, a Rua da Consolação só subia. Não havia a segunda pista e a frente do cinema tinha uma extensão de calçada. Sexta-feira à noite, era sagrado. Após a sessão da meia-noite, que terminava por volta das 2 da manhã, a jovem intelectualidade paulistana ficava ali, discutindo a arte revolucionária da época. Godard, Godard, Godard. Quem nunca foi jovem nem nunca quis mudar o mundo talvez não entenda. "Mesmo quando não havia visto os filmes, a gente se encontrava para conversar, discutir, trocar ideias. Era um point." Muita coisa mudou com o tempo. O espírito do Belas Artes sobreviveu. Que sobreviva mais uma vez, é a expectativa dos cinéfilos.

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