Dono ignora órgão de patrimônio e derruba 5 sobrados

Como imóveis na Água Branca estavam em processo de tombamento, ele pode ter de pagar multa de até R$ 1 milhão

DIEGO ZANCHETTA , RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2011 | 03h03

Cinco casarões em estilo neocolonial ao lado do Parque da Água Branca, na zona oeste de São Paulo, foram demolidos pelo proprietário na esquina das Ruas Turiaçu e Monte Alegre. Os imóveis estavam em processo de tombamento desde setembro e não poderiam sofrer qualquer alteração.

Sem fiscalização, cinco tratores entraram no terreno na manhã de terça-feira. As casas foram derrubadas em menos de seis horas, segundo vizinhos. O dono agora pode virar réu por crime contra o patrimônio cultural, além de pagar multa de mais de R$ 1 milhão.

"Será agendada para os próximos dias visita técnica da Divisão de Preservação do Departamento do Patrimônio Histórico para aferir os danos causados. Uma vez constatados, serão tomadas as medidas cabíveis", diz, em nota, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), confirmando que o dono "não tinha qualquer autorização" para demolição. "Os imóveis da Rua Monte Alegre x Rua Turiaçu tiveram abertura de processo de tombamento neste ano por se tratarem de um tipo de ocupação que predominou no período entre 1940 e 1950, antes da verticalização da região, iniciada na década de 1950."

Venda. Vizinhos e corretores comentam que a esquina onde ficavam os sobrados já foi vendida por R$ 5 milhões a uma incorporadora. No local, devem ser erguidos dois prédios. "O dono sempre nos contava que o sonho do pai dele era erguer prédio nesse terreno. Ele dizia que a Prefeitura nunca pagaria o valor histórico das casas, que estavam com infiltração e sem interesse de locatários", contou o comerciante Silvio Facchini, de 58 anos.

Os casarões demolidos estavam entre 38 imóveis que entraram em processo de tombamento em 20 de setembro. Entre eles estão sobrados e palacetes remanescentes da ocupação da região, a partir de 1900, ao redor do antigo Sítio do Pacaembu.

Moradores divergem sobre a demolição. Alguns apoiam, outros reclamam do surgimento de mais prédios no entorno do parque, que já criam sombras sobre a área verde de 132 mil m².

"A Prefeitura tomba, não deixa fazer reforma nem na janela, mas não quer pagar nada pela manutenção do que aponta como imóvel com valor histórico. Nos países europeus, donos de imóveis tombados recebem até ajuda financeira do governo", critica o médico Alfredo Tavares Silva, de 49 anos. "Essas casas são o DNA do bairro, precisam ser preservadas. Até porque a região em volta do parque não suporta mais prédios, as ruas estão entupidas de carros", rebate o professor Luiz Gustavo Meira, de 41.

Nos últimos dois dias, o Estado tentou, sem sucesso, localizar o dono dos sobrados demolidos. Procurado, o subprefeito da Lapa, Carlos Fernandes, disse ontem que precisa achar o pedido de alvará de demolição do proprietário. "Esse pedido está em nosso arquivo. Só posso responder quando estiver com processo de demolição em mãos."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.