Equipe enfrenta entulho e escuridão

Fornecimento de energia teve de ser cortado no Morro do Bumba para evitar incêndios; com pás e enxadas, moradores procuram parentes. Prefeito do Rio quer remoção total em áreas atingidas

Talita Figueiredo, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2010 | 00h00

Pouco depois da tragédia da noite de ontem, moradores de Niterói estavam desesperados, chorando, gritando nomes de parentes e tentando ajudar com as próprias mãos as equipes dos bombeiros que foram desviadas de outros locais para tentar encontrar soterrados.

 

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A dificuldade do resgate, segundo a prefeitura, era ter o cuidado na retirada dos entulhos para evitar ferir pessoas que estivessem embaixo dos escombros. Como a luz foi cortada para evitar explosões e incêndios, era difícil saber a extensão e a quantidade de terra que cobriu as casas, mas a informação do Corpo de Bombeiros era de que seria o maior deslizamento desde o início das chuvas.

O prefeito Jorge Roberto Silveira (PDT) calculava anteriormente que precisaria de R$ 15 milhões para assentar 320 famílias que vivem em área de risco e 2.600 pessoas que estão desabrigadas por causa da chuva, além de recuperar os acessos da cidade, afetados por quedas de barreira. Em vários pontos da cidade, como o Morro do Beltrão, havia pessoas desaparecidas há mais de 40 horas. Desesperados, moradores já procuravam os parentes usando pás e enxadas.

30 pontos. De acordo com o prefeito de Niterói, 300 homens do Corpo de Bombeiros, além de funcionários da Defesa Civil, trabalhavam no resgate dos corpos. "São mais de 30 pontos de deslizamento na cidade. É a pior tragédia que atinge Niterói desde o incêndio de um circo (em 1961, que matou centenas de pessoas). Estamos fazendo um esforço brutal para recuperar a cidade", disse Silveira. Ontem, as seis primeiras vítimas da tragédia foram enterradas no Cemitério do Maruí, na zona norte da cidade.

Na capital, os cariocas ainda tentaram retomar a rotina, uma vez que a chuva deu uma trégua durante o dia. Mas foi uma tarefa difícil. Algumas vias importantes da capital continuavam obstruídas, como a Estrada Grajaú-Jacarepaguá, que só deve ser reaberta em um mês, e a Avenida Niemeyer, que liga São Conrado ao Leblon. A única ligação da Barra com a zona sul era feita pela autoestrada Lagoa-Barra. A queda de uma barreira causou a interdição da Rodovia Rio-Santos (BR-101-Sul), em Mangaratiba, na altura do km 450, durante toda a manhã. Mas, por volta do meio-dia, o tráfego foi liberado em meia pista.

Garis da Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio (Comlurb) recolheram 5.760 toneladas de lama e detritos. Os reboques da prefeitura socorreram 202 veículos abandonados nas ruas durante o temporal. Ontem, o Ministério da Saúde destinou ao Rio mais de 5 toneladas de medicamentos e insumos para os desabrigados. São ao todo 52 kits, suficientes para atender 26 mil pessoas por um período de três meses. Trinta e cinco bombeiros da Força Nacional desembarcaram no Estado para ajudar nos resgates.

Internado. O cineasta Fábio Barreto, de 52 anos, voltou a ser internado ontem no Hospital Copa D"Or, em Copacabana, na zona sul, depois de receber alta hospitalar no dia 22 para continuar o tratamento em casa. A medida foi tomada por precaução, de acordo com a assessoria da unidade, por conta das fortes chuvas, uma vez que a casa onde se encontrava o cineasta e o imóvel vizinho foram interditados por estarem em área de risco. Ele continua em coma.

Escolas. Hoje as escolas públicas voltam a funcionar na cidade do Rio. O comércio ainda não foi normalizado. Segundo Aldo Gonçalves, presidente do Conselho Empresarial de Comércio de Bens e Serviços da Associação Comercial, ontem o movimento estava 50% abaixo do normal. "O prejuízo acumulado desde terça já soma R$ 270 milhões", afirmou.

A área mais atingida pela chuva que atingiu a cidade ontem foi a zona oeste. A Favela Rio das Pedras, na região de Jacarepaguá, ainda estava alagada. No Morro da Mangueira, na zona norte, nove famílias permanecem abrigadas nos camarotes da quadra da escola de samba. Na parte baixa, um prédio de quatro andares na região conhecida como Buraco Quente veio abaixo. "Nós cadastramos 70 famílias, mas a maioria resiste em deixar as casas", explicou o diretor da Associação dos Moradores do Morro da Mangueira, Marcos Pereira da Silva. / COLABORARAM MÁRCIA VIEIRA, BRUNO BOGHOSSIAN, TALITA FIGUEIREDO, PEDRO DANTAS e CLARISSA THOMÉ

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