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Em busca de apoio, MPL aceita qualquer grupo

Luta contra a tarifa abre espaço para partidos, sindicalistas e black blocs

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Felipe Resk,
O Estado de S. Paulo

17 Janeiro 2016 | 03h19

O militante Matheus Preis chegou à Sé, no centro de São Paulo, e fez um discurso breve para ativistas de movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos, reunidos em um “pré-ato” da manifestação contra o aumento da tarifa. Ao tirar a camiseta branca que estava por cima, exibiu sua bandeira: Passe Livre. Sem articulação de massa, o MPL aproveita o apoio para engrossar suas passeatas. Já os demais manifestantes enxergam nos atos por tarifa zero uma oportunidade para apresentar uma infinidade de pautas – feminismo, direitos LGBT, luta de classes, revolução – e tentam, à sua maneira, reeditar as jornadas de junho de 2013. Em passeatas do MPL, até black blocs são bem-vindos: em troca, formam a linha de frente, separando manifestantes da Polícia Militar.

Eram 16h40 quando Preis usou um megafone para convocar o grupo ao Teatro Municipal, onde integrantes do MPL se concentravam para um dos dois protestos marcados na quinta-feira. “O Movimento Passe Livre entende que esse aumento de tarifa é mais um ataque à classe trabalhadora neste momento de crise e os governos não têm nenhuma resposta viável”, discursou de frente para a catedral, pintada por bandeiras e faixas contrárias ao preço da tarifa do transporte, que subiu para R$ 3,80 após decisão do prefeito Fernando Haddad (PT) e do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Foi aplaudido sem muito entusiasmo – exceto por um mendigo que aparentava embriaguez.

Sentados na escadaria, os manifestantes que não eram do MPL usavam camisas de partidos, bandeiras marxistas, faixas com arco-íris LGBT, movimento negro, entre outros adereços. Conhecido por negociar o trajeto das passeatas com a PM, Preis interagia pouco com eles e concedia muitas entrevistas. Para Camila Souza, coordenadora do Juntos!, movimento de juventude ligado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), era fácil explicar o apoio ao movimento. “A pauta contra o aumento da passagem ganhou muito destaque e diz respeito à cidade como um todo. Queremos fazer essa luta crescer e construir um novo movimento, como em junho de 2013”, disse.

Também era possível ver bandeiras de outras legendas, como o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU). Embora se afirme um movimento apartidário e independente, o MPL vê como positiva a participação em protestos de qualquer pessoa que queira aderir a suas causas, seja ela membro de organização política, movimento social ou black bloc.

Entre os ativistas, porém, havia até quem não defendesse a tarifa zero, a principal luta do MPL. “Somos fraternos a eles, mas temos divergências programáticas e táticas”, disse Rodrigo Antônio, representante do coletivo Território Livre. “O movimento apoia pautas defensivas: somos contra o aumento da tarifa, por exemplo, mas não a favor do passe livre”, afirmou. “O nosso apoio é porque os protestos podem criar um movimento popular.”

Um dos manifestantes mais ativos era o presidente do Sindicato dos Metroviários de São Paulo, Altino de Melo Prazeres, que também esteve presente nas grandes manifestações de 2013. Ao lado do deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL), o sindicalista segurava a faixa em que estava escrito “3,80 não! Lutar não é crime” e guiou os ativistas até o Teatro Municipal – logo atrás dos batedores da PM, em motocicletas. Da Sé à concentração do MPL, todos os acessos estavam fechados por cordões de policiais.

“Nossa linha é organizar a mobilização e evitar atitudes isoladas de violência, principalmente para que as ações possam ganhar mais adesão”, afirmou Prazeres, que também acredita que o MPL está mais aberto a outros movimentos sociais do que em anos anteriores. O grupo de ativistas foi aplaudido quando chegou na concentração do Passe Livre, onde mascarados se misturavam a outros manifestantes.

Sem sofrer resistência, black blocs formariam uma linha de isolamento na frente da passeata, ladeada pela Tropa do Braço – o grupo da PM especializado em artes marciais e identificado no uniforme apenas pelo número de série. O grupo conseguiu cumprir o percurso do início ao fim, na Avenida Paulista, apesar do permanente clima de tensão. Após o ato ser dado por encerrado, uma confusão envolvendo mascarados terminou com a Estação Consolação depredada. A PM usou bombas de gás, de efeito moral e balas de borracha.

Influência. Para a pesquisadora Esther Solano, que acompanha o movimento desde as jornadas de 2013 e manifesta simpatia nas redes sociais, as chances de os protestos tomarem as proporções daquele ano são remotas. “Acho que esse ciclo já passou, houve de alguma forma um desencantamento muito grande e a sociedade se polarizou muito nesse tempo”, afirma a socióloga, que cita os atos pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) como ideologicamente contrários.

Porém, Esther acredita que o MPL continuará promovendo atos contra o aumento da tarifa. Segundo diz, é possível perceber que o movimento é integrado hoje por pessoas mais jovens e recebe influência direta da série de protestos de estudantes que suspendeu a reorganização da rede estadual de ensino no fim de 2015. Entre as estratégias herdadas estão os chamados “travamentos”, ações mais rápidas que as grandes passeatas, que o MPL tem promovido em terminais de ônibus na capital.

“A gente precisa olhar para outras lutas e reconhecer os acertos e erros. Aprendemos muito com os estudantes”, admite Vitor dos Santos, de 19 anos, uma das novas “figuras públicas” do MPL – termo usado pelo movimento, que se diz horizontal e sem liderança, para designar quem é indicado como porta-voz. Outra referência do Passe Livre hoje é o estudante Heudes Cássio Oliveira, de 18, que ficou mais conhecido por participar da ocupação da Fernão Dias, na zona oeste, a escola símbolo da resistência contra o fechamento de unidades estaduais.

Na quinta, Santos e Oliveira participaram do ato no Largo da Batata, zona oeste. Segundo afirma o porta-voz, a causa do MPL é uma “reivindicação popular”, mas o movimento não tem como horizonte os protestos de anos anteriores. “Avaliamos que junho de 2013 foi muito específico, não temos pretensão de repetir”, diz. “Lutamos por um transporte de qualidade e estamos dispostos a aceitar qualquer pessoa que queira participar.” Novo ato está marcado para terça, no cruzamento das Avenidas Faria Lima e Rebouças.

Por isso, justifica, até os adeptos da tática black blocs são aceitos. “Todas as pessoas que estão lá têm uma participação orgânica. Há uma causa social em que elas acreditam”, afirma Santos. De acordo com ele, o MPL já tentou negociar atos pacíficos com os mascarados, mas nem sempre é possível. “A gente não vai ficar controlando a ação das pessoas uma a uma. É uma população que está com raiva.”

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