Encostas deslizam e soterram famílias

Em Santa Teresa, 14 pessoas morreram e entre 10 e 15 corpos ainda poderiam ser achados nos escombro; Niterói registrou 48 vítimas

RIO, O Estado de S.Paulo

07 Abril 2010 | 00h00

O rastro de destruição em várias partes da região metropolitana do Rio expôs histórias dramáticas. A cidade de Niterói teve o maior número de vítimas, 48 ao todo, em eventos espalhados por pelo menos dez áreas diferentes. Em Santa Teresa, Centro do Rio, 14 pessoas morreram quando várias casas na encosta do Morro dos Prazeres vieram abaixo. E a expectativa da Defesa Civil era de que entre 10 e 15 corpos ainda poderiam estar debaixo dos escombros.

Situações de dor e pânico ocorriam a todo instante. Em Niterói, no Morro do Estado, bombeiros trabalharam por 11 horas ininterruptas para retirar Maria Auxiliadora Gomes da Silva, a Dorinha, de 48 anos, debaixo de lama e pedras que se misturavam aos móveis de sua casa, que ruiu e desabou. Ela foi salva porque na queda acabou lançada para dentro de um armário.

O marido de Maria Auxiliadora, Sebastião Pereira da Silva, acompanhou a ação dos bombeiros, amparado por parentes e amigos. Ficou aliviado ao ver o resgate da mulher, mas ainda esperava por notícias do filho, seu homônimo, de 22 anos. Logo depois, os bombeiros localizaram o rapaz. Estava morto.

No Morro dos Prazeres, 60 homens e mulheres do Corpo de Bombeiros tiveram de interromper o trabalho de resgate à tarde por causa do aumento das chuvas, pois havia risco de novos deslizamentos de terra. Mais cedo, dezenas de moradores tomaram a iniciativa de começar a remoção dos escombros, antes mesmo da chegada dos bombeiros. Apesar da intensidade da tragédia, o poder público demorou para agir nos Prazeres. Seis corpos de vítimas do desabamento permaneceram horas no chão até a chegada da remoção. Até o início da tarde, o número de bombeiros atuando no local era ínfimo. Por volta das 14 horas, policiais militares e bandidos trocaram tiros na entrada da comunidade, levando ainda mais pânico para a população, já desesperada.

Resgate. Uma das situações mais dramáticas no Morro dos Prazeres ocorreu ao longo da tentativa de resgate do menino Marcus Vinicius Vieira da França da Matta, de 8 anos. Levado para a casa de uma tia, depois que não conseguiu chegar ao colégio, o garoto foi soterrado e permanecia vivo sob os escombros até o início da noite de ontem. Mesmo com a forte chuva que caía na região, os bombeiros não pararam de cavar no local de onde vinham os gritos de socorro de Marcus Vinícius. Seu pai, Valmir, acompanhava cada minuto do resgate e comemorava a cada novo sinal de vida do menino. Um outro rapaz não identificado de 18 anos também foi resgatado dos escombros.

Erika Cristina Santos de Nazareth, de 21, vagava pelas ruas da comunidade, desolada, em busca de notícias de seu marido, o motoboy Igor Malaquias dos Santos, de 28. Segundo ela, o rapaz saiu para comprar pão para os três filhos momentos antes de parte das casas da Rua Gomes Lopes ser soterrada. Testemunhas confirmaram que viram um motoboy ser arrastado pela avalanche de terra e escombro que desceu a Rua nos Prazeres. "Quando começou a cair terra, fui levar meus filhos para a casa da minha irmã no Grajaú. Ao voltar, meus vizinhos disseram que a avalanche tinha levado o Igor. Estou desesperada", disse Erika.

Enxurrada de terra. No Morro do Borel, na Tijuca, zona norte do Rio, um deslizamento matou uma mulher grávida e as duas filhas e a enxurrada de terra destruiu seis casas. Vizinhos ajudaram a socorrer pessoas soterradas mesmo com o risco de novos acidentes. Eles temiam por pedras que pareciam soltas no alto do morro. "Na enchente de 1988, 25 pessoas morreram em um deslizamento aqui. O governo abandonou o reflorestamento. Os moradores ocupam e jogam lixo nas encostas. A tragédia previsível aconteceu novamente e, desta vez, com a minha família", disse Antônio Carlos da Silva Donato, tio de Marcele Barbosa, de 20 anos, que foi soterrada, grávida de 5 meses, juntamente com as filhas Ana Luísa, de 2 anos, e Ana Marcele, de 6 meses.

Ainda no Borel, desoladas com a tragédia, algumas pessoas vagavam pela favela sujas de lama e exaustas após a noite em claro. Entre elas, a empregada doméstica Vera Lúcia dos Santos, de 38 anos. "Perdi tudo. As coisas que salvamos não estão funcionando. Mandei meus quatro filhos para casa de parentes e estou perambulando sem destino, dependendo do coração dos vizinhos", lamentava.

No Morro dos Macacos, em Vila Isabel, zona norte, um deslizamento matou cinco pessoas. Uma família inteira e um homem não identificado até as 20 horas de ontem foram soterrados, por volta das 2 horas. "Os vizinhos tentaram ajudar, mas o casal não resistiu e morreu juntamente com os três filhos", contou uma moradora. / SÍLVIO BARSETTI, ALFREDO JUNQUEIRA, MARCELO AULER e PEDRO DANTAS

PARA ENTENDER

Um temporal que só ocorre a cada 50 anos

Dois fatores principais contribuíram para o enorme volume de chuva que atingiu o Estado em 24 horas, informam meteorologistas. O primeiro é a passagem de uma frente fria pelo Rio, vinda do Sul, em contraste com a atmosfera muito quente dos dias anteriores. O choque térmico facilitou a formação de nuvens pesadas.

O outro fator são os ventos marítimos. "Aumentaram a carga de umidade no ar e a disponibilidade de água", explicou a meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo.

De acordo com o meteorologista Lúcio de Souza, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet-RJ), esse vento, que carrega mais chuva do litoral de São Paulo para o Rio de Janeiro, deve persistir até hoje à noite. E o tempo permanece ruim até o fim da semana. "Até para obter os dados coletados nas estações meteorológicas está difícil, porque os operadores estão enfrentando dificuldade para chegar às estações."

De acordo com José Henrique Prodanoff, do Departamento de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da UFRJ, um temporal como esse tem entre 1% e 2% de chance de voltar a se formar. "Ainda é preciso que sejam feitas avaliações estatísticas, mas uma tempestade como essa só se repete em 50 ou 100 anos."

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