GABRIELA BILÓ/ ESTADÃO
GABRIELA BILÓ/ ESTADÃO

Luiz Fernando Toledo e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Apenas dez bairros da cidade de São Paulo concentram mais da metade de toda a apreensão de drogas feita na capital paulista. Entre janeiro de 2015 e maio deste ano, as delegacias de polícia da cidade apreenderam 9,6 toneladas de maconha, cocaína, crack e drogas sintéticas – 4,9 toneladas (51,18%) em dez distritos, a maioria na periferia. A lista mostra ainda que é baixa a correlação entre esses bairros e aqueles em que a polícia registra mais crimes violentos, bem como as áreas em que há mais prisões. 

O Estado obteve o histórico de apreensões por meio da Lei de Acesso à Informação e comparou os dados com as demais estatísticas, divulgadas mensalmente pelo governo do Estado. Só três delegacias aparecem tanto na lista dos bairros que mais apreendem drogas quanto na dos que mais prendem criminosos na cidade. São os distritos do Brás (8.º DP), no centro, da Ponte Rasa (24.º DP) e Vila Jacuí (63.º DP), ambos na zona leste. Já na comparação com os que mais registram crimes violentos (homicídios dolosos, estupros, latrocínios e roubos somados), há duas delegacias nas duas listas: o 63.º DP e o 47.º DP, no Capão Redondo, zona sul.

O 3.º Distrito Policial (Santa Ifigênia), que atende a Cracolândia, é o quarto colocado no ranking. Mas não é o distrito que mais apreende crack. O líder é o 49.º DP, de São Mateus, zona leste, com 40 kg da droga. A delegacia da Cracolândia apreendeu 900 gramas – e ocupa a 16.ª posição. 

Das 10 delegacias do ranking, 7 são centrais de flagrantes que fazem plantão 24 horas e recebem ocorrências de distritos que fecham à noite – há 27 dessas delegacias na cidade. Para o coronel reformado da PM José Vicente da Silva Filho, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a comparação dos dados “desmistifica o consenso que temos de que as drogas estão relacionadas à violência”. “O que tem relação direta com violência é cachaça, que desinibe muito”, afirma. 

Já o coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD), Maurício Fiore, afirma que o consumo ainda só é associado à violência por causa da posição do Brasil em tratar o assunto como questão de polícia. “A Europa tem índices baixíssimos de violência, se comparada com o Brasil, e o consumo de drogas, em termos proporcionais, é maior. Isso porque a violência não está associada ao consumo”, diz.  

Policiais nas delegacias que compõem o ranking se mostraram surpresos com os índices – não achavam que estavam acima da média. Segundo contam, as apreensões são feitas pela PM, em patrulhamento, e em investigações de outros crimes que terminam, também, com a descoberta dos entorpecentes.

Pancadão. O campeão em apreensões é o 98.º Distrito Policial (Jardim Miriam), no limite com Diadema. Para a polícia, as características urbanas do bairro – 90 favelas – favorecem a ação do tráfico. “É um bairro extremamente pobre e carente, com poucas áreas satisfatoriamente urbanizadas”, explica o delegado titular, Altair Antonio Joaquim. Para ele, o consumo é feito por moradores da região. “Eles nem têm muitas armas”, afirma.

O presidente do Conselho de Segurança (Conseg) do bairro, Durval dos Santos, destaca ainda que a incidência dos “pancadões” na área estimula o consumo de drogas. “Moradores reclamaram e agora tentamos avisar a polícia antes.” 

Na outra ponta está o 36.º DP, de Vila Mariana. É a delegacia que menos apreendeu droga nos últimos 17 meses. “Aqui há muito roubo. Essa é nossa preocupação. Claro que há tráfico, há consumo. Mas nosso foco é solucionar roubos, assaltos”, disse um delegado do distrito.

Explicação. Questionada sobre os dados pela reportagem, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou, por meio de nota, que o "fato de uma grande apreensão ocorrer em um bairro não reflete, necessariamente, que o consumo da droga seja feito por pessoas daquela região”. Segundo a pasta, "esses flagrantes ocorrem, muitas vezes, em galpões usados como esconderijos, para que a droga seja distribuída para pequenos traficantes".

O Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc), afirma a SSP, "se concentra na investigação dos grandes traficantes" e "o combate das unidades territoriais consiste, majoritariamente, no cerco ao comércio local de entorpecentes”. 

A secretaria lembra que 7 dos 10 distritos que mais apreendem estão na lista dos 27 DPs que trabalham em esquema de plantão. Diz que dois dos demais distritos (3º DP, que atende Santa Ifigênia, e o 54º DP, de Cidade Tiradentes) são bairros com tradicional concentração de entorpecentes. E que a presença do 21º DP (Vila Matilde) na lista “se justifica pelo fato de ter sido apreendida, em poucas ocorrências, quantidade elevada de entorpecentes, o que colocou a unidade entre as que mais apreenderam”.

Segundo a SSP, unidades de inteligência fazem a integração entre ações das Polícias Militar e Civil no Denarc.

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Luiz Fernando Toledo e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Moradora do Jardim Miriam, na zona sul de São Paulo, há 40 anos, a dona de casa Camila (nome fictício), de 60 anos, diz que a presença de traficantes e usuários de droga é rotineira no bairro. “A gente tem de saber lidar com eles. Ainda mais quem tem filho que estuda, sai de casa.”

Por já ser conhecida entre vizinhos, Camila diz que é respeitada e nunca sofreu nenhum tipo de violência. “Eles lá na rua e eu e meu marido aqui em casa. Um não mexe com o outro e está tudo certo”, diz. A vivência de longa data também ajuda. “Esses meninos (traficantes) sabem que eu vi todos nascerem. Em muitos, até dou bronca: ‘Sai dessa, meu filho, vai estudar’. Mas não resolve.” 

A moradora conta que a “profissão” de traficante é almejada pelos mais novos. “Até as crianças veem, é muito comum. Quando vão crescendo, elas se perguntam: ‘O que vou fazer da vida? Vou seguir o caminho do meu pai, do meu irmão. Estudar pra quê?’”, conta. 

Outra reclamação dela é sobre os “pancadões” que acontecem todo fim de semana. “Fazem um barulho insuportável, deixam muita sujeira e droga”, reclama a moradora. 

Mas as festas têm diminuído. Desde o mês passado, após consecutivas reuniões do Conselho de Segurança (Conseg) da região, policiais militares foram mobilizados para evitar a concentração dessas festas no bairro. “Conseguimos diminuir consideravelmente o número de pancadões”, diz o presidente da entidade, Durval Marques dos Santos. 

Durante as reuniões com as lideranças comunitárias, que acontecem uma vez por mês, o Conseg da região busca mapear novas áreas de tráfico de drogas e trocar informações sobre ocorrências na localidade. “Os próprios moradores fazem a denúncia. No entorno da comunidade há pelo menos dez escolas. Os pais não gostam de ver os filhos expostos às drogas e reclamam”, afirma.

Zona leste. Seis dos bairros que mais apreendem drogas na capital ficam na zona leste. São desde distritos mais centrais, como Brás e Vila Alpina, até regiões mais afastadas, como Vila Jacuí e Cidade Tiradentes. 

O distrito de Vila Alpina (56.º DP) atende bairros da Mooca e Alto da Mooca em esquema de plantão. Um morador do local, de 35 anos, atualmente frequentador de um centro de ajuda mútua para dependentes químicos, destaca que a vida boêmia da região e a facilidade de acesso às “bocas” são uma receita explosiva. “A pessoa vai no bar, bebe, perde a inibição e aí desce até a Avenida Presidente Wilson, onde há dois lugares que vendem droga que chamam de boa, porque é muito forte.” 

Para o rapaz, que diz estar há um ano sem usar drogas depois de percorrer todo o caminho que vai do álcool ao crack, é o consumo excessivo do primeiro o que mais preocupa no bairro da zona leste.  “O funk incentiva muito, porque o jovem precisa beber para se desinibir. Aí aprende que não pode se divertir sem isso. E a coisa vai crescendo: cervejinha, baseado, cocaína. O álcool está totalmente ligado à cocaína. E a cocaína, ao crack.”

O jovem argumenta ainda que, nessa porção da zona leste, o fato de as pessoas terem poder aquisitivo maior do que nas regiões mais periféricas acaba sendo um fator que estimula ainda mais o consumo. “Eu não sei qual é o papel da polícia no caso da droga. Nunca pensei nisso. Tem gente que fala que eles ganham para deixar rolar, tem quem fale que eles não vão atrás porque ganham pouco. O trabalho deles é enxugar gelo.”

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Luiz Fernando Toledo e Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

24 Julho 2016 | 03h00

 

SÃO PAULO - A apreensão de maconha registrada nas delegacias de polícia de São Paulo representa 76,47% de toda droga recolhida entre janeiro do ano passado e maio deste ano. Das 9,6 toneladas de entorpecentes apreendidas, 7,36 toneladas são da erva, seguida por cocaína (1,8 tonelada). A “liderança” da planta é histórica: se mantém desde 2007, ano mais distante na relação obtida pelo Estado por meio da Lei de Acesso à Informação.

A maconha é uma droga que pesa mais: os usuários precisam de porções maiores do entorpecente para o uso, segundo a polícia. É também a mais consumida. O Levantamento Nacional Antidrogas (Lenad), pesquisa feita em 147 municípios em 2012, apontou que 6,8% dos brasileiros já a experimentaram. E 2,9% haviam usado ao menos uma vez no ano anterior. 

O destaque no perfil das drogas apreendidas nas delegacias de São Paulo é o crescimento repentino de uma quarta categoria, que a Polícia Civil registra apenas como “outras”. Trata-se principalmente de drogas sintéticas, como ecstasy e LSD, além de lança-perfume e, mais raro, heroína e haxixe. Só entre janeiro e maio deste ano, foram aprendidos 180 quilos de drogas classificadas como “outros” na cidade. No ano passado inteiro, haviam sido apreendidos 100 quilos. E em 2014, apenas 25 quilos. 

A pesquisadora Clarice Madruga, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma das coordenadoras do Lenad, afirma que o crescimento do uso de drogas sintéticas é um fenômeno mundial. “Em São Paulo, a polícia não tem instrumentos para detectar corretamente o que é cada droga sintética. Classificam tudo como ecstasy, mas não sabem o que é realmente”, afirma.

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