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Documento indica que SP usa só um critério para mudar rede

Dados apresentados pela secretaria apontam que escolas de ciclo único têm desempenho 9,4% acima da média no Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (Idesp). As unidades com mais ciclos apresentam nota 1,9% abaixo da média

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Luiz Fernando Toledo,
O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2015 | 08h21

Atualizada às 10h10 do dia 16/11/2015

O principal estudo que embasou a reorganização das escolas em ciclos separados foi considerado “inapropriado” por especialistas ouvidos pelo Estado. O documento, com 19 páginas, foi obtido pela reportagem por meio da Lei de Acesso à Informação e traz apenas dados já apresentados pela secretaria que apontam que escolas de ciclo único têm desempenho 9,4% acima da média no Índice de Desenvolvimento da Educação de São Paulo (Idesp). As unidades com mais ciclos apresentam nota 1,9% abaixo da média. O documento completo está no final desta reportagem.

 

“O estudo apresenta uma correlação que não existe. Colocam como única variável a escola ter ciclo único ou não, mas não isolam outros fatores, como o tamanho da escola”, diz a diretora executiva do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz. “O estudo não é apropriado para a secretaria dizer que faz a reestruturação com base nele.”

 

A especialista, no entanto, reconhece que a medida pode ser positiva. "Houve uma queda no número de alunos e a escola custa dinheiro. Então decidiram redistribuí-los. Imagino que tenha sido este o raciocínio. Não acho irracional a medida da secretaria, mas este estudo que eles apresentaram não se sustenta de jeito nenhum. Era melhor o secretário ter dito que está buscando melhorar a gestão das escolas ociosas e dizer que, desta forma, eles obtêm uma economia", avaliou.

Para Ocimar Alavarse, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), o levantamento não considerou outros fatores importantes. "O fato de você encontrar escolas com um ciclo de melhor desempenho não necessariamente indica que este é o fator decisivo. É preciso considerar o número de alunos por escola, o índice socioeconômico. Você pode ter, por exemplo, equipes de professores mais estáveis. Em educação não existe uma variável que explique tudo", avaliou.

"Tudo indica que são outros interesses. Uma racionalização no sentido de se ter menos professores. Estão fechando escolas que têm desempenho acima da média, escolas que têm só um ciclo. A proposição da secretaria é muito frágil", disse. 

Embora a  reportagem tenha solicitado a íntegra de todos os estudos que embasaram a reorganização da rede, o documento entregue não aponta, por exemplo,qualquer recomendação de que unidades fossem fechadas ou disponibilizadas aos municípios, já que se restringe a apontar a relação entre o ciclo único e a nota no Idesp.   

Segundo o coordenador de projetos da Fundação Lemann, Ernesto Martins Faria, a secretaria tem uma "crença" na medida que vai além do estudo. "Fico com a sensação de que esse não deve ser o único estudo que embasou a reorganização. Há uma crença de que essa ação é importante, mas o estudo não trabalha para explicitar de forma mais robusta que os alunos de ciclo único têm melhor desempenho", disse. Ele avalia que faltou estratégia de comunicação sobre a reestruturação. "Um problema de implementação da política pode dificultar que ela seja efetiva, ao menos no curto prazo, e dificultar ganhos maiores. É importante envolver a comunidade e os professores. Esta é uma política que nasceu com uma resistência. Não será facil implementá-la".

Já o economista Naércio Menezes, do Insper, avalia que o estudo não é suficiente, por não considerar outras variáveis importantes, mas se houver mais evidências de que o ciclo único pode melhorar o resultado dos alunos, a reorganização é bem-vinda. “O número de matrículas está caindo bastante por causa da transição demográfica. Em algum momento, essa mudança será necessária. Não podemos deixar como está permanentemente com medo das reações”, comentou. 

Para a coordenadora da gestão da educação básica da Secretaria Estadual de Educação, Gislene Trigo Silveira, as variáveis apontadas pelos especialistas são importantes, mas o foco da secretaria foi a diminuição da complexidade de gestão das escolas. “Escolas que atendem a um mesmo segmento vão ser menos complexas. Essa menor complexidade vai certamente criar um clima propício para a gestão, uso dos recursos e também providenciar melhor aprendizagem dos alunos. É essa a aposta que estamos fazendo”, explica.

De acordo com ela, a transferências dos prédios das escolas fechadas para a rede municipal pode também impactar positivamente a rede no futuro. “Uma variável que faz muita diferença é se o aluno cursou a educação infantil. Isto traz impacto para as redes que o recebe depois. Então se a escola disponibilizada virar uma creche, de maneira direta estamos investimento para que esses meninos ingressem na escola com melhores condições de desempenho”, ponderou.

 

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