'É estúpido que cidades ricas sejam infelizes'

O sociólogo italiano Domenico de Masi, de 75 anos, professor da Universidade La Sapienza, de Roma, reafirmou na semana passada, em visita ao Brasil, sua admiração pelo País. Ele também analisou a vocação de São Paulo em meio ao cenário socioeconômico contemporâneo e disse que a cidade tem de ser uma "vitrine de criatividade".

Entrevista com

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

24 Março 2013 | 02h07

"O Brasil não é o melhor mundo possível, mas é um dos melhores mundos existentes", disse o pensador, que se tornou famoso após a publicação, em 1995, do livro O Ócio Criativo (lançado no Brasil em 2000).

Na obra, Masi defende uma vida mais equilibrada entre trabalho, estudo e lazer. "Às vezes, as pessoas fazem confusão. Ócio criativo não significa não fazer nada, não é preguiça", ressaltou. "Ócio criativo é o trabalho prazeroso, é aliar trabalho a lazer e alegria, transformando-o, portanto, em um trabalho criativo."

Em meio a uma maratona de eventos prevista em sua agenda no Brasil, o sociólogo recebeu a reportagem do Estado na tarde de terça-feira, antes de proferir uma palestra para os professores e funcionários do Colégio Dante Alighieri, no bairro dos Jardins, na zona sul da capital paulista.

Como falar em ócio criativo em São Paulo, uma cidade em que as pessoas perdem tanto tempo no trânsito e no trabalho?

O trânsito exagerado é uma demonstração de progresso não equilibrado. Essa situação poderia ser aliviada com a intensificação do teletrabalho (sistema de home office, em que o trabalhador realiza as tarefas em seu domicílio, com ajuda da internet e outras tecnologias). Por que essa necessidade de ir ao escritório? Eu chamo isso de complexo de Bill Clinton, em que o sujeito quer ir ao escritório só para encontrar a estagiária. Hoje em dia, é possível trabalhar tranquilamente de casa. A questão é a felicidade.

De que maneira a felicidade pode ser consequência desse processo?

Da riqueza, precisamos extrair a felicidade. É estúpido que cidades mais ricas sejam mais infelizes. São Paulo é uma metrópole onde tem de tudo. Entretanto, neste exato momento, há milhões de paulistanos se estressando dentro de seus carros. Isso é um grande manicômio, não é um mundo normal. Mas tal situação se repete em outras cidades pelo mundo. É um modelo em crise.

Como a cidade de São Paulo pode aproveitar os grandes eventos previstos para os próximos anos, como a Copa do Mundo de 2014, para se valorizar ainda mais?

Esses eventos são grandes ocasiões, grandes vitrines ao mundo. É a hora de o Brasil mostrar que é um país com seriedade, felicidade, acolhimento e alegria. Mostrar que o brasileiro tem mais cordialidade, civilidade e cultura. É a ocasião perfeita para divulgar o modelo brasileiro ao mundo, um momento mágico, que não se repete na história do País.

Qual é esse modelo brasileiro, afinal?

Por modelo, entendo um tipo de vida que se pode propor aos outros para melhorar o mundo. Há elementos positivos e negativos no modelo brasileiro. Por um lado, existem o analfabetismo, as diferenças sociais, a corrupção e a violência. Por outro, trata-se de um dos maiores países do mundo, uma grande democracia, um país pacífico, sem envolvimento em guerras. Tem racismo, mas não é um racismo forte. E há uma cultura farta de alegria, de sensualidade e de solidariedade. O Brasil não é o melhor mundo possível, mas é um dos melhores mundos existentes.

No ano passado, o senhor participou de um evento promovido pela Associação Paulista Viva, que tinha o projeto de elaborar e instalar um núcleo criativo na Avenida Paulista. Qual é a ideia desse trabalho?

Espero muito que isso vá adiante, porque se trata de uma ideia fantástica: transformar uma via, a Avenida Paulista, única no mundo, rica e belíssima, em uma vitrine da criatividade do Brasil. Acho essa ideia extraordinária.

Qual o seu lugar favorito na cidade de São Paulo?

Sou grande apaixonado pelo arquiteto Oscar Niemeyer (morto em dezembro de 2012). Eu era muito amigo dele e gosto de todas as obras de sua autoria. Aqui na cidade de São Paulo, destaco o complexo do Memorial da América Latina e as construções do Parque do Ibirapuera, como a Oca e o Auditório. São grandes obras da arquitetura contemporânea.

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