Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Doria quer pôr carnaval de blocos na 23 de Maio

Circuito iria do Vale do Anhangabaú, no centro, ao Parque do Ibirapuera, na zona sul; Prefeitura aguarda aval da comunidade

Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, O Estado de S. Paulo

21 Setembro 2017 | 03h00

SÃO PAULO - O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), estuda concentrar a passagem dos grandes blocos de rua do carnaval paulistano na Avenida 23 de Maio, em um circuito que começaria na região do Parque do Ibirapuera, na zona sul da cidade, e terminaria no Vale do Anhangabaú, no centro. 

A pedido da Prefeitura, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) está produzindo um estudo de impacto no trânsito da cidade, considerando a possibilidade de mudança. A ideia é reservar uma pista para a passagem dos foliões enquanto a outra seria reservada como apoio para ambulâncias, Polícia Militar, banheiros químicos e postos de venda de bebidas e lanches. 

A proposta será apresentada oficialmente aos blocos em seminário marcado para o próximo dia 28. Pelo esboço inicial, os pequenos blocos continuariam desfilando em seus roteiros originais nos bairros. 

Em nota, a a administração municipal informou que o uso da Avenida 23 de Maio para desfiles de blocos de grande porte é “uma das possibilidades” estudadas. “Não há nada definido a respeito. Qualquer decisão ou mudança sobre desfiles somente será tomada com o aval dos blocos e da comunidade local”, informou a Prefeitura, em nota. 

Segundo auxiliares de Doria, a mudança não será imposta aos blocos, mas negociada. O principal objetivo é “facilitar a vida de quem pula e de quem não pula” carnaval, além de oferecer estrutura adequada a blocos de outros Estados. 

 

O carnaval de rua de São Paulo teve quase 500 desfiles e 450 blocos em 2017, ante 306 no ano anterior. Com a explosão de blocos, São Paulo registrou o maior carnaval de rua de sua história. Superou, em número de blocos, cidades com grande tradição carnavalesca, como Recife, Rio de Janeiro e Salvador. 

Neste ano, para evitar conflitos entre moradores e foliões, a Prefeitura já havia congelado o número de blocos carnavalescos na Vila Madalena, na zona oeste, e transferido agremiações maiores para outras partes de Pinheiros, também na zona oeste. Ainda havia aumentado a relação de vias em que o tráfego dos foliões é proibido. 

Em fevereiro, a Prefeitura também enfrentou problemas de organização durante o pré-carnaval, com acúmulo de lixo em algumas vias e dificuldades de saída de foliões por transporte público e privado. 

Divisão

A proposta dividiu os blocos. “A Prefeitura tem todo o direito de criar alternativas para grandes blocos de fora da cidade que queiram desfilar no carnaval da São Paulo. O Acadêmicos do Baixo Augusta, e tenho certeza que a maioria dos grandes blocos tradicionais da cidade, vão permanecer em seus trajetos”, afirma Alexandre Youssef, diretor executivo do bloco, o maior de São Paulo. 

No carnaval de 2017, a agremiação reuniu 500 mil pessoas na Consolação, na região central. Com mote politizado, o Baixo Augusta defendeu a “apropriação urbana”, com o lema “Primeiramente, a cidade é nossa”. O grupo encerrou o desfile fazendo um grafite. “Valorizar as comunidades e as tradições é a maneira de garantir o carnaval livre, democrático e descentralizado, pelo qual sempre lutamos. Dia 4 de fevereiro, mais uma vez desceremos a Rua da Consolação para fazer o maior carnaval que a cidade já viu”, afirma Youssef. 

Já Silvia Lopes, do bloco Nóis trupica mais não cai, avalia que será melhor os blocos “comerciais” circularem em grandes vias. “Não tem sentido um bloco enorme no meio da Vila Madalena.” Para ela, os grupos têm direito de desfilar onde nasceram, mas quando crescem demais se torna necessário espaço mais adequado. “Um trio elétrico gigante não faz curva na Vila Madalena.” O Trupica reuniu cerca de 3 mil pessoas este ano em Pinheiros. 

Segundo Paula Flecha, representante do Arrastão dos Blocos, que congrega cerca de cem agremiações, a proposta contraria a tradição do carnaval de rua paulistano que, diferentemente de outras cidades como Salvador, não cobra ingressos dos foliões. “Não faz o menor sentido sair da frente daquele boteco onde todo ano o seu bloco se concentra e ir a um ‘blocódromo’”, criticou. “O carnaval existe com o sem João Doria e a gente vai continuar fazendo com ou sem ele”, diz ela, que reclama de dificuldades de diálogo dos blocos com a Prefeitura.

Moradores

Para Guilherme Haddad, diretor da Associação dos Moradores e Amigos do Jardim Lusitânia, no entorno do Ibirapuera, a área não comporta evento desse tipo. “Temos hospitais na região. Fora os danos ao meio ambiente.” / COLABOROU LUIZ FERNANDO TOLEDO

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