Especialista vê nova regra como forma de dar 'limites aceitáveis' para exorcismo

'Do ponto de vista teológico, seria impossível a Igreja negar a prática, porque está na Bíblia', diz Philippe Sartin doutorando em História Social pela USP

Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

O exorcismo se tornou popular no catolicismo na Renascença, depois do século 17, segundo o doutorando em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) Philippe Sartin. Naquela época, atos do tipo eram vistos como uma forma de evitar a debandada de fiéis com a Reforma Protestante. “Servia de propaganda religiosa. Quando o padre conseguia expulsar um demônio ficava patente naquela população que a Igreja triunfou sobre o demônio. Era um tipo de legitimidade que os protestantes não conseguiam ter.”

Segundo Sartin, o subsídio publicado pela CNBB não é um incentivo, mas uma forma de dar “limites aceitáveis” para a prática do exorcismo, como, por exemplo, de ser realizado apenas por padres com licença expressa do bispo. “O texto admite certas coisas, mas doutrinando, disciplinando. Do ponto de vista teológico, seria impossível a Igreja negar a prática, porque está na Bíblia. Então, resta fazer, mas da forma mais racional possível, para não virar propaganda negativa”, diz.

Já Francisco Borba, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), aponta que o ceticismo também influencia no retorno do exorcismo. “No mundo moderno, haveria apenas a natureza explicada pela ciência. Quanto mais a gente se afasta da religião, paradoxalmente, mais se aproxima dessas manifestações extraordinárias. Nossa sociedade se torna cada vez mais ansiosa por respostas místicas, quase mágicas, para manifestações culturais, para tornar a vida de certa forma menos insossa”, ressalta.

Ex-reitor da PUC-Rio, o padre Jesus Hortal Sanchez reitera, contudo, que o tema ainda tem pouca atenção da Igreja Católica. “Converso com muitos padres e eles estão preocupados com outras questões, como a transmissão da mensagem do Evangelho de Cristo e a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. O cristianismo tem uma função social, de olhar para toda a sociedade, não quer apenas salvar almas, mas construir o reino de Deus.”

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Priscila Mengue e Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

"Quem não reza a Deus, reza ao diabo.” A frase do papa Francisco no início do seu pontificado põe em realce a necessidade: se existe o diabo, ele deve ser combatido. Por isso, o Vaticano orientou neste ano todas as dioceses do mundo a treinar padres para fazerem exorcismos. Das quatro dioceses da cidade de São Paulo, duas têm exorcistas oficiais – Santo Amaro e Campo Limpo (ambas na zona sul) – e duas não – São Mateus (zona leste) e Osasco (que inclui parte da zona oeste da capital). E a Arquidiocese de São Paulo, uma das mais importantes do mundo, já prepara exorcistas.

“A prática dos exorcismos sempre existiu na Igreja e não se trata de novidade. O papa recomendou o que é uma prática consolidada na Igreja”, afirma o cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer. “A Igreja é muito prudente nessa matéria e, por isso, a prática do exorcismo precisa ser autorizada e encarregada por quem de direito.”

Há três meses, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) publicou um subsídio próprio sobre o tema, orientando também que cada uma das 215 dioceses e 44 arquidioceses do País tenham um padre designado para a função. E não falta procura para o rito: segundo o Vaticano, em diversos países, a demanda tem aumentado a cada ano, ao ponto de alguns sacerdotes serem obrigados a fazer até 20 atos por dia na Itália. 

Um dos argumentos apontados pela Igreja para o aumento da procura é o fato de que supostas cerimônias satânicas têm ganhado força, até pela proliferação de pessoas em contato com grupos por meio da internet. Soma-se a isso, na avaliação de religiosos, uma sociedade cada vez mais distante da fé e dos valores da Igreja Católica. O resultado: um número maior de pessoas possuídas, isto é, dominadas pelo demônio.

Em grande parte banido de homilias e discursos de papas nos últimos anos, o tema da presença demoníaca foi retomada por Francisco em 2013. Ele ainda adotou medidas que apontam para a aprovação desses atos e seu apoio à medidas de formação. Em 2014, por exemplo, reconheceu a Associação Internacional de Exorcistas, entidade que reúne 250 padres, espalhados por 30 países. A publicação da decisão em uma das edições do L'Osservatore Romano também foi considerada como uma chancela da Santa Sé. “O exorcismo é uma forma de caridade que beneficia aqueles que sofrem”, disse Francesco Bamonte, presidente da Associação de Exorcistas, ao jornal oficial do Vaticano. 

Os gestos do papa já têm causado impactos reais. A Universidade Pontifícia Regina Apostolorum, ligada ao Vaticano, passou a promover um curso a cada ano, reunindo especialistas de todo o mundo. Igrejas da Espanha e Itália, apenas em 2017, teriam recrutado mais de 18 padres especialistas em exorcismo para ajudar nos trabalhos. Na Polônia, a formação de jovens já permitiu que um total de 130 padres prestem esses serviços. 

Na maior diocese do mundo em número de paróquias, a de Milão, foi criado um número de telefone direto diante da demanda que a Igreja passou a receber. Desde 2012, o número de exorcistas passou de seis para 12. No mesmo período, a demanda por esses atos também dobrou.

Psicológico ou real? Dentro do próprio Vaticano, as estimativas apontam que apenas 1% dos casos avaliados acaba tendo um diagnóstico de que, de fato, se precisa passar por um ato exorcista – ou seja, desconfia-se da presença do diabo. Mesmo entre os religiosos católicos, é comum se referir à possessão como um fenômeno raro. Dentre os sacerdotes ouvidos pelo Estado, o padre Pedro Paulo Alexandre, exorcista oficial da diocese de Florianópolis, é o que declara ter encarado o demônio por mais vezes: cerca de 30, em dois anos.

Segundo ele, a eficiência de um exorcismo depende da crença do atendido. O tempo de resposta também pode variar, indo de um dia a décadas. “O padre Gabriele Amorth (italiano, referência mundial no tema, morto em setembro) dizia que é a pessoa que se liberta. Ele apenas ajuda.”

Mal foi ordenado exorcista da diocese de Brasília, em 2012, o padre Vanilson Silva, de 48 anos, começou a se deparar com filas em frente da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Segundo ele, as notícias de que havia um padre que expulsava o demônio correram rápido pela cidade, chegando a outros Estados no decorrer dos anos. Por isso, o jeito foi criar uma agenda, com cerca de cem atendimentos mensais, e uma lista de espera, que no dia 14, reunia 102 nomes, o que ainda motivou o fim dos agendamentos. “Recebo gente de tudo o que é lugar, mas o exorcismo é muito raro.”

Ele explica que a duração do atendimento vai de 20 minutos a mais de uma hora. O tempo varia de acordo com a gravidade dos casos, que, se constatada a natureza sobrenatural, podem ser de opressão, no qual o demônio estaria próximo da pessoa, e de possessão, quando dominaria o corpo dela. O primeiro passo é conversar com o atendido, para conhecer os sintomas e o histórico comportamental da pessoa. “Sempre tem uma relação espiritual. O demônio se aproxima apenas se for aberta uma brecha”, diz. “A maioria só tem um contato com o mal porque não se cuida suficientemente. Onde Jesus está, o demônio não está.”

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Priscila Mengue, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

Todo sábado e toda segunda-feira, Dona Josefa cobre os cabelos com um lenço, coloca um crucifixo, guarda seu rosário na bolsa e pega um micro-ônibus rumo ao Terminal Varginha, na zona sul de São Paulo. De lá, pega mais duas conduções até o Santuário Nossa Senhora Mãe dos Aflitos, Vila Gea, também na parte sul. Como ela, cerca de 5 mil pessoas frequentam as missas do padre Anderson Guerra de Andrade, de 36 anos, exorcista há dois anos.

Nascido na Diocese de Santo Amaro, onde se ordenou, ele relata a cura da depressão da mãe, que teria sido libertada da influência do demônio pelo padre Marcelo Rossi, que atrai multidões para o vizinho Santuário Mãe de Deus. Em dez anos de sacerdócio, Andrade calcula mais de 2 mil libertações e ao menos três exorcismos. “O primeiro sinal para uma pessoa trabalhar com cura e libertação, sobretudo exorcismo, é não ter medo, é o grande sinal. Ninguém precisa ter medo do mal, porque nós temos um Deus muito mais poderoso que qualquer coisa que há neste mundo.”

Confira a seguir a entrevista do padre:

Como o demônio age?

De diversas formas. Ele pode estar me oprimindo, como se estivesse pressionando contra algo, está próximo. E o que é a possessão? É quando o demônio entra e toma conta da vida da pessoa, e aí, complicou, aí a gente tem de identificar. São passos que vão acontecendo. Primeiro vem uma tentação, depois uma provação, aí posso aceitar: sim ou não. É uma área muito vasta. Nunca peguei um caso igual ao outro nos dez anos que eu tenho de padre, todos são diferentes, mas todos têm uma raiz – e em 90% das vezes é falta de perdão.

Qual é a diferença entre libertação e exorcismo?

Na libertação, eu peço a Deus que ele mande embora o mal, o demônio. No exorcismo, eu dou uma ordem direta ao demônio, com a autoridade que me foi dada pela Igreja. 

Como um padre identifica que uma pessoa está sob influência do demônio?

Tem de ser investigado, fazendo oração, acompanhando a pessoa, atendendo confissão. A Igreja pede que tenha psicólogos junto, por exemplo. De repente pode ser um trauma, a pessoa pode estar com algum surto psicológico. A gente tem de tomar cuidado. Aí você fala que a pessoa está com o demônio, mas não é verdade, faz o quê depois? 

E quais são os procedimentos após essa constatação?

Se você está com uma dor, você chega no médico e fala: ‘Faz uma cirurgia em mim?’ Você chega falando isso para o médico? Você não faz isso. Você chega no médico e diz ‘Estou com uma dor’, e ele vai te examinar, te dar um remédio, um tratamento. Qual é o último recurso, quando não se resolve de nenhum jeito? Cirurgia. O exorcismo é a mesma coisa, é o último recurso dentro da cura e libertação. 

Os exorcismos podem ocorrer durante as missas?

Quando eu proclamo a palavra de Deus com autoridade, a libertação acontece naturalmente. Por isso, nós, da Igreja Católica, não fazemos sensacionalismo, não vivemos de sensacionalismo, de colocar uma pessoa ali na frente e ficar brincando, não é a vontade de Deus. 

Pelo o que o senhor falou, quando ocorrem esses casos, uma pessoa de alguma forma deu margem para isso. Só ocorre se tiver uma interferência?

Sim, perfeito. Uma pessoa que leva uma vida normal, tem defeitos, no geral, não vai ter problema. 

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