Dificuldade de atenção

Ser diagnosticado como TDAH pode se tornar uma vantagem no século 21

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

24 Março 2018 | 03h52

Dez em cada cem crianças têm dificuldade de se concentrar durante as aulas. Inquietas, não conseguem ficar imóveis por muito tempo. São atraídas por novidades, prezam a diversidade de atividades e gostam de exercício físico. Não se adaptam às atividades típicas da escola e “deixam pais e professores loucos”. O resultado são notas baixas. 

Hoje sabemos que essas crianças sofrem de tédio. As atividades escolares não são suficientemente variadas e estimulantes para dar prazer a elas. Em um mundo que preza a homogeneidade, elas são consideradas portadoras de uma síndrome chamada TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). Para felicidade da sociedade, elas são acalmadas por estimulantes como a Ritalina. 

+++ Brasil registra aumento de 775% no consumo de Ritalina em dez anos

Hoje, milhões de crianças tomam drogas que aumentam a quantidade de serotonina no cérebro, ficam dóceis, se concentram, e suportam o tédio que é para elas a vida escolar. Muitas dessas crianças vão escolher profissões onde a atividade é variada e os desafios mudam ao longo do tempo. O tédio desaparece e elas se “curam”.

Nos últimos anos a razão desse comportamento foi descoberta. Crianças com TDAH têm uma quantidade menor de receptores de serotonina em seu cérebro ou receptores com uma menor afinidade pela serotonina. Isso faz com que necessitem de uma vida mais agitada (onde mais serotonina é liberada) para serem felizes. 

Já as outras 90%, com mais receptores ou receptores de maior afinidade, se adaptam melhor à vida rotineira das sociedades modernas precisando de menos serotonina para serem felizes. O descontentamento dos TDAH tem origem na vida regrada das escolas, que parece privilegiar pessoas com mais receptores de serotonina. Boa parte dos cientistas acredita que quem tem TDAH não deveria ser considerado doente, mas simplesmente diferente, da mesma maneira que pessoas com diferentes cores de pele, apesar de distintas, são todas consideradas saudáveis.

+++ Escolas agem contra o déficit de atenção

Alguns cientistas acreditam que esses dois tipos de comportamento estão relacionados aos dois modos de vida adotados por nossa espécie. Durante milhões de anos, nossos ancestrais viviam caçando e coletando alimentos. A vida era variada e cheia de desafios. 

Entretanto, 10 mil anos atrás, trocamos a vida nômade e incerta pela prática da agricultura, em que plantar, colher e estocar são tarefas repetitivas. O homem se fixou nas primeiras cidades, e a vida ficou menos variada. 

O que os cientistas imaginam é que indivíduos com menos receptores de serotonina (ou receptores com menos afinidade) seriam mais bem adaptados ao modo de vida dos caçadores nômades. Eles teriam dificuldade de se adaptar à rotina de uma comunidade agrícola. Já pessoas com mais receptores de serotonina (ou receptores com maior afinidade) seriam mais bem adaptadas a esse novo modo de vida que exige concentração e capacidade de tolerar tarefas repetitivas. Agora essa teoria foi comprovada experimentalmente.

Os ariaal são uma tribo que habita o norte do Quênia. Como nossos ancestrais, são nômades e vivem da coleta de alimento, do pastoreio e da caça. Há 35 anos a população se dividiu. Metade adotou a agricultura e se fixou em uma pequena vila e os outros continuam nômades. Ambos os grupos levam vida difícil e toda a população é subnutrida. 

+++ No Brasil, 4,4% têm déficit de atenção

Os cientistas estudaram aproximadamente 100 homens de cada grupo. Para identificar os homens mais bem adaptados a cada modo de vida, os cientistas analisaram seu estado de nutrição. Nos dois grupos há indivíduos mais bem nutridos e outros com um estado mais grave de subnutrição. Além disso o tipo de receptor de serotonina presente em cada um dos indivíduos foi determinado.

O que espantou os cientistas foi descobrir que os homens com receptores de menor afinidade pela serotonina (que seriam considerados TDAH) eram os mais bem nutridos na população nômade, enquanto os com receptores de maior afinidade eram os mais mal nutridos. Já na população que adotou a agricultura ocorre o contrário: os indivíduos com receptores de menor afinidade eram os mal nutridos e os indivíduos com receptores de maior afinidade, os mais bem nutridos. Esse resultado demonstra que o tipo de receptor de serotonina determina o sucesso nutricional em cada um dos ambientes. 

Isso sugere que crianças que hoje classificamos como acometidas por TDAH devem ser mais bem adaptadas para a vida em um ambiente onde desafios e tarefas mudam constantemente. É interessante notar que as mudanças que a sociedade tem passado nessas últimas décadas, em que atividades repetitivas vêm sendo menos valorizadas, estão aos poucos transformando o ambiente em que vivemos em algo mais parecido com o vivido pelos nossos ancestrais caçadores, em que desafios e tarefas mudam constantemente. Se isso for verdade, ser diagnosticado como TDAH pode se tornar uma vantagem no século 21.

Mais conteúdo sobre:
infância Tdah

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.