E ninguém se lembrou de convidar o 'Arnesto'

Inspirador do samba ainda não recebeu convite para festa do centenário de Adoniran

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2010 | 00h00

Ninguém se lembrou de chamar o Arnesto, aquele que nos convidou para um samba no Brás, para participar da festa armada para comemorar o centenário do seu grande amigo Adoniran Barbosa (1910-1982). Ficou com uma baita de uma "reiva"? Arnesto faz que não se importa e, assim, sem recado na porta nem nada, ele recebeu a reportagem para uma longa conversa, em sua casa, na Mooca, zona leste, na tarde de quarta-feira.

"Prazer, meu nome é Ernesto Paulelli. E-r-n-e-s-t-o", apresenta-se, com um sorriso. "Mas pode me chamar de Arnesto, que é como Adoniran me rebatizou." É isso. A música, feita por Adoniran em 1955, virou sua segunda certidão de nascimento.

Com voz afinada, Arnesto cantarola o samba que o imortalizou. "Faço isso sempre. Ontem mesmo (terça), cantei no aniversário de minha neta", diz, orgulhoso. Para depois emendar numa espécie de continuação da música: "O Arnesto mora na Mooca/ Está aposentado/ Tem saudades da maloca." Chama-se Sobradão do Arnesto - em referência a sua casa - e foi composta pouco tempo atrás pelos músicos Nando Távora e Sonekka.

A lucidez impressiona, aos 95 anos. "Estou com quase um século... Não é brincadeira, não!", afirma. Ele relembra tudo com detalhes, cores, nome e sobrenome. "O segredo é que a cabeça não para", garante. "Estudo sem cessar, diariamente." E o que estuda? "Português, Filosofia, Matemática...", aponta para a pilha de livros com equações para lá de complicadas. "E teoria musical. Porque só tocava violão de orelha. E não pegava bem o Arnesto do samba não saber teoria musical."

Saúde. A idade avançada, é claro, deixa suas marcas. Há uma semana, Arnesto não sobe mais as escadas do sobrado onde mora - com filha e genro. Ordens médicas. "Descemos a cama aqui para a sala", mostra a filha Valéria Paulelli Barbosa, de 62 anos.

"Demos uma bela recauchutada nele e agora está melhor. Vai chegar ao centenário", confia seu cardiologista, Cosmo Feliciano da Silva. "Mas quero ele quietinho que nem uma pedra preciosa."

Arnesto é só gratidão ao "Doutor Cosmo". O médico se tornou amigo - e conseguiu tratamento de saúde gratuito para ele. Há dois meses, uma angioplastia. Semana passada, check-up completo. E, nesta semana, duas consultas em sua clínica particular. "Cardiologista. Meu médico do coração", trocadilha Arnesto.

Palavras. A habilidade com trocadilhos revela a faceta erudita de Arnesto. Dono de um vocabulário impressionante - ainda mais se lembrarmos sua origem humilde: filho de sapateiro, passou a infância trabalhando como engraxate e vendedor de chuchus na vizinhança - ele dá um ritmo saboroso às frases graças ao esmero na escolha das palavras. Assim, saem de sua boca "hombridade", "engodo", "setentrional", "insígne"...

Verdade que Arnesto nunca parou de estudar, cultor do autodidatismo. Mas foi só aos 60 anos que ele, depois de uma vida dedicada ao comércio, realizou o sonho de ser diplomado em Direito - ainda advogou por 30 anos. "Só me aposentei porque tive um AVC (acidente vascular cerebral) em 2005", recorda-se.

Aprendeu a falar bonito bem antes, com os livros mesmo. "Meu pai assinava uma coleção de romances em fascículos. Toda quarta-feira chegava um", conta. "Enquanto ele trabalhava, eu tinha de ler em voz alta. Meu pai era um exímio artista: confeccionava cada sapato como se fizesse um violino."

Saudades. Ali, na sala do sobrado, a conversa se alonga gostosa - interrompida a cada 15 minutos pelo cuco do relógio que, renitente, lembra que o tempo urge. Mais ou menos a cada 15 minutos também, lágrimas escorrem do rosto do Arnesto. "Perdoe-me se eu choro", murmura, meio constrangido. "Fico comovido quando relembro minha vida."

Ele aprendeu a tocar violão com 16 para 17 anos, ensinado por um vizinho. Na época, já morava na Mooca - e não no Brás, bairro em que nasceu e em cuja história se misturou, por causa do samba de Adoniran. "Eu tomei gosto, cheguei a tocar em conjuntos e até em rádios."

Bons tempos. Os ecos desses acordes ainda ressoam na cabeça de Arnesto. Tão fortes quanto a amizade - e gratidão - que cultivou com Adoniran. "Tenho saudades das noitadas que passei tocando violão e cantando nas cantinas de São Paulo. Saudades mesmo", declara. E, pulsos cerrados, olha firme para o repórter. Mais uma lágrima.

Evento. Organizado pela Secretaria de Estado da Cultura, o show em homenagem a Adoniran Barbosa será realizado a partir de 11h de domingo no Auditório Ibirapuera.

Vídeo. Veja "Sobradão do Arnesto" ao vivo

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