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Espécie invasora, javali é opção abundante e grátis na ceia de Natal

Animal invasor que se espalhou pelo País é o único que tem a caça autorizada no Brasil justamente para tentar conter o problema

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Giovana Girardi e Gabriela Biló, enviadas especiais a Barretos (SP)

24 Dezembro 2016 | 03h00

“Papai Noel, papai Noel!”, comemorava o rapaz na motocicleta enquanto andava pela estradinha de terra na região de Barretos, a 420 km de São Paulo, equilibrando na sua frente dois cachorros perdigueiros e na garupa, um javali. O animal invasor que se espalhou pelo País – e é o único que tem a caça autorizada no Brasil justamente para tentar conter o problema – vai fazer a ceia de Natal de muita família pelo interior neste ano.

O que por um lado é um drama agrícola e ambiental de dimensões inéditas para uma espécie invasora – o bicho já foi registrado em 563 municípios brasileiros e em 11 Estados, mais o Distrito Federal, além de estar presente em 45 unidades de conservação –, por outro virou a diversão de muita gente que se ressentia da proibição geral da caça esportiva no País.

“Caça sempre foi tradição na minha família. Desde o meu bisavô, meu tataravô. Era capivara, veado, mas tudo escondido. Graças a Deus veio o porco. Caçar regularizado é a melhor coisa”, conta o estudante de zootecnia Luiz Fernando Gomes, que já tinha separado uma fêmea para a ceia com a família.

Acompanhando o pai nas caçadas desde que tinha 9 anos, ele chega, às vezes, a sair ao longo da semana inteira em “rodadas” – caças noturnas em que os caçadores circulam por dentro de plantações atrás do bicho, que se alimenta à noite – e com cachorros durante o dia, quando os porcos estão menos ativos e escondidos na mata ou no meio do canavial e só são detectados pelo faro dos perdigueiros.

A diversão, no entanto, se apressa a dizer, é só consequência de um importante trabalho de controle da praga na agricultura. “Um vizinho que planta laranja implora para eu ir lá caçar porco, mas a gente não vence. Pode caçar todo dia, o ano inteiro e a gente não consegue acabar com o bicho”, afirma Luiz Fernando, sobre uma fazenda em Colina.

Comer mesmo, eles só comem as laranjas podres que caem no chão, mas os javalis têm uma predileção por áreas úmidas para se refrescar e gostam de ficar junto ao gotejamento. “Eles estão acabando com a irrigação da fazenda porque mordem as mangueiras.”

Relatos como esses pipocam por todo lado não só no interior de São Paulo, mas em todo o centro-sul do Brasil, com suspeitas sendo investigadas no Norte e no Nordeste (veja mapa). Vai da roça de mandioca ao milharal e à criação de ovelhas que foram devastadas por varas de javalis ou de seus híbridos mais comuns, os javaporcos.

 

Javalistão paulista. A cena descrita no início desta reportagem é de um vídeo que circulou no começo da semana passada em grupos de whatsapp de caçadores – ou controladores, como eles preferem se denominar. Só aquela equipe, o “Cãoboio da Usina”, tinha pego quatro naquela noite.

Uma outra, liderada pelo empresário de futebol Carlos Meinberg Neto, contabilizava até o início de dezembro 300 javalis mortos desde o início do ano. Pelo feito, ele ganhou o prêmio de caçador com o maior número de abates no evento “Melhores da Caça 2016”, realizado em Uberlândia (MG) no sábado, 17.

Por esses números, a região que vai de Paraíso a Colômbia, no norte de São Paulo, foi apelidada de “Javalistão paulista” pelo agrônomo Rafael Salerno, da rede Aqui tem Javali, que organizou a premiação. A rede monitora caçadores e produtores rurais pelo País inteiro e colabora com o mapeamento da presença do bicho.

Por esse pedaço do Estado, os javaporcos se refestelaram entre plantios de cana-de-açúcar, laranja, milho, mandioca. Neste final de ano, a bola da vez é o amendoim. Dois dias antes de a reportagem chegar à região, três tinham sido abatidos numa plantação da leguminosa. É para lá que rumamos em uma “rodada” naquela noite de sexta-feira.

A bordo da carroceria vão dois caçadores armados com calibre doze e um terceiro com um cilibrim, iluminando o campo. Logo vemos o rastro do bicho. “Tá vendo esse retão mais escuro? Logo depois que o trator planta as sementes, a vara de javalis vem atrás, vai com o focinho onde passou o trator e comendo as sementes em linha”, conta Henrique Souza, um dos que portam uma arma. Mas nada de javali por ali.

Tentamos na sequência um milharal e um seringal perto, onde vários também tinham sido abatidos em semanas anteriores. “O animal é arruaceiro”, define Anderson Moreno, o outro caçador. “Ele morde uma espiga, mas não come inteira, larga e passa para outra, destruindo tudo. Quebra seringueira pequena de brincadeira. Quando ele está no chiqueiro, come um pouco e vira a tigela”, conta.

Laudo de Souza, que cuidava do cilibrim, é capaz de jurar que às vezes ocorre de um cachaço (o macho adulto de javali) destruir chiqueiro doméstico para levar as porcas embora. “Isso não é conto de caçador, não?”, perguntamos descrentes. “Que nada, ele cobre a porca e ela vai atrás”, confirmaria Luiz Fernando no dia seguinte.

Muita história sobre a maledicência do javali, mas nenhum animal, mesmo depois de rodarmos bem uns 170 km, ao longo de seis horas. Só rastro. Como dizem, tem dia da caça...

Ali no grupo, porém, os pernis de javali para a ceia de Natal já estavam garantidos. “Tenho um lá no freezer, a família gosta, mas vou te contar que estamos até enjoados de comer tanto esse bicho”, revelou Adalberto de Souza Lima, que dirigia a caminhonete naquela noite.

Teríamos mais uma tentativa na manhã seguinte, com os cães de Luiz Fernando e amigos. Desde que o problema do javali começou, também têm proliferado pelo País criações de cães de caça, que pelo cheiro localizam os animais no meio do mato. Em alguns casos, são usados os chamados cachorros de agarre, que vão para cima dos porcos, em ações que levantaram críticas de maus-tratos aos animais.

No caso que acompanhamos, eram cães de toque, que cercam o javali, mas não o atacam. Quando ele está acuado, o caçador chega para o tiro. No sábado pela manhã, dois da equipe inicialmente fizeram uma ronda de moto para localizar rastros do animal. Encontraram de um adulto e de filhotes.

Tivemos certeza que ali havia porco quando os cachorros, que até então estavam até sonolentos, foram levados ao local suspeito. De cabeças empinadas e rabos abanando, eles buscavam o cheiro no ar implorando para serem soltos da caminhonete. Em disparada, se embrenharam pelo canavial.

Pelo som dos latidos, a turma tentava deduzir por onde o javali poderia correr. Havia chance de ele sair para a estrada, o que demandaria um tiro rápido do caçador. Mas depois de algum tropel de um lado para o outro por trás da parede de cana, o javali foi cercado. Mais uma vez, pelos latidos, os caçadores perceberam o que tinha acontecido. Correndo para o meio do mato, um deles deu um tiro. Depois mais um, seguido de um guincho forte. O javali estava morto.

Estava ali uma fêmea magra e ferida. Provavelmente tinha sido atingida alguns dias. Naquelas condições, não poderia ser aproveitada para alimentação e seria descartada depois. Não havia mais sinal dos leitõezinhos.

Desculpa para caçar. Houve duas grandes ondas de invasão no Brasil a partir de 1989. Em 2013, quando a situação já tinha fugido ao controle, o Ibama publicou uma instrução normativa autorizando o “manejo de controle de espécies exóticas invasoras” a fim de tentar conter o problema. Em bom português: o abate nos Estados onde estava comprovada a presença do animal.

Para o ecólogo Felipe Pedrosa, doutorando da Unesp de Rio Claro, que investiga o problema, se não fosse isso, a situação hoje seria muito pior. A regra, porém, é muito criticada por ser burocrática e não facilitar a vida do controlador, que tem de ter licença do Exército e do Ibama, além de apresentar relatórios do que faz. E, na prática, não foi suficiente para conter o avanço, como reconhece João Pessoa Riograndense, coordenador de Autorização de Uso e Gestão de Fauna e Recursos Pesqueiros do Ibama.

Agora está em curso um trabalho interministerial, com participação da sociedade, para a elaboração de um Plano Nacional de Prevenção, Controle e Monitoramento do Javali.

Riograndense explica que um dos temores de liberar geral a caça de javalis e javaporcos é que isso acabe servindo como uma desculpa para matar outros animais da fauna. Além disso, há suspeitas de que o animal tenha sido levado para outras regiões do País para serem soltos e, assim, haver permissão de caça nesses locais.

“A fiscalização ainda não conseguiu comprovar isso, mas ouvimos vários relatos de que caçadores estariam fomentando a distribuição desses animais para abrir a caça. Uma espécie como o javali, se ela está em ambiente ótimo, com bastante alimento e que possa se reproduzir, não teria porque dispersar mais. Mas está se espalhando muito rápido. Isso pode sim estar acontecendo”, afirma Riograndense.

O Ibama está agora investigando a suspeita de que o javali pode estar presente em Roraima. “Como ele teria chegado ali se não de modo proposital?”, questiona.

Apesar de a criação do bicho também estar proibida no Brasil, não é raro, mesmo entre os caçadores, alguém ficar com dó de um filhotinho, levar para o chiqueiro e contribuir ainda mais com o crescimento da praga.

“É um porquinho colorido, fofinho. O fazendeiro tem na mente dele que é um bicho grande fazendo estrago na propriedade dele. Aí coloca armadilha e pega meia dúzia de filhotinhos. Isso amolece o coração. Se é para fazer controle, deveria abater, mas acaba criando o bicho”, relata o pesquisador Carlos Salvador, que investiga o problema em Santa Catarina. “Na situação atual, o problema é que não estamos conseguindo controlar os fatores humanos.”

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Giovana Girardi e Gabriela Biló, enviadas especiais a Barretos (SP)

24 Dezembro 2016 | 03h00

Na noite em que acompanhamos uma “rodada” , o caçador Anderson Moreno perguntou à reportagem se já tínhamos ouvido algum relato de javalis com febre aftosa. Um dos maiores temores do governo e dos produtores rurais em relação à invasão da espécie é que ela tem potencial para transmitir essa doença e também a peste suína clássica. “Tem bicho que a gente pega que não está normal, muito magro, sem motivo para isso. Parece doente.”

O Brasil é considerado área livre dessas duas doenças, e até o momento elas não foram detectadas em nenhum javali analisado, mas, se isso acontecer, poderia comprometer os rebanhos nacionais e fechar as portas para as exportações. “Isso pode ser muito pior que as destruições de plantações”, afirma o ecólogo Felipe Pedrosa, da Unesp, que estuda a invasão da espécie.

Esse risco é um dos fatores que estão motivando a elaboração de um plano de controle da espécie exótica invasora que seja interministerial. O documento está previsto para sair no primeiro trimestre de 2017. 

“Sabemos que a instrução normativa que liberou a caça tem fragilidades que estamos tentando corrigir”, afirma João Pessoa Riograndense, Coordenador de Autorização de Uso e Gestão de Fauna e Recursos Pesqueiros do Ibama.

Um dos pontos considerados é que, pela enorme burocracia para um controlador conseguir as todas as licenças, muita gente age na ilegalidade. No registro do Ibama há 15 mil controladores e, desde 2013, eles relataram terem abatido somente 5 mil javalis, número que se acredita estar bastante subestimado. 

Mesmo maior, porém, claramente não tem resolvido o problema. “Fazer o manejo e controle (jargão técnico para caça) se mostrou insuficiente. Precisamos de outras ferramentas, como incentivar e facilitar o uso de armadilhas e fazer atividades para educar o agricultor a não criar javaporcos. E temos de ter muito mais fiscalização, não só federal, mas também dos Estados”, afirma Riograndense.

“Temos a noção de que não vamos erradicar a espécie, mas com o plano pretendemos reduzir a população e mantê-la num nível que os impactos para o ambiente e para a produção fiquem nível aceitável. Só não sabemos dizer ainda quanto é isso”, complementa.

Para o agrônomo Rafael Salerno, da rede Aqui tem Javali, o governo deveria liberar a caça. Ele defende que controle real deveria ser sinônimo de extermínio. “Não pode ter restrição para o abate de uma praga, assim como não tem para ratos, baratas e pernilongos. Ou vamos conviver com o risco de ter um surto sanitário”, defende.

Para ele, é “sorte” que haja pessoas interessadas em fazer o controle como forma de lazer. “É um favor que estão fazendo para a agricultura. Mas o custo estimado para abater um javali é de R$ 1.000, envolve a burocracia do Ibama, do Exército, o custo da arma, da munição, o combustível, veículo, horas/homem”, calcula.

Outra questão discutida é a destinação do animal depois de abatido. O consumo não é recomendado porque não existe controle sanitário, mas é permitido dentro da propriedade. O transporte e a doação, em teoria, são proibidos, mas, acontecem o tempo todo. Como diz Salerno, “ninguém deixa 50 kg de carne para trás”. Há também relatos de vendas ilegais. 

Caçadores e controladores defendem que haveria ainda mais abate se esse consumo fosse de algum modo regulamentado. Para isso, pedem a criação de alguns centros de análise sanitária pelo Ministério da Agricultura que pudesse fazer a liberação da carne. 

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Giovana Girardi e Gabriela Biló, enviadas especiais a Barretos (SP)

24 Dezembro 2016 | 03h00

Há quem acredite que os javalis e javaporcos, se mantidos em uma população pequena, podem ter uma função ecológica de servir de “escudo” da fauna local. Foi o que pesquisadores observaram no Pantanal, onde uma variante do javali, o porco-monteiro, vive em certo equilíbrio há 200 anos.

No relato de caçadores ouvidos pela reportagem, isso não parece tão absurdo. “Antes era tudo escondido. Muitos de nós caçavam capivara, outros animais. Mas na hora que apareceu o porco a gente se animou. Andando por aí a gente vê veado, mas nem chega perto. Um porco rende cem quilos. Vai matar bicho bonitinho de 10 kg?”, contou Anderson Moreno.

“Depois que começamos a caçar o porco, às vezes até passa capivara do nosso lado, mas nem ligo. Para quê? Deixa a capivara quieta. Você se encrenca mais matando uma capivara que alguém num bar”, emendou Henrique Souza.

O pesquisador Felipe Pedrosa, da Unesp, investiga também se o javali, também em baixa densidade, poderia desempenhar o papel de antas como dispersores de sementes em locais onde o maior mamífero terrestre das Américas já não existe mais.

“Em altas densidades, os javalis alteram a dinâmica dos recursos hídricos, podem soterrar nascentes, competem com espécies nativas, como queixadas e catetos. Mas se tivermos o porco sob controle, em uma quantidade pequena, talvez o benefício possa ser maior que o malefício para o ambiente, ao ajudar na ciclagem de nutrientes, defecando e fertilizando o solo, e auxiliar na dispersão de semente”, afirma Pedrosa.

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Invasão de javalis no Brasil tem origem na importação dos anos 90

Sem predadores naturais – só onças são capazes de matar um javali quando não está em bando, mas elas estão em extinção – e com uma taxa reprodutiva elevada, multiplicação foi rápida

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Giovana Girardi e Gabriela Biló, enviadas especiais a Barretos (SP)

24 Dezembro 2016 | 03h00

Há duas explicações para o início da invasão no Brasil. Em 1989, porcos selvagens entraram no Brasil, vindos do Uruguai, por Jaraguão (RS). Depois, nos anos 1990, javalis foram importados da Europa e do Canadá por produtores de suínos, que viram na carne nobre, altamente proteica e com baixo teor de gordura, um excelente negócio. Logo, porém, descobriram que não era bem assim. 

“Quem importou foi o suinocultor tradicional, que estava acostumado a ter um porco doméstico com seis meses de idade atingir 100 quilos. O javali atinge 60 kg em média. A taxa de aproveitamento do porco também é muito maior. Depois de limpo, vai dar uns 70 kg de carne. Já o javali rende só uns 50%. O peso é menor e tem menos aproveitamento de carcaça. A conta não fechou para o suinocultor, especialmente os pequenos. Além disso, a carne de javali é mais cara, não é todo mundo que pode pagar”, descreve o ecólogo Felipe Pedrosa, doutorando da Unesp de Rio Claro, sobre o início do problema.

“Aí o produtor tentou salvar o negócio e cruzou o javali com porcas. O cara que fez o javaporco, esse sim chegando fácil a 120 kg, vendeu como se fosse javali num preço mais baixo e prejudicou quem tinha só javali. O bicho era bem maior, mas continuava sendo muito agressivo. Alguns fugiram, outros simplesmente foram soltos pelos criadores nos mais diferentes lugares.”

Sem predadores naturais – só onças são capazes de matar um javali quando não está em bando, mas elas estão em extinção – e com uma taxa reprodutiva elevada (cada fêmea pode gerar cerca de 11 filhotes em duas ninhadas por ano), a multiplicação foi rápida.

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