Bruno Ribeiro/Estadão
Bruno Ribeiro/Estadão

Doações de chineses a Doria somam R$ 8,5 mi

Prefeito pediu - e conseguiu - câmeras, carros elétricos e drones, entre outros

Bruno Ribeiro, Enviado especial

29 Julho 2017 | 03h00

SHENZHEN (CHINA) - É difícil fugir do clichê "negócio da China". Em vista a quatro das maiores empresas da China, com sua estratégia de pedidos, o prefeito João Doria (PSDB) recebeu ao menos R$ 8,5 milhões em presentes para a capital paulista durante a semana em que esteve no país. Com a viagem - e as doações -, Doria conseguirá por em pé seu programa City Câmeras, de monitoramento eletrônico, ainda este ano, bem antes do fim do prazo proposto, que era até 2020.

Só de câmeras, os chineses doaram 4 mil equipamentos - mil de cada fabricante visitado pelo prefeito. Ele esteve nas maiores do ramo: Hikvision, Dahua, ZTE e Huawey. Até três semanas atrás, a prefeitura possuía 350 equipamentos do tipo. Feitas as instalações, todas elas terão as imagens transmitidas online e exibidas em um site específico do programa City Câmeras. 

"Precisamos colocar a cidade em outro patamar de segurança, e câmeras ajudam muito", disse Doria, em sua última coletiva na China. Ele disse não temer que seus pedidos fossem mal interpretados pelos empresários, "até porque tem muita clareza" de estar pedindo para ajudar a cidade.

Os chineses receberam Doria com a maior hospitalidade possível. De show room em show room, o prefeito falou sobre sua proposta de tocar uma Parceria Público-Privada (PPP) para o setor de segurança e destacou o papel que São Paulo tem de disseminar tecnologias no Brasil. A sigla mágica era "PPP", que os chineses falavam em português e sorriam ao ouvir, mostrando vontade de fazer negócios - esses não gratuitos - com a Prefeitura em um futuro próximo.

Mais do que pedir as doações, a viagem do prefeito será marcada por inaugurar a era "big brother" na cidade. Os chineses têm câmeras que fazem reconhecimento facial e conseguem saber onde passou uma pessoa específica na cidade, são capazes de reconhecer até gente de máscara e distinguir carros, motos e caminhões automaticamente.

"As áreas centrais da cidades são as prioritárias, sobretudo de comércio popular. José Paulino, 25 de março, região do Brás, e o centro da cidade", disse o prefeito. 

Segundo sua proposta original, a cidade deveria contar em 2020 com 10 mil câmeras. A PPP, que foi anunciada apenas em solo chinês, durante a visita à empresa Hikvison, seria para ir muito além da meta. A cidade de Xangai, por exemplo, tem 2 milhões de câmeras.

Outros bens. As câmeras foram um aspecto importante, mas não dominaram a agenda do prefeito na China. Em Pequim e em Xangai, o prefeito circulou por bancos, fundos de investimentos e agências de desenvolvimento. Essas instituições não fizeram nenhum tipo de donativo ao prefeito. Mas todas disseram que se interessariam em abrir linha de crédito para todas as propostas de seu Plano Municipal de Desestatização, que inclui a concessão do Pacaembu, a venda do Anhembi e do Autódromo de Interlagos e a concessão do sistema de bilhetagens do bilhete único.

Esse último recebeu atenção especial nas visitas. Nas cidades em que o prefeito esteve, mesmo pequenas lojas de comércio popular já usam meios eletrônicos para transações simples. Máquinas reconhecem sinais de QR Code (uma espécie de código de barras) para validar transações financeiras, praticamente acabando com o dinheiro. É essa tecnologia que entrará nos ônibus - o que gera uma grande abertura de mercado para essas empresas em São Paulo e, assim, no Brasil.

Mas houve mais doações concretas. Ainda na área da segurança pública, ele recebeu dois drones que também serão usados no monitoramento diário das ruas, em especial da Cracolândia. São drones muito mais robustos, desenvolvidos para ações militares de estratégia, que voarão sobre o centro velho diariamente. Ele recebeu ainda 200 rádios comunicadores, que devem ser usados pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e abriu  uma frente de energia: quatro carros elétricos para o Parque do Ibirapuera e um sistema de painéis solares para abastecer de energia os hospitais de Brasilândia e Parelheiros, nas zonas norte e sul da cidade, respectivamente.

Cuidado. Em sua última reunião com empresários, na empresa Huawei (fabricante de celulares e de equipamentos que vão de monitores médicos até a sistemas de controle de trens), Doria teve de ouvir de um dos representantes que ele deveria "ter cuidado com coisas de graça", uma vez que poderia estar recebendo doações de produtos que não seriam bons. 

"Você já recebeu 3 mil câmeras, e isso é uma boa notícia, mas você pode ter criado problemas", disse o chefe global de expertise em segurança pública da Huawei, Hong-Eng Koh. "Tenha cuidado com coisas de graça", afirmou - sua empresa doou mil câmeras e, mais importante, um sistema de controle integrado para equipamentos de diferentes marcas. 

Havia sido a primeira reunião aberta à imprensa, em que seria possível ver de perto a hora em que os pedidos eram feitos. Doria queria ainda um sistema de telemedicina, que permite ao médico consultar o paciente a distância, mas parou de pedir diante dos dois "sim" iniciais - que não foram atendidos de pronto, o que fez Doria pedir para que fossem reconsideradas as propostas. 

A resposta ao aviso do chinês veio em uma fala do secretário de relações exteriores, Julio Serson: na situação financeira da cidade, nem Doria nem sua equipe estavam em posição de rejeitar ajuda, mesmo que não fosse da tecnologia mais moderna existente. "A gente precisa começar de algum lugar", disse Doria. 

* O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PREFEITURA DE XANGAI

 

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