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Ele passou em tudo e vai trocar a Poli por Yale

Marina Azaredo - O Estado de S.Paulo

30 Março 2014 | 02h 04

Primogênito de família de classe média de Guarulhos nunca esteve nos EUA e agora busca complemento de bolsa

Na manhã de sexta-feira, havia um "intruso" na sala dos professores do Colégio Mater Amabilis, em Guarulhos. Aos 17 anos, Luis Fernando Machado Poletti Valle era o centro das atenções. Os professores entravam e iam direto parabenizá-lo pela conquista do dia anterior: na quinta-feira, ele recebeu a carta de aceitação de duas das mais prestigiadas universidades do mundo, Yale e Columbia, ambas nos Estados Unidos. Antes disso, já havia sido aprovado em todos os vestibulares que prestou no Brasil: USP, Unicamp, Unesp, ITA, IME e UFRJ.

Na sexta, Luis Fernando visitava a escola em que estudou do 3.º ano do ensino fundamental até o último do ensino médio. À tarde, participou de uma conversa com os alunos do curso preparatório para o vestibular do ITA. "É legal que agora me veem como modelo e eu consegui, de algum jeito, mostrar coisas boas", contou.

Primogênito de uma família de classe média de Guarulhos, Luis Fernando mora com os pais e a irmã de 13 anos e nunca esteve nos Estados Unidos, embora já tenha viajado para o exterior por causa de olimpíadas escolares. Dono de 36 medalhas - entre competições de Química, Física, Português, História, Astronomia e Geografia -, já esteve na República Dominicana, na Colômbia e na Grécia. Em uma dessas viagens, aproveitou para conhecer Roma. "Achei a Itália e a Grécia muito impressionantes. Mas o lugar no mundo que eu mais quero conhecer é New Haven", conta.

É nesta cidade do Estado de Connecticut que fica o câmpus de Yale, universidade na qual Luis Fernando pretende estudar e formar-se físico. Para chegar lá, no entanto, ainda precisa conseguir um complemento para a bolsa de US$ 46 mil anuais que já conseguiu da própria universidade - o curso custa US$ 68 mil anuais.

"Quero uma universidade que forme bem em Humanas e Exatas, e Yale é uma das poucas que já no primeiro ano têm créditos em todas as áreas. Sinto muita falta disso na Poli", justifica. Aprovado em Engenharia Elétrica, ele começou a cursar a Poli em fevereiro deste ano, mas, embora a mudança para os Estados Unidos só deva acontecer em agosto, não pretende abandonar totalmente o câmpus da universidade paulista até lá. "Apesar de achar a Poli muito técnica, quero aproveitar o ambiente universitário. Lá tem gente com todo tipo de formação e opinião. E isso é incrível", explica.

Leitor voraz - aprendeu a ler sozinho, com os gibis da Turma da Mônica, e hoje se divide entre livros de filosofia e quadrinhos -, Luis Fernando gosta de visitar sites internacionais para se informar sobre assuntos como a crise da Crimeia. "Eu me interesso muito por conflitos geopolíticos."

'Menino Olimpíada'. "Eu não tinha ideia da capacidade intelectual do Luis, até que ele começou a achar o conteúdo da escola fácil e a procurar mais conhecimento. Isso aconteceu no 3.º ano do ensino fundamental e percebemos que ele precisava de uma escola mais forte", conta o pai, Adilson Poletti Valle, de 48 anos. Contador, sempre estudou em escolas públicas e fez o ensino superior nas Faculdades Integradas de Guarulhos. A mãe, Ewelise, de 42 anos, parou de estudar no ensino médio. Nenhum deles fala inglês.

Mas, apesar da dedicação aos estudos - o que o fez ser conhecido como "Menino Olimpíada" na escola -, professores e amigos garantem que Luis Fernando faz muito além de esmiuçar livros de Física e Cálculo. "Ele sabe dividir muito bem os momentos de estudar e sair com os amigos. Não é retraído, como muita gente pode imaginar. Nos fins de semana, a gente sempre joga futebol e videogame", diz o amigo Guilherme Araújo, de 18 anos, estudante de Engenharia da Computação na Unicamp. "Ele tem vontade de sempre estar em contato com coisas novas e de aprender mais, mas isso não é só com assuntos acadêmicos", destaca a namorada, Eliaris Alvares, de 18 anos.

"Decidi aumentar o tempo que gasto, ou melhor, que invisto em filmes, por exemplo. Porque percebi que cultura não é só Schopenhauer", diz ele, que conta ter gostado de obras como A Origem, Across the Universe e O Show de Truman. Fã de rock, gosta de bandas como Metallica e Foo Fighters e, no próximo fim de semana, vai a um show pela primeira vez. "Vou com a Eliaris ao Lollapalooza. Queremos ver principalmente o Muse, de quem ela é fã."

"O Luis não é um 'robozinho', é ser humano", resume a coordenadora geral do Mater, Margaret Cristina Toba.

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