Claton de Souza/Estadão
Claton de Souza/Estadão

'Efeito 5 a 2' cria corrida às caixas d'água

Moradores buscam alternativas após ameaça de rodízio drástico

Rafael Italiani, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 22h00

Somente uma linha de produtos tem vendido mais do que água em São Paulo. As próprias caixas d’água e os latões de 200 litros. A afirmação de que a cidade poderia entrar em esquema de rodízio, de cinco dias sem água e dois com, feita pelo diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato, na terça-feira, chegou a virar piada entre os paulistanos e criou algo que alguns comerciantes têm chamado de "efeito 5 a 2", como nos placares elásticos do futebol. 

"Parece mais goleada de jogo bom. Mas, depois que ele disse isso, eu nunca tinha vendido tanta caixa d’água", disse Cláudia Gonçalves, de 43 anos, gerente de uma loja de material de construção em Pirituba, na zona norte. De acordo com ela, de terça a quinta-feira, foram vendidas mais de 200 caixas. Anteriormente, a loja costumava fornecer uma média de 20 reservatórios por mês. “O patrão teve de viajar para buscar mais. Não param de fazer pedidos aqui e temos de repor o estoque todos os dias.” 

Nos 30 minutos em que o Estado ficou no depósito, seis caixas de 1 mil litros foram vendidas. A esteticista Lucimara Rosa, de 46 anos, entrou afoita, querendo saber se a loja poderia entregar uma caixa na casa dela no mesmo dia. "Olha, se não der para entregar, levo agora no porta-malas. Vai chover e eu não quero desperdiçar essa água. É ouro líquido", argumentou com a gerente da loja.

"Eu sabia que estava feio, mas depois do que ele (Massato) disse, fiquei com medo. Vou armazenar toda a água que eu puder", afirmou o motorista Elias Miguel, de 36 anos, que tinha acabado de comprar duas caixas d'água. 

A alta procura pelos reservatórios fez a loja aumentar a frota de caminhões, passando de dois para três veículos de entrega. "Mesmo assim, tem fila de espera", afirmou Cláudia, da loja em Pirituba. 

Em um pequeno comércio de Taipas, na zona norte de São Paulo, o comerciante Denivaldo Vazques Sampaio, de 43 anos, também sentiu o efeito "5 a 2" nas vendas. "Essa história me pegou de surpresa. As três caixas que eu tenho aqui já estão vendidas, e o fabricante não consegue trazer mais, de tanta procura", contou. 

Quem não tem carro para levar caixas d’água, carrega na mão mesmo. Em uma loja chamada Lar dos Tambores, no Jardim Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte, havia uma fila de carros, anteontem, com pessoas interessadas em comprar latões de plástico e de metal. “Eu já tenho um para guardar água da máquina. Agora quero outro para guardar a da chuva”, disse a professora Suzana Dotta, de 37 anos. Na tarde de ontem, o local não tinha mais latões para vender.

Da laje. A dona de casa Francimar de Souza Gonçalves, de 45 anos, adaptou uma caixa d'água antiga para receber água da chuva. Ela interligou o reservatório, que fica no quintal, com a laje da casa, local por onde a água escorria direto para o ralo.

Quando chove, ela consegue encher o reservatório de 500 litros e usa a água para lavar roupa e limpar o quintal. "O governo não me ensinou a fazer isso. Nas dificuldades precisamos andar com as próprias pernas, adaptar nossa vida para a falta de água", disse.

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