Marcelo Gonçalves/Sigmapress
Marcelo Gonçalves/Sigmapress

Invisível a radar, drone fecha Congonhas e causa transtorno a passageiros

Presença de equipamento alterou horário de pelo menos 41 voos; aparelhos de aeroportos não conseguem identificá-lo

Fabio Leite, Fausto Macedo e Julia Affonso, O Estado de S. Paulo, Igor Moraes e Ricardo Magatti, especiais para o Estado

13 Novembro 2017 | 01h18
Atualizado 14 Novembro 2017 | 00h08

SÃO PAULO - A presença de um drone próximo da pista de pouso de aeronaves fechou por mais de duas horas o Aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, na noite de domingo, afetando 41 voos e deixando o saguão lotado de passageiros. A Polícia Federal (PF) abriu um inquérito para identificar quem pilotava o equipamento, que não pode sobrevoar a menos de 9 km de distância de aeroportos. Especialistas apontam dificuldades na fiscalização.

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O drone foi avistado por dois pilotos que pousariam em Congonhas por volta das 20h15, junto à cabeceira que fica do lado da Avenida Pedro Bueno, no Jabaquara. Por causa do risco de acidente, o controle de tráfego aéreo suspendeu pousos e decolagens por duas horas e 16 minutos. Segundo a Aeronáutica, 32 voos foram transferidos para outros aeroportos, incluindo Guarulhos (Cumbica), Belo Horizonte (Confins) e Campinas (Viracopos), e outros nove que tinham Congonhas como destino foram cancelados.

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A Polícia Militar chegou a usar um helicóptero para tentar localizar o equipamento e seu operador, mas não conseguiu. O horário de operação do aeroporto foi estendido em duas horas e à 0h45, quando os dois últimos aviões aterrissaram na pista, ainda havia pessoas remarcando voos. De acordo com as companhias aéreas, vários passageiros foram direcionados para hotéis da região. 

Ainda na manhã desta segunda-feira, 7 dos 61 voos previstos estavam atrasados e 1 foi cancelado, segundo a Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). 

De acordo com a PF, o responsável por pilotar o drone poderá responder pelo crime de expor a perigo embarcação ou aeronave, própria ou alheia, ou praticar qualquer ato tendente a impedir ou dificultar navegação marítima, fluvial ou aérea, previsto no artigo 261 do Código Penal. A pena é de 2 a 5 anos de prisão.

Além disso, uma norma publicada neste ano pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) regulamentou o uso de drones no espaço aéreo brasileiro, exigindo, por exemplo, autorização prévia para pilotar equipamentos com peso superior a 250 gramas e a uma altura superior a 120 metros do solo, além de reforçar a restrição de voo a menos de 9 km dos aeroportos. Segundo a Anac, o País tem 24,2 mil drones cadastrados.

“Operar um drone próximo de aeroportos é um crime, da mesma forma que soltar balões. É um risco enorme porque eles podem colidir com a cabine ou até mesmo entrar na turbina das aeronaves, provocando um acidente fatal. É preciso dificultar o acesso aos drones, controlar o comércio, e fazer uma fiscalização rigorosa”, afirma Fernando Catalano, chefe do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP) em São Carlos, interior paulista.

Segundo a Aeronáutica, como os drones não têm transponder, aparelho de comunicação por radiofrequência instalados nas aeronaves, os radares dos aeroportos não conseguem identificá-los no espaço aéreo local. A identificação do drone no domingo só foi possível porque os pilotos avistaram o equipamento e informaram a torre de controle de tráfego aéreo de Congonhas.

Tecnologia

Há dois anos, uma empresa sueca e outra alemã desenvolveram uma tecnologia antidrone capaz de identificar não apenas o equipamento sobrevoando em um raio de até nove quilômetros como também o piloto que opera o aparelho. O sistema já funciona em cinco aeroportos nos Estados Unidos e na Europa, foi testado no início do ano no Fórum Mundial de Davos, na Suíça, para proteger o perímetro do encontro de líderes mundiais, e chegou ao Brasil no mês passado.

“O sistema é composto por câmeras de monitoramento inteligente e sensores de radiofrequência. Quando um drone invade o espaço, o sistema detecta geograficamente a latitude e longitude do equipamento e de quem o pilota. Com ele, é possível solucionar esse problema que ocorreu em Congonhas mais rápido, além de identificar o autor e reunir provas contra ele”, explicou Paulo Santos, gerente de soluções da empresa Axis Communications.

 

Passageiros sofrem com atrasos e remanejamentos

O drone trouxe dor de cabeça aos passageiros que precisavam sair ou chegar a São Paulo desde a noite de domingo e também às empresas aéreas. Em muitos casos, foi necessário providenciar hospedagem e transporte aos clientes cujos voos foram remanejados. A Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear) estima prejuízo de cerca de R$ 1 milhão com os transtornos.

Vinícius Nascimento tinha uma viagem do Aeroporto Santos Dumont, no Rio, para o Aeroporto de Congonhas, na capital paulista, marcada para 21h20. “Meu voo atrasou cerca de 1h30. No entanto, só chegamos aqui (em São Paulo) perto da meia-noite”, afirmou Nascimento.

Já a passageira Giovana Feix, de 23 anos, levou mais de quatro horas para completar o percurso de Curitiba a São Paulo. Ela chegou a decolar, mas, cerca de 40 minutos depois, a aeronave não teve autorização para pousar e voltou ao Paraná. 

“O comandante disse que ia ver se conseguíamos pousar em (aeroportos de) Guarulhos ou Campinas e ficamos sobrevoando por uns 25 minutos em círculos. De repente, quando ele falou de novo, disse que estávamos voltando para Curitiba”, relatou Giovana.

De volta ao Paraná, os passageiros permaneceram aguardando dentro do avião que, 45 minutos depois, decolou novamente para Congonhas. “Ficamos lá dentro sem saber o que ia acontecer. Aí uns 45 minutos depois a gente decolou sem ninguém dizer nada”, contou ela.

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