Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Doria se veste de gari e promete limpar a cidade pessoalmente toda semana

Em seu 1º dia como prefeito de SP, tucano também se comprometeu a ser catador de recicláveis por um dia

Luiz Fernando Toledo, O Estado de S. Paulo

02 Janeiro 2017 | 07h39

SÃO PAULO - Em sua primeira agenda pública, o prefeito eleito João Doria (PSDB), vestido de gari, se comprometeu a fazer, pessoalmente, varrição das ruas da cidade de São Paulo uma vez por semana até o fim de sua gestão. 

"Toda semana, em todos os eixos, o Prefeito estará lá, vestido de gari, ajudando a limpar a cidade para demonstrar que é trabalhando que nós vamos limpar a cidade. Em quatro anos, todas as semanas", disse o tucano na praça 14 Bis, na região central de Sâo Paulo.

O gesto de Doria simboliza o início do programa Cidade Linda, de ações de zeladoria e limpeza urbana na capital ao lado de seu secretariado também vestido como gari. O projeto tem como foco a limpeza de praças, jardins, parques, avenidas e demais espaços públicos, especialmente os que tiverem sido alvo de vândalos ou de pichadores. Leia reportagem sobre o programa aqui.

O prefeito chegou antes do horário marcado, por volta das 5h50, e praticamente não conseguiu fazer o trabalho de limpeza por causa do assédio da imprensa e da população, que apareceu para apresentar demandas da cidade. "É bom vocês acordarem muito cedo", disse à imprensa. O secretariado recém empossado de Doria também se vestiu como o chefe e participou do evento. 

Apesar do uniforme, o prefeito não abriu mão de seus itens de luxo. Ao invés das botas utilizadas pelos garis, preferiu usar um sapatênis da Osklen. No pescoço usava uma corrente que parecia ser de ouro. Segundo a Prefeitura, as roupas utilizadas por ele e por seus secretários, além do broche do programa, não tiveram custo e foram doadas por empresas de limpeza.

A varrição prometida ficou só no gesto: cercado pela imprensa e por cidadãos, o prefeito só conseguiu colher algumas folhas e colocá-las no cesto de lixo em uma ação que durou menos de 10 segundos. Antes de pegar no cabo, ganhou um par de luvas de uma gari que o abraçou. "Posso usar?", perguntou. "Não, é só para tirar foto e depois você me devolve", retrucou ela.  Secretários acompanharam o prefeito e, ao lado dele, apenas acompanharam a caminhada.

Entre os garis a ação foi vista sob diferentes ângulos, da ridicularização ao elogio. "Ele vai virar meme (imagem que viraliza nas redes sociais com algum tipo de piada) até dizer chega", disse um deles em meio à multidão. Outros viram o prefeito com bons olhos. "É bom que ele vai conhecer a cidade. Falta organização no centro. Junta muito carroceiro e morador de rua e eles fazem uma bagunça, uma sujeira. Se mexer com eles, partem para cima. Já presenciei muita briga, principalmente na Cracolândia", diz o motorista dos garis Cleber Pedro da Silva, de 38 anos, há oito meses no cargo. 

Doria também se comprometeu a ser catador de recicláveis por um dia durante o evento, ao ser abordado por representantes do movimento social Pimp my Carroça. Eles entregarem a ele o manifesto "Do lixo, vivo!", com reinvindicações da categoria sobre coleta seletiva de lixo.

Tumulto. Após cerca de uma hora sem conseguir varrer, Doria parou para tomar café em um bar da região. A ação causou tumulto: fotógrafos e cinegrafistas começaram a subir nas mesas do estabelecimento e até no balcão para registrar o momento. O secretário de comunicação Fábio Santos pediu que descessem. "É sacanagem com o bar", mas não foi obedecido. Do lado de fora, um homem se incomodou com a situação e começou a gritar, chamando a atenção dos que passavam. "Chega de cerimonial, chega de beijar a mão. Vamos trabalhar, Doria!", disse. O prefeito foi até ele e o abraçou.

O trajeto também foi marcado pelo empurra-empurra entre jornalistas, cinegrafistas, movimentos sociais - tinha de sindicalistas a militantes do Parque Augusta e outras causas sociais e pessoas que queriam tirar selfies com o novo prefeito. A Companhia de Engenharia do Tráfego (CET) precisou intervir para a passagem das pessoas, que deixaram o trânsito do entorno da praça congestionado por cerca de duas horas. 

Quadra. Alguns moradores de rua ficaram revoltados por terem sido retirados do local. Eles foram convidados a ficar em uma quadra para que a ação fosse realizada. "Tenho duas carroças, a barraca e um cachorro. Não cabe nada na quadra, fora que tira o lazer das crianças", reclamou Débora Moreira Silva, de 37 anos. Ela disse que a população local foi avisada da ação com dez dias de antecedência.

Outros moradores de rua que já estavam na quadra disseram ter recebido promessas de receber uma bolsa-aluguel para que saiam da rua. "Pegaram o nome de todos que moram aqui", disse Pâmela de Oliveira, de 37 anos, que está na praça há quatro meses. "Nós também ajudamos a limpar. Eu mesmo tirei duas carroças de lixo daqui", disse um morador de rua que pediu para não ser identificado. 

Ao Estado, o secretário adjunto de Assistência e Desenvolvimento Social Felipe Sabará disse que a equipe de Doria já estava no local conversando com os moradores de rua cerca de um mês antes da ação. "Juntamos várias ONGs que trabalhavam com eles para nos ajudar e comunicamos que haveria uma ação de limpeza. Eles mesmos sugeriram o local para ficar (o espaço abrigava um estacionamento em terreno invadido ilegalmente, segundo Sabará)", disse. 

Ele destacou que, ao longo da limpeza, desde às 6h, todos tiveram acesso a atendimento médico, odontológico, cabeleireiro e até cadastro para bolsa-aluguel e criação de currículos.

 

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