HEITOR HUI/ESTADÃO
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Decisão que anulou condenação de PMs do Carandiru é debatida na Rádio Estadão

Jornalista, coronel e membro da Pastoral Carcerária conversaram sobre o assunto e criticaram a falta de responsabilização no caso

O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2016 | 19h08

SÃO PAULO - A decisão da 4.ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo que anulou as condenações de policiais envolvidos no massacre do Carandiru foi tema de debate nesta sexta-feira, 30, na Rádio Estadão. O coronel da reserva da Polícia Militar José Vicente da Silva Filho, o editor-adjunto do caderno Metrópole, do Estado, Marcelo Godoy, e o assessor jurídico da Pastoral Carcerária, Francisco de Barros Crozera, participaram da conversa criticando a ação da corporação em 1992 e levantando ponderações quanto à decisão da Corte paulista.

Na terça-feira, 27, o TJ entendeu pela anulação dos júris que haviam condenado 74 policiais por considerar que a decisão contrariava as provas apresentadas nos autos. No voto mais polêmico, o desembargador Ivan Sartori foi além e defendeu a absolvição dos réus, já que supostamente não seria possível individualizar a conduta, ou seja, dizer qual agente atirou em qual detento. O caso em 2 de outubro de 1992 deixou 111 presos mortos. “Entendo que o voto pela absolvição vai de encontro à soberania do júri, prevista na Constituição e que deve ser respeitada. Desrespeitar essa soberania é desrespeitar a própria sociedade”, disse o jornalista Marcelo Godoy.

Para o coronel José Vicente da Silva Filho, o caso deveria ter servido para chamar atenção para as condições das penitenciárias brasileiras, onde ainda são registradas dezenas de mortes anualmente. O oficial analisou que a Polícia Militar alterou sua forma de atuar a partir do episódio. “Ali, sem dúvida, aconteceu uma ação despreparada. A quantidade de presos mortos com tiros pelas costas, por exemplo, indica que alguma coisa estava errada”, disse.

O assessor jurídico da Pastoral ressaltou que deveria ter havido uma cobrança a autoridades da cúpula da corporação, da Secretaria da Segurança Pública e do governo do Estado. “O Executivo ficou de fora da responsabilização”, disse. Crozera lembrou que pouco tempo antes do massacre, a gestão dos presídios passou da Secretaria de Justiça para a pasta da Segurança Pública, o que teria contribuído para uma resposta mais violenta ao motim.

Godoy relembrou os momentos que se seguiram à entrada dos policiais no Pavilhão 9 da Casa de Detenção na zona norte de São Paulo. Do lado de fora, familiares acompanhavam apreensivos. “A dimensão do que tinha acontecido só foi dada no dia seguinte, com a divulgação do número pelo governo. Antes, jornalistas buscavam hospitais da região para informações sobre feridos e mortos, mas não se sabia que tinha sido mais de uma centena”, disse.

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