Angela Lereno
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Em um só aniversário, Cunha fica 134 anos mais velha

Cunha serviu de rota de tropeiros que percorriam a Estrada Real levando ouro de Minas até o porto de Paraty, no Rio

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

19 Março 2018 | 03h00

O aniversário de Cunha, no Vale do Paraíba, interior paulista, não vai deixar hoje a cidade de 22 mil habitantes somente um ano mais velha. O município, que iria completar 160 anos, vai envelhecer 134 de uma vez. 

O salto para o passado – a idade oficial passa a ser de 294 anos – é resultado de uma pesquisa histórica, cuja conclusão é de que o núcleo urbano surgiu muito antes do que se pensava. O “envelhecimento” da cidade foi decidido após audiências públicas e a aprovação de uma lei pela Câmara Municipal, oficializando a nova data da fundação.

Para o historiador João Veloso, como acontece com as pessoas, a passagem do tempo deixa marcas numa cidade que a “maquiagem” da modernização não consegue esconder. No caso de Cunha, uma dessas “rugas” é a Igreja da Boa Vista. 

“Todos os registros históricos indicam que a antiga Capela de Jesus, Maria e José da Boa Vista, o marco zero da cidade, foi construída em 1724. É evidente que a construção da capela decorre da presença de famílias no entorno. Ou seja, já nessa época havia uma povoação”, explica o historiador. 

A Igreja Matriz e alguns imóveis do centro também foram edificados há mais de 160 anos. Isso indica que o núcleo urbano tinha mais idade do que a oficial. Muitas casas são parecidas com as de Paraty, cidade fundada em 1667 na mesma região, embora no Estado do Rio. Veloso conta que a data da fundação foi tomada “por empréstimo” do evento que resultou na elevação de vila à cidade, em 20 de abril de 1858. 

Veloso defendia há muitos anos a correção histórica, mas demorou a conseguir apoio da prefeitura. “O trabalho de toda minha vida foi pesquisar a história de Cunha, mas não se dava importância a esse fato histórico. Agora vemos que a história verdadeira será reconhecida.”

 

Escolas

Hoje, a nova versão sobre a fundação da cidade será apresentada aos alunos da rede municipal, em evento. A partir daí, a data de 19 de março passa a ser considerada no currículo escolar local.

Com o anúncio dos anos extras e o esforço do resgate do passado, a prefeitura de Cunha prevê fortalecer o turismo na região. Hoje reconhecida como estância climática, com montanhas, vales, cachoeiras e paisagens exuberantes, a cidade vai investir também no lado histórico. 

A igreja da Matriz, construída em 1731, está sendo restaurada. “Essas evidências históricas remetem à época em que Cunha era rota dos tropeiros que percorriam a Estrada Real, levando o ouro de Minas até o porto de Paraty e, de lá, para o Rio e Portugal”, informa a administração municipal.

Segundo relatos históricos, o percurso era aproveitado das trilhas dos indígenas guaianases. O trânsito de portugueses na região levou à povoação de Cunha, onde as tropas de ouro coloniais descansavam. 

O clima temperado, que favorecia o cultivo agrícola, foi um dos fatores determinantes para o estabelecimento dos moradores no começo do século 18. 

A fundação oficial da região do Facão – como se chamava Cunha à época – foi em 1724. 

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