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Descriminalizar maconha não afeta tráfico, diz especialista do governo dos EUA

O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 17h 03

Liberação da venda legal poderia gerar indústria milionária, com foco no público jovem e impactos na saúde pública, segundo Kevin Sabet

Descriminalizar a maconha não acabaria com o tráfico, aumentaria o número de usuários e criaria uma indústria milionária com foco nos consumidores jovens, como a do tabaco. A opinião é do sociólogo Kevin Sabet, especialista do Escritório de Política Nacional de Controle às Drogas do governo dos Estados Unidos. Sabet, que trabalhou para os governos de Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama, apresentou em São Paulo neste sábado, 23, a palestra “Impacto da Legalização das Drogas”.

O evento, realizado no Palácio dos Bandeirantes, foi organizado pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), presidida pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira. Coordenador do Programa Recomeço, iniciativa do governo paulista para o combate ao crack, Laranjeira é conhecido pela oposição radical à descriminalização das drogas.

Segundo Sabet, a maconha tem efeitos nocivos à saúde que são mal compreendidos pela sociedade porque demoram a se manifestar. "Outro fator que afasta do público o conhecimento que a ciência tem sobre os efeitos deletérios da maconha é uma campanha milionária financiada por lobistas que estão interessados na legalização", disse. De acordo com ele, a legalizar a venda não iria destruir o tráfico. "Os traficantes continuariam vendendo mais barato", afirmou.

O sociólogo afirmou que a liberação da maconha faria explodir o número de usuários. "Uma droga legal como o tabaco é usada por 16% da população no Brasil e 25% nos Estados Unidos. Quando uma droga é normalizada, mais pessoas usam. Será que queremos legalizar uma substância como a maconha que hoje é utilizada só por 2% dos brasileiros e 8% dos norte-americanos", questionou. "Quando uma droga é legalizada, ela se torna cultuada pelos jovens como uma porta de entrada na vida adulta, como acontece com o cigarro e o álcool", declarou Sabet.

De acordo com Sabet, a liberação da venda legal da maconha no estado do Colorado gerou uma indústria milionária que se dedica à promoção do vício. "As empresas do lobby pró-maconha só estão preocupadas com dinheiro. Eles querem legalizar para faturar. Como a indústria do álcool e do tabaco, essas empresas não vão faturar com o usuário casual. Elas querem incentivar o uso pesado", afirmou. Segundo ele, nos Estados Unidos, 80% da bebida alcoólica vendida é consumida por 20% dos usuários de álcool. "O melhor alvo para essa indústria são as crianças. Eles farão embalagens atraentes e utilizarão as mesmas estratégias de marketing desenvolvidas pela indústria do tabaco. No Colorado, temos uma preocupante intersecção da indústria da maconha com a bolsa de valores", disse.

Para Sabet, o uso da maconha aumenta os níveis de dependência de uma população aos programas sociais, faz crescer o desemprego, diminui os níveis de renda e escolaridade. "O uso da maconha também é um fator de risco importante para distúrbios mentais. Isso não acontece, por exemplo, com o tabaco, o álcool e a cocaína" declarou. "Além disso, a maconha transgênica produzida hoje é de 10 a 20 vezes mais forte que a produzida nos anos 70. Isso leva a quadros de psicose e pânico", afirmou. 

Sabet declarou também que há indícios de que a maconha diminui o QI dos usuários. Ele citou um estudo feito com mil usuários que fumavam maconha mais de três vezes por semana da adolescência aos 38 anos. "Os resultados mostraram que eles tiveram uma redução considerávle no QI, de 6 a 8 pontos. Essa é a diferença entre conseguir ou não o emprego que se quer", disse ele.