Discussões sobre temas polêmicos marcaram carreira de Lobato

Já em Urupês, seu primeiro livro publicado, o escritor causou alvoroço ao estigmatizar seu personagem principal, o caboclo, como um “piolho da terra”, parasita e preguiçoso que não agregava nada ao sistema produtivo

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Por Fernando Granato
Atualização:

José Bento Monteiro Lobato (1882-1948) desenvolveu um talento paralelo ao de escritor: o de polemista. Já em Urupês, seu primeiro livro publicado, causou alvoroço ao estigmatizar seu personagem principal, o caboclo, como um “piolho da terra”, parasita e preguiçoso que não agregava nada ao sistema produtivo. Antes disso, o destruía.

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Ao longo do último século foram muitos os que se debruçaram sobre o tema, tentando desmitificar o caipira traçado por Lobato. O antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), em seu clássico O Povo Brasileiro, fala em erro de interpretação por parte do criador do Jeca Tatu.

“As páginas de Monteiro Lobato que revelaram às camadas cultas do País a figura do Jeca Tatu, apesar de sua riqueza de observações, divulgam uma imagem verdadeira do caipira dentro de uma interpretação falsa”, afirmou Ribeiro. “Nos primeiros retratos, Lobato o vê como uma espécie de praga incendiária que atiçava fogo à mata, destruindo enormes riquezas florestais para plantar seus pobres roçados.”

O antropólogo destaca que quem assim descrevia o caipira “era o intelectual-fazendeiro da Buquira, que amargava sua própria experiência fracassada de encaixar os caipiras em seus planos mirabolantes”. Anos depois, entretanto, o autor teria se redimido, segundo Ribeiro. “É certo que, mais tarde, Lobato compreendeu que o caipira era produto residual natural e necessário do latifúndio agroexportador. Já então propugnando, ele também, uma reforma agrária.”

Esse caipira, na visão do sociólogo e crítico literário Antonio Cândido de Mello e Souza (1918-2017), era antes de mais nada vítima de um sistema falido e não podia ser culpado por isso. “O mundo bandeirante era uma grande empresa econômica”, disse. “Esse bandeirante, quando se sedentariza, quando perde sua iniciativa maior, deixa de ter contato com o mercado, ele vira o caipira. É o bandeirante parado, economicamente atrofiado."

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