'Diário Oficial' tem texto contra bicicletas

Reportagem publicada em órgão do Estado diz para evitar pedalar na capital paulista

NATALY COSTA , RODRIGO BURGARELLI , O Estado de S.Paulo

12 Julho 2012 | 03h07

O Diário Oficial do Estado, veículo editado pela Imprensa Oficial, empresa do governo paulista, recomendou a ciclistas não usar a bicicleta para se locomover no trânsito da capital. A recomendação faz parte de reportagem que saiu ontem com destaque na primeira página da publicação, intitulada "Mais ciclistas, mais acidentes". Segundo o texto, 3,4 mil ciclistas foram internados em hospitais estaduais em 2011, com custo de R$ 3,2 milhões ao governo paulista.

A reportagem ouviu apenas um especialista, o chefe do Grupo de Trauma Ortopédico do Hospital das Clínicas (HC), Jorge dos Santos Silva.

O médico afirmou que não é recomendado que ciclistas pedalem no trânsito de São Paulo. Pedalar, segundo ele, "é uma opção segura de lazer em cidades menores, parques públicos e em ciclovias (em referência à Ciclofaixa de Lazer) instaladas na capital, aos domingos".

A dica surge também com destaque na legenda da foto, que mostra um ciclista pedalando em uma rua paulistana.

De acordo com Silva, nos seis primeiros meses deste ano, houve quase tantas internações de ciclistas acidentados no HC quanto em todo o ano passado, o que seria um reflexo do aumento no número de bicicletas no trânsito da cidade.

Sugestões. Outro trecho da reportagem traz recomendações atribuídas à Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), da Prefeitura de São Paulo, para que o leitor "não seja a próxima vítima". Uma delas diz que "o tráfego em avenidas, apesar de permitido, é prática pouco segura para o ciclista". Essa informação, porém, não consta do site da companhia. Em suas páginas na internet, a CET afirma que uma das suas principais diretrizes é estimular o uso de bicicleta.

O governo estadual enviou nota no início da noite e informou que é "absolutamente favorável à ampliação do uso de bicicletas na capital e em todo o Estado, não só para lazer como também para trabalho" e a opinião do ortopedista não reflete o que pensa a administração. Segundo a nota, prova disso são os esforços "já realizados ou em curso para aprimorar a oferta deste tipo de transporte à população" de São Paulo.

Entre os exemplos citados pelo governo estão a ampliação da ciclovia do Rio Pinheiros, inaugurada em fevereiro, e a operação de ciclovias e bicicletários ao longo das linhas de metrô e trem. Além disso, o governo afirmou que vai construir uma ciclovia de 13 quilômetros até 2014 que vai ligar oito municípios da Região Metropolitana de São Paulo.

Legislação. A bicicleta é um dos veículos autorizados a circular sobre as vias urbanas e rurais pelo Código de Trânsito Brasileiro e tem preferência sobre os automotores. Desrespeitar ciclista dá multa: deixar de guardar a distância lateral de 1,5 metro ao passar ou ultrapassar bicicleta (infração média) e deixar de reduzir a velocidade do veículo de forma compatível com a segurança do trânsito ao ultrapassar ciclista (grave).

Segundo Renato Boareto, coordenador de Mobilidade do Instituto de Energia e Meio Ambiente, o papel do poder público deveria ser estimular o uso de bicicletas. "Há várias iniciativas mundiais de incorporação da bicicleta no sistema de mobilidade urbana. Essa é uma política de tendência mundial", disse.

O especialista em transportes Celso Bottura concorda com a posição do médico do HC. "Na essência, ele está certo. A bicicleta é muito perigosa. Não se deve incentivar de maneira aloprada", afirmou. De acordo com ele, é impossível São Paulo se adaptar para se tornar mais amigável aos ciclistas. "A cidade foi feita de uma maneira atabalhoada."

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