Depoimento

A passagem até a Vila Mariana custava 50 centavos de réis

, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2010 | 00h00

Antonio Jorge Maluf, APOSENTADO, DE 92 ANOS

Usei o bonde que passava na Avenida Adolfo Pinheiro pela primeira vez quando tinha 4 anos. Tomei uma mordida de cachorro e meu pai me levou para São Paulo. Não havia pronto-socorro em Santo Amaro.

Esse foi meu meio de transporte por muitos anos. Não compensava usar ônibus por causa das estradas esburacadas. Eles passavam por córregos sem pontes. Quando chovia, tinham de parar para pôr correntes nas rodas. De bonde, eu ia de Santo Amaro ao centro em 45 minutos. A passagem custava 50 centavos de réis até a Vila Mariana e 70 centavos até a Sé.

A linha começava na Represa Velha, na Avenida de Penedo, e terminava na Praça da Sé, com parada no Brooklin, no Largo 13 e no Largo de São Sebastião. O primeiro partia às 5h30 e o último, à 0h30. Passava a cada 20 minutos. Quando perdia o último bonde, voltava caminhando pelos trilhos.

Lembro de três desastres. Por causa da neblina em Santo Amaro, o funcionário não enxergava direito. Quando virava errado a chave de desvio dos trilhos, os bondes se chocavam de frente. Morreu muita gente. Eu viajava de bonde todos os dias, até o serviço ser extinto pelo prefeito José Vicente Faria Lima (1965-69).

Sob a ponte, vestígios da Linha 34

Em outubro, descobriu-se que a Ponte Presidente Jânio Quadros mantinha enterrada parte da história da Linha 34, que ligava a Vila Maria, na zona norte, ao Largo da Sé, no centro. O consórcio Nova Tietê, responsável pela modificação da ponte para a ampliação da Marginal, já sabia da existência da linha, mas não imaginava que restassem ferragens ali.

Na época, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) admitiu que novas obras encontrassem trilhos. Mas considerou o valor histórico duvidoso.

Polêmica. No mês seguinte, durante as obras de revitalização do Largo da Batata, descobriu-se um sítio arqueológico em Pinheiros, que poderia parar os trabalhos. Na época, a Prefeitura negou que os achados tivessem valor histórico. Mas o caso acabou denunciado ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (Iphan), que avalia o achado.

PONTOS-CHAVE

Primeiro bonde

A primeira linha de bondes puxados a burro era de 1872 e

ligava a Rua do Carmo à Luz. A primeira de bonde elétrico, de 1890, ligava o Largo de São

Bento à Barra Funda

Extensão

Os bondes elétricos, inaugurados em 1930, chegaram a circular por mais de 160 quilômetros da capital. Ao todo, a cidade chegou a contar com 104 linhas

Maior movimento

Era o da linha Penha-Praça da Sé, que tinha 19,4 km. O trecho era feito em cerca de uma hora. No auge, em 1958, o sistema de bondes alcançou a marca de 220 milhões de viagens/ano

O fim

A Light passou a se desinteressar pelo serviço após a Câmara ter vetado seu projeto de metrô para a cidade, em 1927. Em 1946, o serviço foi entregue à extinta CMTC

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