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Felipe Rau/Estadão

Chuvas no Estado de SP deixam 20 mortos e 5 desaparecidos

Vítimas por causa das chuvas neste verão chegam a 59, maior número desde 2010; Rios Tietê e Pinheiro transbordaram

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O Estado de S. Paulo

11 Março 2016 | 07h25

FRANCISCO MORATO E MAIRIPORÃ - Subiu para 20 o número de mortes causadas pelas fortes chuvas que atingiram sobretudo a Grande São Paulo entre a noite de quinta-feira, 10, e a madrugada de sexta-feira, 11, segundo balanço atualizado pelos bombeiros. As equipes de resgate ainda procuravam por cinco desaparecidos. 

Um dos corpos achados na madrugada deste sábado, 12, segundo a corporação, é de uma pessoa que morreu de parada cardíaca após se afogar enquanto atravessava um ponto de alagamento em Franco da Rocha. Não havia mais informações sobre a segunda vítima.

A presidente Dilma Rousseff (PT) sobrevoou a região da Grande São Paulo afetada pelas enchentes na manhã deste sábado. Ela e o governador Geraldo Alckmin (PSDB) fizeram uma reunião com a equipe técnica dos bombeiros e da Defesa Civil para discutir a situação da área castigada pelas chuvas. Também participaram os ministros da Secreraria de Governo, Ricardo Berzoini, e da Secretaria da Comunicação Social, Edinho Silva.

Dilma disse que liberou um cartão de recursos para o prefeitura de Franco da Rocha, após a decretação do estado de emergência municipal. “É uma área de risco e nós temos que agir em conjunto. Nós temos obrigação em relação ao povo dessa região”, afirmou.

A presidente ainda fez uma rápida visita a um centro cultural de Franco da Rocha, que serve de abrigo para desalojados. No começo da tarde, os helicópteros que traziam a comitiva do governo federal saíram da Escola Superior dos Bombeiros, em Franco da Rocha, de volta para Brasília. 

Buscas. O trabalho de buscas está concentrado em Mairiporã, onde cinco pessoas estão desaparecidas. Todas estavam em três casas localizadas no mesmo terreno que desabaram na madrugada de sexta-feira. Dali já haviam sido retirados os corpos de um senhor identificado só como Severino, de Paloma França Lima, de 36 anos, e de seu filho Isaac, de 1 ano. A outra filha, Laura Bianca, de 9 anos, continuava desaparecida. Também não haviam sido encontrados Severina (mulher de Severino), Alisson Beneviste, de 17 anos, Fabiano Costa, de 28, e Ana Laura, de 10 meses. 

As buscas não podem ser feitas com máquinas, por causa de fragilidade do terreno. Cinquenta bombeiros se revezam em grupos de dez, tirando terra com as mãos.

Em Francisco Morato, uma das cidades mais atingidas pelo temporal e onde 8 pessoas haviam morrido até sexta à noite, um caminhão circulava pelas ruas da cidade, na manhã deste sábado, recolhendo doações, como roupas e alimentos. Os voluntários usavam igrejas e órgãos públicos como pontos para a triagem do material. 

Na estrada do Campo Limpo Paulista, que dá acesso ao município, caminhões ainda retiravam terra espalhada pelo asfalto. Vias da vizinha Franco da Rocha chegaram a ser interditadas por causa dos estragos, o que causou longas filas de congestionamento na região.

Interior. A prefeitura de Itatiba, na região de Jundiaí, decretou situação de emergência no início da noite de sexta-feira, depois de ser atingida por um temporal que deixou duas pessoas mortas e muita destruição. De acordo com o prefeito João Fattori (PSDB), a situação na cidade é “anormal” e vai exigir a rápida contratação de empresas e materiais para recuperar as áreas mais afetadas.

Ruas, avenidas e praças destruídas pelas chuvas estavam interditadas e o abastecimento de água acabou afetado. Duas pontes caíram na área urbana. Os prejuízos ainda estavam sendo somados. Na manhã deste sábado, o Rio Atibaia tinha pontos de transbordamento na área urbana. Segundo ao prefeito, 36 pessoas desalojadas estavam em abrigos. A marginal da Rodovia Constâncio Cintra (SP-360), próxima do distrito industrial, foi interditada para reparo emergencial no sistema de drenagem e troca de tubulação rompida pela chuva. 

A previsão é de que o tráfego seja restabelecido somente amanhã. Já na Rodovia D. Pedro I, havia interdições parciais no km 122, em Valinhos, e em pontos com quedas de talude entre Atibaia e Louveira.

Em Salto, as águas do Rio Tietê cobriam, na manhã de ontem, ruas e praças no centro. Com a chegada da vazão causada pelas chuvas na Região Metropolitana de São Paulo, o rio estava 3,5 metros acima do nível normal. A Praça da Concha Acústica, o Parque das Lavras e o Memorial do Rio Tietê foram interditados. Moradores foram retirados das áreas de risco.

Em Jundiaí, a Defesa Civil interditou ontem mais uma casa em risco, elevando para 20 o número de residências interditadas na cidade em razão das chuvas. Pelo menos 50 moradores estavam desabrigados.

Em Piracicaba, a região do beira-rio, no centro da cidade, entrou em estado de alerta pelo risco de transbordamento do Rio Piracicaba. A vazão atingiu 500,8 metros cúbicos por segundo, três vezes acima da média de março, de 167 m3/s.

Cerca de 170 mil moradores de Campinas tiveram o abastecimento de água interrompido por causa das chuvas que caíram na região. O motivo foi a inundação do Rio Atibaia no distrito de Sousas, onde é feita a captação para 95% da cidade. Os outros 5% dos 1,1 milhão de moradores de Campinas são abastecidos pelo Rio Capivari.

Mortes no verão. Segundo balanço da Defesa Civil na noite desta sexta-feira, 1.599 pessoas estão desalojadas e 145, desabrigadas. A tempestade deixou mais mortos do que todo o verão de 2011 e 2012. Com 59 casos, a atual temporada é a que tem mais óbitos desde o verão 2009/2010. A maioria das mortes aconteceu em áreas de risco para deslizamento em Francisco Morato e Mairiporã – 2 dos 88 municípios paulistas na lista nacional de risco. 

Só em Francisco Morato, os deslizamentos deixaram oito vítimas. Uma criança de 5 anos, soterrada, teve a perna amputada para que os bombeiros pudessem socorrê-la. Em Mairiporã, quatro pessoas morreram e seis desaparecidos ainda eram alvo de buscas nesta sexta-feira, 11. Sete pessoas ficaram feridas. O deslizamento de terra atingiu três casas, em uma região de morro. Uma criança chegou a ser socorrida, mas morreu no hospital. Em Itapevi, duas pessoas morreram soterradas. Além disso, os bombeiros relataram que duas pessoas morreram afogadas, uma em Guarulhos e outra em Cajamar.

Em Caieiras, a Defesa Civil informou mais de 30 deslizamentos de terra e diversas residências inundadas. Na capital, um deslizamento feriu quatro no Jardim Ângela (zona sul). Ainda na Grande São Paulo, em Cajamar, o Ribeirão dos Cristais transbordou e deixou as principais ruas inundadas, além do km 36 da Via Anhanguera. 

O mesmo aconteceu em Franco da Rocha. Parte da cidade ficou completamente alagada – a exemplo de Itaquaquecetuba. Para evitar o rompimento de uma barragem do Sistema Cantareira, a Companhia de Saneamento Básico do Estado (Sabesp) abriu as comportas da Represa Paiva Castro, no limite com Mairiporã. A Sabesp alegou que a captação da Paiva Castro ajudou a minimizar os efeitos da cheia na cidade. 

Durante a tempestade, duas linhas da CPTM (7-Rubi e 8-Diamante) tiveram a operação interrompida. Houve alagamentos na Via Anhanguera e queda de barreiras na Dutra. Em Itapevi, duas pessoas morreram soterradas. Além disso, os bombeiros relataram que duas pessoas morreram afogadas, uma em Guarulhos e outra em Cajamar.

O Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, ficou fechado para pousos e decolagens das 23h50 até as 6h06. A forte chuva alagou parte da subestação de energia local. Pelo menos 12 voos foram remanejados e outros seis, cancelados.

As fortes chuvas também causaram transtornos no interior paulista. Duas pessoas morreram em Itatiba. Em Várzea Paulista e Jundiaí, 11 mil domicílios ficaram sem energia, segundo a CPFL Piratininga. O temporal em Sorocaba causou o transbordamento do Rio Sorocaba. E deslizamentos interditaram casas em Cabreúva e Alumínio.

Meteorologia. A estação do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) na zona norte paulistana registrou, 87,2 milímetros de chuva de quinta, 10, para sexta, 11, o equivalente a 54% do esperado para o mês. Até agora, março acumula 212,7 mm na estação do Mirante de Santana, ultrapassando a média histórica do mês (período de 1943-2015), que é de 187,9 mm. 

“Nós tínhamos uma frente fria passando pelo litoral, associada a um centro de baixa pressão. E aí aconteceu uma convergência de umidade. Não foi uma chuva tão forte, mas durou bastante, o solo ficou encharcado e os rios aumentaram muito a vazão”, explicou a climatologista Helena Balbino.

Desde segunda-feira, os modelos de previsão do tempo do Inmet apontavam para risco de temporais na Região Sul e Sudeste. Um alerta sobre a possibilidade de chuvas fortes também foi feito na quarta-feira.

Alckmin e Haddad. Na capital, o temporal da madrugada causou o transbordamento dos Rios Tietê e Pinheiros e de três córregos: Perus, na zona norte; Lajeado, na leste; e Morro do S, na sul. Durante o dia, foram 18 pontos de alagamento. 

Tietê e Pinheiros transbordaram em seis diferentes pontos, fato que não acontecia simultaneamente desde setembro de 2009, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE). Os alagamentos acabaram provocando trânsito recorde na cidade para o período da manhã e prejuízo de 200 toneladas de frutas na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que ficou alagada.

Em entrevista à Rádio CBN, o prefeito Fernando Haddad (PT) relacionou os transbordamentos à falta de limpeza dos Rios Pinheiros e Tietê pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB). Segundo ele, ambos estão “assoreados”. “Se não houver limpeza, os córregos não conseguem ter vazão, por mais limpos que estejam”, disse o petista. Segundo o CGE, os extravasamentos do Tietê chegaram a 60 centímetros. A última vez que o principal rio que corta a cidade transbordara foi no verão de 2011.

Segundo o Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (DAEE), desde 2011, já foram retirados 10,5 milhões de metros cúbicos de sedimentos do Tietê, o equivalente a 4.200 piscinas olímpicas. Questionado se a falta de ações preventivas provocou essa situação, o governador Geraldo Alckmin – que passou o dia em contato com prefeitos e liberou R$ 680 mil para ações emergenciais nos municípios – disse que “agora o momento é de socorrer vítimas”.

Recursos. Levantamento feito na execução orçamentária de 2015 mostra que o governo Alckmin deixou de investir R$ 73,9 milhões do previsto em manutenção e conservação da calha do Tietê no ano passado. Foram R$ 100,8 milhões aplicados, 42,3% menos do que os R$ 174,7 milhões planejados. 

Segundo o DAEE, contudo, o valor que deve ser considerado é o do orçamento atualizado, de R$ 100,9 milhões, e 99,9% da verba “disponível” foi investida. Ainda segundo o departamento, o recurso foi usado para fazer desassoreamento de 367 mil metros cúbicos de sedimentos dos lotes 1, 2 e 3 do Rio Tietê. 

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