JF Diorio/AE
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Dona Cida, a rainha dos abaixo-assinados

O 1º foi nos anos 1970, contra pichação; desde então, moradora da zona oeste já brigou contra barulho de casa de shows, falta de médico, hospital fechado...

Juliana Deodoro - O Estado de S. Paulo,

29 Julho 2012 | 15h25

Quem vê a figura miúda de Maria Aparecida Canhadas Bacheschi, de 81 anos, dificilmente imagina o quanto ela cresce ao enfrentar políticos, juízes, empresários e até bandidos para conseguir o que almeja para seu bairro, a Vila Romana, na zona oeste. Com pouco mais de 1,50m, cabelos avermelhados, sorriso escancarado, olhos vivos e mãos sempre inquietas, que alisam a blusa, as costuras da calça ou despenteiam os cabelos enquanto fala, dona Cidinha, como é conhecida, tem orgulho do outro apelido que ganhou de vizinhos: a rainha dos abaixo-assinados.

Ela perdeu a conta de quantas folhas já xerocou, quantas assinaturas já recolheu e em quantas portas já bateu para pedir apoio para suas causas. O que há de concreto mesmo são os oito médicos que trabalham na Unidade Básica de Saúde (UBS) da Rua Vespasiano, as horas de sono poupadas depois que a casa de shows Sampa Hall foi fechada e as 15 mil pessoas que podem ser atendidas diariamente no Atendimento Médico Ambulatorial (AMA) Sorocabana.

Dona Cidinha afirma que sua personalidade combativa já se manifestava na infância, quando assumiu o posto de tesoureira de uma igreja de São Simão, cidade a 300 quilômetros da capital. Ela era considerada "muito atrevida" pelo padre, que queria excomungá-la. "O pensamento é livre e é mais rápido do que a luz, não adiantava ele querer me recriminar." Aos 18 anos, ela se mudou para São Paulo com a mãe e um irmão. Aos 21, casou com o italiano Davi, 53 dias após conhecê-lo. Da relação, nasceram quatro filhos e sete netos - quatro homens e três mulheres.

Depois de casar, dona Cidinha abandonou o emprego de telefonista internacional - ela fala espanhol, que aprendeu com os pais - e virou dona de casa. Quando Davi morreu, em 1976, voltou a trabalhar e a agir para construir seu "reinado" de laudas, assinaturas e RGs. Nessa época, a vizinhança a apelidou e os filhos de Família Addams - a fachada da casa onde moram havia sido pichada com figuras de monstros e a alcunha, em referência aos personagens do seriado americano, pegou. "Certo dia, participei de uma reunião na Subprefeitura da Lapa e ensinaram como fazer um abaixo-assinado. Entre todos os problemas que o bairro tinha, escolhi o dos pichadores", conta. "Todo mundo aceitou, porque ninguém gostava de pichador. Você gosta de pichador? Eu não achei uma pessoa que gostasse."

Foram mais de 5 mil assinaturas na primeira tentativa. O abaixo-assinado rendeu reportagem de TV, a função de organizar palestras em escolas da região e a amizade de grafiteiros. Desde então, dona Cidinha contrata artistas de rua para enfeitar a fachada de sua casa. O último grafiteiro que decorou a residência deixou a mensagem: "Pichador ligeiro não atropela grafiteiro".

Depois da primeira lista, a fama correu o bairro e dona Cidinha foi convidada a fazer abaixo-assinados para os mais diferentes assuntos. As instruções, segundo ela, são simples: "Faça um cabeçalho e coloque tudo o que você precisa. Tire muitas cópias e bata de porta em porta." Ela conta que porta de banco é um ótimo local para arrecadar assinaturas, mas, quando tem uma lista em branco a ser preenchida, é vista também no Mercado Municipal da Lapa, nos bares e nas feiras da região. "Quando minha mãe optou por essas ações, ela optou pela vida. Os abaixo-assinados mantêm sua mente viva, a obrigam a caminhar e, assim, ela fica longe de uma série de situações que a velhice pode trazer", afirma Ângela Bacheschi, de 55 anos, uma das filhas.

Know-how. A Unidade Básica de Saúde (UBS) da Rua Vespasiano estava sem médicos e os moradores pediram a ajuda da rainha dos abaixo-assinados: queriam saber como poderiam reivindicar mais funcionários. Ela fez a lista, deu uma cópia a cada um deles e ficou com algumas para si. Mais de 3,5 mil pessoas assinaram e, quando o calhamaço de páginas foi entregue à Prefeitura, a resposta foi apenas um protocolo. "Não adianta só recolher as assinaturas. É preciso ir atrás e ficar cobrando alguma atitude." No caso da UBS, dona Cidinha ameaçou fazer um panelaço no Viaduto do Chá. "Não passaram nem 15 dias e vieram oito médicos", conta, com orgulho.

O mesmo aconteceu com o Hospital Sorocabana, fechado em setembro de 2010. "Era uma perda enorme, não podia ficar quieta." O abaixo-assinado foi fundamental para que o edifício, que era de propriedade do Estado, passasse para o Município e fosse reinaugurado em junho como AMA. Para recolher as assinaturas, dona Cidinha teve a ajuda de comerciantes e outros moradores do bairro. A professora universitária Clara Deodoro foi uma delas. "Fiquei sabendo por uma vizinha e consegui 500 assinaturas. Acho que foi pouco, mas, se não fosse o abaixo-assinado, o Sorocabana estaria às traças."

Cheia de si, dona Cidinha mandou enquadrar uma reportagem sobre a municipalização publicada em um jornal local que cita seu nome. Agora, o quadro decora, como um troféu, seu quarto. Reportagens na televisão estão todas gravadas em DVDs. A única que ela não tem é, no entanto, a mais curiosa. Quando foi peça fundamental para cassação de liminar que garantia funcionamento de casa de shows na Rua Clélia, dona Cidinha foi ameaçada por frequentadores e, por isso, não podia se identificar. "No mesmo dia, vieram quatro jornais e três televisões na minha casa. Colocaram uma luz forte e filmaram a parede. Minha voz saiu toda distorcida, mas, mesmo assim, não adiantou. Uma vizinha me ligou à noite e disse que tinha me reconhecido."

Para fechar a casa de shows, que funcionava no antigo Olímpia, dona Cidinha apelou para o prefeito, o governador e até para o presidente. "Os assessores do Lula foram mais ágeis do que os do prefeito. Me mandaram ofício falando que não poderiam intervir no que era do Município." No dia em que o alvará de funcionamento saiu, a campainha tocou e eram homens da Polícia Militar querendo cumprimentá-la. "Fiquei conhecida até na polícia", gaba-se.

Pé de valsa. A rotina da telefonista aposentada não inclui apenas identificar problemas no bairro e fazer abaixo-assinados. Dona Cidinha adora dançar e, garante, é pé de valsa. Às segundas, quartas e sextas-feiras, frequenta bailes perto de casa. Seus ritmos preferidos são valsa e bolero. Ela apenas lamenta que DJs de festas para idosos prefiram sertanejo e forró.

Sua performance na pista de dança rendeu um episódio que ela conta entre risos. Uma vez, foi recrutada por produtores de um programa do apresentador Márcio Garcia na TV Record para participar do quadro O amor não envelhece. Ela era uma das quatro senhoras interessadas em namorar um senhor solteiro. Após responder a perguntas como "qual sua arma para conquistar um homem?", Cidinha foi a escolhida. Mas o namoro não durou mais que a música dançada no palco. "Era um velho muito velho. Quando vi, saí correndo."

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