Marcio Fernandes/ESTADÃO
Marcio Fernandes/ESTADÃO

'É revoltante saber que crio meu filho em sociedade que discrimina pela cor da pele'

Enio Squeff jantava com o filho de 7 anos, que é negro, quando foi abordado por uma segurança do Shopping Higienópolis

Isabela Palhares, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2017 | 22h01

SÃO PAULO - O artista plástico Enio Squeff, de 73 anos, jantava com o filho de 7 anos no Shopping Higienópolis, na região central de São Paulo, quando uma segurança o abordou e perguntou se o menino estava o incomodando. “Ela viu uma criança negra e imediatamente assumiu que se tratava de um pedinte”, contou o pai ao Estado.

O episódio aconteceu na sexta-feira, depois de Squeff buscar o menino na escola, na mesma rua do shopping. “Meu filho estava do meu lado, com o uniforme e a mochila. Isso não significou nada, apenas a cor da pele dele foi o suficiente para o julgamento de que ele seria um pedinte”, disse. 

Segundo Squeff, a segurança teria dito que tinha ordens da direção do shopping para não deixar “mendigos importunarem os clientes”. Ao ser informada que o menino era filho do artista plástico, a mulher pediu desculpas. “Ela ficou muito sem graça e disse que só cumpria as ordens da casa, que também é negra e tem muito respeito pelos negros. Mas ela não tem respeito, ela assumiu o racismo dos patrões.” 

O pai disse que não quis denunciar ou formalizar uma reclamação contra a segurança por entender que a culpa é do shopping. “Ela provavelmente perderia o emprego, mas quem deu essa ordem não seria penalizado de forma nenhuma. Tenho certeza de que essa abordagem não partiu da cabeça dela, mas de ordens que recebeu.” 

Ele disse que está analisando a possibilidade de processar o shopping para evitar que a situação ocorra com outras pessoas. Na segunda-feira, após Squeff publicar nas redes sociais um relato do que aconteceu, uma pessoa do estabelecimento entrou em contato com a família para pedir desculpas e dizer que não há nenhuma orientação desse tipo no local. “Não aceitamos as desculpas por telefone, queremos uma retratação pública.” 

Squeff contou que o filho presenciou a abordagem e perguntou a ele porque tinha ficado bravo com a funcionária. “Ele ouviu quando eu disse que ela julgava meu filho por ser negro. Ele não entendeu tudo o que aconteceu, mas percebeu a minha indignação e irritação. É revoltante e muito triste saber que estou criando meu filho em uma sociedade como essa, que discrimina pela cor da pele”, afirmou o artista. 

Ainda segundo o pai, foi a primeira vez que a família passou por uma situação de racismo explícita como essa com o filho, que é adotado. “Eu fiquei surpreso, inconformado. Foi a primeira vez que passamos por isso, mas, com certeza, não vai ser a última. Vivemos em um país onde dizem ter uma democracia racial. Na verdade, aqui as pessoas explicitam seus preconceitos, discriminam, maltratam, sem vergonha nenhuma.” 

Outros casos

Squeff disse que já havia ouvido relatos de racismo no shopping. “A mãe de um amiguinho do meu filho foi ao local com um casal de amigos negros ingleses. Eles foram seguidos por seguranças durante todo o tempo.” Em 2012, 300 manifestantes fizeram um protesto no Shopping Higienópolis contra o racismo. 

Procurada, a assessoria de imprensa do centro de compras enviou uma nota por e-mail em que diz “que o Shopping Pátio Higienópolis reforça que todos os frequentadores são sempre bem-vindos, sem qualquer distinção”. Questionada, a assessoria não informou se a segurança permanece em seu quadro de funcionários.

Na página do Facebook do shopping, não há nenhuma menção ou nota sobre o caso. No entanto, muitos usuários foram à página do estabelecimento para criticar o episódio. 

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