Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2017 | 06h00

CAPIVARI - Além da braçadeira de monitor, os jovens Matheus Berteli, de 19 anos, e Agrício Nunes Medrado, de 22, atiradores do Tiro de Guerra (TG) de Capivari, no interior de São Paulo, não têm quase nada em comum. Berteli é filho de um industrial do setor de metalurgia pesada e, até o ano passado, tudo o que fazia era dirigir carrões importados e se equilibrar sobre uma prancha de surfe no Guarujá, litoral paulista. Agrício é do interior da Bahia e migrou para Capivari, em 2016, em busca de trabalho, após perder o emprego em uma fazenda. Com ele e a mãe vieram seis dos 11 irmãos. Os outros ficaram no Nordeste, trabalhando na roça com o pai.

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Desde fevereiro, algo mais aproxima os dois rapazes: eles são líderes no grupo de 50 atiradores da turma do TG de Capivari, que celebra seu centenário neste ano. Eles foram incorporados ao serviço militar obrigatório como não voluntários. Agora, ambos estão inclinados a seguir a carreira militar. 

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Berteli ainda tem dúvida. A fábrica do pai está em expansão e ele planejava cursar Comércio Exterior. "Não queria me alistar, achava que ia atrapalhar, mas meu pai fez o Tiro de Guerra e sempre dizia que, para ele, foi um divisor de águas."

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Berteli conta que, na seleção e nos primeiros dias de tiro, achou que não ia funcionar. "Vi muito garoto estranho, de perfil muito diferente do meu. Fiquei meio arredio, sentei lá no fundo, mas o sub (tenente) veio e disse: 'Não crie minhoca, moleque, sua carcaça já é minha', e me puxou para a frente. Logo minha cabeleira estava no chão. Em poucos dias tinha feito amizade com todos." O antigo "filhinho de papai" revelou-se disciplinado e solidário. Em pouco tempo liderava seu grupo. "Meu pai espera que trabalhe com ele. Estou em dúvida. Estive na escola preparatória de cadetes em Campinas e fiquei entusiasmado. Quando visto a farda e venho para cá, me realizo."

Agrício já se decidiu e o TG é o ingresso na carreira mais do que planejada. "Descobri o que tenho no sangue. Vou fazer o curso da Escola de Sargentos e, no que depender de mim, vou passar. Já me vejo no Exército." É o primeiro atirador da família.

Disciplina

O subtenente Jailton Cordeiro da Silva, de 46 anos, que assumiu o TG Capivari em dezembro, conta que o quartel prepara para ser bom cidadão. "A disciplina, a responsabilidade e o tratamento igual para todos que aprendem aqui servem para a vida que vão levar como operário, professor, político ou empresário. Certamente muitos vão sair melhores do que entraram. Como aqui representa o Exército, e isso deixamos claro, muitos se interessam em seguir carreira militar."

É o caso de Paulo Henrique da Silva, de 19 anos. O pai, caminhoneiro, e a mãe, costureira, acharam que seria perda do tempo de trabalho ir para o quartel. "Também achavam perigoso eu vestir farda. Eu os contrariei porque queria saber como era. Vim como voluntário e passei por todas as etapas até chegar a monitor." Silva reconhece que ele era um problema para a família. 

"Tenho cinco irmãos, mas eu era o mais rebelde. Não aceitava ser mandado, não acatava os conselhos dos meus pais. Hoje, ele me veem com outros olhos." Seu plano era concluir o terceiro ano do ensino médio e não seguir adiante, mas isso também já mudou. "Vi que só estudando eu consigo entrar na escola de sargentos e ser alguém na vida."

A rotina é a mesma de outros futuros reservistas recrutados pelos mais de 220 tiros de guerra no País. Como a maioria trabalha ou estuda, eles se apresentam às 6 horas e cumprem atividades até às 8, recebendo instruções militares, aulas de civismo e cidadania, noções de armamento e primeiros socorros. 

Em rodízio, alguns são convocados para a segurança do quartel por 24 horas. Os alistados usam uniforme do Exército e têm o dever de mantê-lo impecável, assim como deixar barba feita e cabelo curto. 

Aqueles que se destacam nas tarefas e no estudo, são assíduos e interessados acabam escolhidos para a liderança. Nessa escolha, o subtenente usa a experiência de quem já treinou e comandou tropas adultas. "O comandante tem de ser também o psicólogo, enxergar o que está por trás do olhar do jovem, motivar, dar responsabilidade, cobrar e também premiar os que se esforçam mais", afirma o sub. "A parte prática será no quartel do Exército em Itu, mas só quando eles tiverem dominado toda a teoria." 

 

Os jovens que moram na cidade se alistam no primeiro semestre do ano em que completam 18 anos. Em agosto, têm início o processo de seleção. "Recebemos de 200 a 300 e vão ficar apenas 50, voluntários ou não. Geralmente, cerca de 25% querem fazer o tiro, os demais são convocados contra a vontade, mas muitos mudam de ideia quando o treinamento começa. Eles percebem o valor do que estão aprendendo aqui." 

O militar conta que os jovens não recebem salário ou ajuda de custo, por isso, muitas vezes, a resistência vem de casa ou do trabalho. "Muito empregador não contrata quem está em idade de servir, o que é um erro. O patrão precisa levar em conta que estamos capacitando a mão de obra dele."

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José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2017 | 06h00

CAPIVARI - O aposentado Benedito Ággio, de 91 anos, o seu Benê, conhece o valor do serviço militar. Nascido em 1926, serviu no Tiro de Guerra (TG) de Capivari em 1944 e foi homenageado na festa do centenário, celebrada em 20 de setembro. "Como era o tempo da 2.ª Guerra, havia 120 atiradores. A todo momento nosso pessoal era colocado de prontidão para um possível embarque para a frente de batalha, na Europa. Além de manusear fuzil com baioneta, aprendíamos a cavar trincheiras." 

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Foram convocados rapazes de várias cidades para aumentar o contingente. "Tivemos aulas sobre os costumes da Itália, até aprendemos alguma coisa do italiano. Volta e meia alguém falava que os navios estavam atracando em Santos e íamos embarcar. No fim, meu ano acabou e fiquei aqui, até frustrado de não ter ido à guerra." Ele se arrepende de não ter seguido carreira militar - fez concurso público e se tornou inspetor de alunos. "Nunca esqueci o que aprendi no TG de Capivari. Muitos dos colegas do tiro ficaram meus amigos pelo resto da vida. Pena que já morreram."

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Cerca de 5 mil jovens já passaram pelo TG de Capivari. Entre os ex-atiradores está o jurista e o ex-ministro do Trabalho, Almir Pazzianotto. O prefeito de Capivari, Rodrigo Proença (PSDB), afirma que a cidade se orgulha de seu Tiro de Guerra. "É uma escola de cidadania, que auxilia na formação de nossa juventude."

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Os 100 anos do Tiro de Guerra de Capivari foram comemorados no dia 20 de setembro, com a presença do general de Exército João Camilo Pires de Campos, comandante militar do Sudeste, homenageado com o título de cidadão honorário. Na ocasião, lembrou que, ao todo, oito tiros de guerra em sua área de comando chegavam ao centenário.

"O orgulho que temos do nosso Exército não é pelo armamento, nem pela quantidade de helicópteros ou pelas missões que fazemos. É porque temos valores, temos história", disse.

Mais de 600 pessoas participaram da cerimônia, encerrada com a Canção do Expedicionário, apresentada pela Banda de Música da Escola Preparatória de Cadetes de Campinas.

 

 

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Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2017 | 06h00

SÃO PAULO - Na idade da tecnologia, o Tiro de Guerra, uma instituição de 115 anos, tem trabalho e função. Formar reservas do segundo círculo para o Exército e atender às regras do serviço militar obrigatório em municípios fora do eixo das grandes unidades é a mais óbvia. Há mais. Desde a criação da primeira Linha de Tiro, em 1902, na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, a formação de novas lideranças nas comunidades é um objetivo. 

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A operação do modelo é simples. A prefeitura e o comando do exército na região firmam um convênio por meio do qual o instrutor, o fardamento e todo o equipamento são fornecidos pela Força Terrestre, ficando as instalações por conta da administração local. A ideia é facilitar a vida do recrutado, estabelecendo para ele uma rotina que permita conciliar o treinamento na tropa com o trabalho e a escola.

+++ Quando se troca o balé pelo combate

O ciclo de estudo, nos pouco mais de 220 Tiros de Guerra distribuídos pelo País, dura 480 horas de preparo, com mais 36 horas para os que se alistam no curso de formação de cabos - e podem permanecer no Exército por até 8 anos. Boa parte do currículo geral envolve ações de apoio à saúde pública, defesa civil, ambientalismo e segurança. Há, claro, a instrução de combate. Dessa combinação resultam opções profissionais. De acordo com o Ministério da Defesa, cerca de 20% dos alistados que chegam até o fim das 40 semanas, revelam interesse em seguir na carreira por meio das escolas de oficiais e sargentos. 

 

 

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