Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Dez anos após acidente em Congonhas, sobrevivente e bombeiro se reencontram

Paulo Roberto Zani estava em prédio atingido pelo avião da TAM e conseguiu se salvar minutos antes de construção ruir

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Correções: 10/07/2017 | 13h00

Dez anos depois da tragédia, dois homens marcados por ela se reencontram no local do acidente, hoje um memorial em homenagem às vítimas. “Acho que foi bem aqui”, diz um deles, o gerente de TI Paulo Roberto Zani, ex-funcionário da TAM Express, com convicção, mesmo sem nunca ter voltado a pisar neste lugar. Aqui Zani viveu seus momentos mais duros, dentro do prédio atingido pelo Airbus, com o fogo nos calcanhares e a fumaça da borracha e da querosene intoxicando seus pulmões. Resistiu durante uma hora, debruçado na janela e cobrindo o nariz com a camisa, até que uma escada dos bombeiros finalmente o alcançou.

“Não falei? Foi aqui, neste exato lugar!”, concorda o outro homem, tenente Lealdo Machado, o bombeiro que o resgatou do prédio em chamas naquela terça-feira de chuva. “Bem como eu me lembro. Depois da curva, na descida, quando a rua fica plana. Aqui que a gente estacionou e eu vi você lá em cima. Não pula, não pula, espera que a gente vai chegar!”

“Muito estranho voltar. Lembro de você chegando, falando 'pula aqui no cesto', porque não podia encostar na parede. Aí eu fui pular. Nossa...”, conta Zani. “O pessoal na rua gritava 'fica tranquilo, o bombeiro está chegando'. Tranquilo... Super tranquilo!”, ele completa com uma risada, e o papo prossegue.

Nos dias seguintes ao acidente, Machado e Zani se encontraram uma vez, em um programa de TV. Depois, falaram ao telefone, quiseram marcar um churrasco, um dia mudaram de número, perderam-se. Agora, por vontade deles próprios, caminham lado a lado nesta praça aberta no lugar do acidente, trocando memórias e versões. Uma década depois, ainda há surpresas. Zani acaba de descobrir, por exemplo, que esteve mais perto da morte do que imaginara.

“Aí eu tirei você, entreguei para a viatura de resgate, tiramos o caminhão dali porque tinha risco de o prédio cair”, diz Machado.

Zani: “Mas caiu depois?”

“Uns cinco minutos depois!”, responde o bombeiro. “A gente se preparava pra jogar água no fogo e aí deu uma explosão que cobriu todo mundo com uma nuvem preta. Todos se afastaram e, quando a fumaça sumiu, o prédio foi ruindo. O terceiro andar em cima do segundo, o segundo em cima do primeiro, que nem dominó!”

“Nossa, não sabia”, reagiu Zani. “Então, se tivesse ficado ali...”

“Graças a Deus, a gente chegou. As chances de viver eram pequenas”, disse o bombeiro.

“Praticamente nenhuma”, assentiu Zani. “Foi na hora. Por Deus, né!”

 

 

Como é estar dentro de um prédio atingido por um avião? Primeiro, um “barulho muito forte de turbinas se aproximando”, descreve o gerente de TI. Ele batia papo no hall do elevador, já pronto para ir embora, quando o ruído interrompeu a conversa. Depois veio o estrondo - “uma pancada, explosão e tremor, tudo junto”. Não dava para saber o que era, mas parecia perigoso. Zani procurou um corredor, chocou-se contra alguém, caiu no chão. Sentiu que a fumaça - mistura de plástico, borracha, fios e combustível queimados - o impedia de respirar e percebeu que era grave. “Lembrei da família, dos meus pais, e pensei: 'Não vou morrer trabalhando!'”, conta. “Não vou morrer aqui hoje. Tinha certeza de que iria sair.” Zani e um colega - seu amigo até hoje, Wanderlei - tatearam o corredor agachados até encontrar uma porta aberta. Ali ainda não havia fumaça, e eles puderam ficar em pé. Zani jogou duas cadeiras contra as janelas e quebrou as vidraças.  Os estilhaços o feriram em mãos, costas, cabeça, mas ele não sentiu nada. Os dois apoiaram-se na janela e ali ficaram, rezando e sentindo o calor chegando, acenando a helicópteros e pedindo que os tirassem dali. Mas eram da TV. Ouviam as janelas do prédio estourarem, uma a uma, e gritos de desespero lá de dentro. Wanderlei queria pular (15 a 20 metros), Zani pediu que aguentasse firme. Não sabiam ainda "que diabo havia acontecido com o prédio".

“O que eu guardo era vocês dois gesticulando e aquela nuvem de fumaça saindo por cima da cabeça”, diz o bombeiro Machado, caminhando entre os canteiros malcuidados do memorial. Ele dava expediente no quartel do Ipiranga, quando ouviu o chamado pelo rádio. Quarenta minutos depois - “um trânsito horroroso” -, chegava ao local e um outro bombeiro apontou a janela dos dois homens. “Machado, é ali”. Enquanto a plataforma subia, o bombeiro perguntou se havia mais gente lá. Antes ouviam gritos, eles disseram, mas agora não mais. A plataforma dos bombeiros sobe primeiro na vertical e só depois se aproxima, bem lentamente. É um momento tenso, pois quem está sendo resgatado pode querer saltar. O bombeiro então deve olhar fixamente o rosto da vítima - “não vai pular, estou chegando”, dizia Machado a Zani. Por isso, o bombeiro diz ter gravado o rosto do sobrevivente. “Se o vir em qualquer canto eu reconheço!”, garantiu Machado.

“Coitado!”, brincou Zani, na visita ao memorial. “E aqui tem alguma coisa que representa as 199 pessoas que morreram, né?”

“Tem, esses pontinhos que iluminam à noite”, diz o bombeiro, hoje instrutor na Escola Superior de Bombeiros, abarcando com um gesto de mão as 199 lâmpadas LED no chão. “Nossa, dez anos, hein? É uma vida. Minha afilhada fez 11 anos agora, ela era um bebê, está uma moça...”

“Me surpreendi como fiquei consciente o tempo todo, ligado... Bom saber que reagi assim num momento de risco”, prossegue Zani. “Só fui relaxar quando já estava no cesto... Aí me emocionei, uma descarga de energia absurda.”

“Eu lembro que você estava sentado no chão e abraçou minhas pernas.”

O tempo todo, dentro do prédio, o celular tocou dentro do bolso de Zani. Era a mulher, parentes, amigos. Ele não atendeu. “Umas 50 chamadas não atendidas, mas o que eu ia dizer? Meu foco era escapar do fogo.” Depois de salvo, na viatura de resgate, pediu à enfermeira que ligasse à mulher: “Tô vivo! Tô vivo!”, foi o que conseguiu dizer.

Machado: “E você tem duas filhas, né, uma grande e uma menorzinha. Como está a família?”

“São moças já, uma está trabalhando... Mas estão comigo, moramos todos juntos, aqui perto.”

“Temos de marcar aquele churrasco, hein?”, sugere o bombeiro. “Ou, até mais fácil: você bebe cerveja?”

“Ô!”, responde Zani.

Trocaram um abraço meio de lado e seguiram em frente.

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Correções
10/07/2017 | 13h00

O texto acima foi atualizado às 13 horas desta segunda-feira, 10, para corrigir a informação sobre o combustível do avião.  A aeronave usava querosena, não óleo diesel.
 

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