Escoamento da Lagoa preocupa especialista

Para engenheiro, sistema deficiente de canais faz com que região fique mais suscetível a alagamentos intensos

Bruno Boghossian, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

/ RIO

O alagamento que deixou debaixo d"água o entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e parte do bairro do Jardim Botânico, na zona sul do Rio, expôs, mais uma vez, a fragilidade da região nobre da cidade aos temporais. Para governo e prefeitura, a chuva atípica e a maré alta foram as responsáveis pelas inundações, mas o professor da área de engenharia costeira Paulo Cesar Rosman alerta para a precariedade dos sistemas de escoamento.

"É como tentar esvaziar a banheira de casa com um canudinho", comparou Rosman, do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ). "Os canais que fazem o escoamento foram projetados no século passado, com os conhecimentos que se tinha naquela época."

Dois canais escoam a água dos rios afluentes e da Lagoa: o do Jardim de Allah, que deságua entre as praias de Ipanema e do Leblon, e o da Avenida Visconde de Albuquerque, no Leblon.

Nível. Confinada entre um conjunto de morros e o litoral, em área intensamente urbanizada, a região tende a acumular água. Com o maior temporal em quatro décadas, o nível da lagoa subiu. A Avenida Borges de Medeiros desapareceu sob a água e só foi parcialmente liberada ao tráfego na tarde de ontem.

Segundo a gerente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) Fátima Guerra, o temporal provocou acúmulo anormal de água na região da Lagoa, e a maré alta na praia impediu o fluxo do volume excedente pelo Jardim de Allah. "Com esse sistema, mantendo as comportas abertas, é possível escoar a água da Lagoa para o mar, mas você teve chuvas intensas, absurdas, e uma situação de maré muito alta."

"Com o mar alto, a situação é ainda pior, porque as águas ficam represadas e o sistema de drenagem fica todo afogado", explicou o gerente de recursos hídricos da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Luiz Salles.

Para Rosman, a maré não pode ser considerada a única responsável pelo alagamento da lagoa. "A maré mais alta se torna um problema porque o canal não tem competência hidráulica." Ele diz que o aprofundamento e alargamento de alguns pontos do canal, além de seu prolongamento além da linha do mar, poderiam ampliar a vazão de água, de 5 m³/s para 20 m³/s.

Reforma. O governo e a prefeitura estudam projetos para reformar o canal do Jardim de Allah em parceria com a empresa EBX, que desenvolve um plano de revitalização ambiental no local.

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