Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Em Cidade de Tiradentes, precariedade das calçadas faz morador andar pela rua

'Estado' acompanhou percurso de José da Silva, de 53 anos, que cuida de uma cadeirante: 'A gente se arrisca todo dia'; subprefeitura afirma que abrirá processo para apurar baixo número de multas aplicadas

Gabriela Caesar e Luciana Amaral, O Estado de S. Paulo

05 Setembro 2016 | 03h00

A pouco mais de uma hora do centro de São Paulo fica o distrito de Cidade Tiradentes, no extremo leste paulista. Lá moram cerca de 50 mil pessoas, parte delas atraída pelo sonho da casa própria. Entre os moradores, 15,25% vivem em situação de alta ou de muito alta vulnerabilidade, segundo dados do site da subprefeitura.

Rodeada por conjuntos habitacionais construídos a partir da década de 1980, Cidade Tiradentes é distante do centro urbano e tem pouca infraestrutura. Uma parte do distrito é chamada de "cidade informal", composta por favelas, moradias irregulares ou loteamentos clandestinos.

Apesar dos problemas, em Cidade Tiradentes houve somente uma única multa por irregularidade em calçada em 2015 e seis desde que a lei entrou em vigor. Questionado pelo Estado, o secretário-adjunto da Coordenação das Subprefeituras, José Rubens Domingues Filho, admitiu que o "número não é normal" e vai mandar abrir um procedimento interno para apurar o que aconteceu.

Além de catar papel, José da Silva, de 53 anos, cuida diariamente da cadeirante Michelaine da Cruz, de 32, órfã que teve paralisia cerebral ao nascer. Entre idas a médicos e passeios com Michelaine, Silva a leva do terminal de ônibus, no centro do bairro, até o setor Jardim Maravilha, onde moram, mas não sem dificuldades. "Mesmo aqui no centro, como na Avenida dos Metalúrgicos, é cheio de buracos. Há mais ou menos um mês ela caiu da cadeira ao passarmos em um. Quase quebrou a perna."

O Estado acompanhou parte do trajeto de Silva com Michelaine no centro de Cidade Tiradentes e constatou buracos, esgoto tomando calçadas e carros estacionados no meio do caminho, até mesmo ao lado de um movimentado ponto de ônibus. Para chegar ao local, é preciso sair do calçamento e andar na rua.

"A gente se arrisca todo dia, não é fácil. Ainda mais para alguém deficiente na cadeira de rodas. Nós somos pobres, mas podiam olhar mais para a gente", lamenta Silva.

Demandas. A recepcionista e coordenadora do Conselho Participativo Municipal de Cidade Tiradentes, Bárbara Morais, de 38 anos, mora na divisa do distrito com Ferraz de Vasconcelos e reclama que o que tem sido feito ainda é muito pouco. "Os recursos são escassos para nossa região, que não é mais só uma cidade dormitório. As pessoas andam a pé para o comércio. A Praça Maria das Graças dos Reis, mais arrumadinha, não reflete a realidade."

Também integrante do conselho, a orientadora profissional Cecília Gonçalves, de 62 anos, conta que costumava andar por todas as partes de Cidade Tiradentes. Para o trabalho, ela precisava visitar adolescentes infratores, muitas vezes em "situação precária, de complexa vulnerabilidade". "Os jovens não tinham tênis nem calça. Tinha dia que tinham bermuda, mas estava frio", lembra.

Moradora do distrito há 25 anos, Cecília afirma que a experiência lhe ajudou a montar uma rede de demandas da população local. No grupo, a melhoria da mobilidade a pé, sobretudo perto de escolas e hospitais, está entre as principais preocupações. Mesmo onde mora, próximo ao terminal de ônibus do bairro, na região mais valorizada de Cidade Tiradentes, a orientadora profissional identifica problemas variados nas calçadas.

"Eu vejo mãe que não consegue passar com carrinho de bebê, porque não tem espaço. Perto de posto de saúde UBS, idosos e cadeirantes não conseguem se mobilizar. Tem calçada em que ninguém consegue passar, pois jogam lixo. E, assim, fica."

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