TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

De mato à falta de vigias e funcionários, 80 de 106 parques de SP têm problemas

Usuários reclamam da falta de segurança e de manutenção dos espaços municipais que estão com contratos vencidos

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

28 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - De tão alto, o mato encobre o playground do parque. Jardins, malcuidados, exibem folhas e flores ressecadas. Cadeados impedem os frequentadores de usar os banheiros. Em alguns parques da capital, também não se vê nenhum vigilante. Usuários reclamam de abandono e da falta de segurança. Traduzida em números, a situação preocupa até a Prefeitura: dos 106 parques municipais de São Paulo, 80 têm equipes deficitárias de manutenção ou de vigilância – ou simplesmente estão sem os serviços.

Segundo dados da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), obtidos pelo Estado, os parques municipais deveriam ter 1.150 vigilantes, mas o quadro atual atinge 67,8% do necessário, com 780 seguranças em atividade. O déficit das equipes de manejo – responsáveis pela manutenção dos parques – é ainda mais grave. Há 500 funcionários trabalhando, enquanto o efetivo ideal é de 1.100: mais do que o dobro. “Estamos operando um milagre mantendo os parques abertos, funcionando com afluxo de pessoas”, diz o secretário Gilberto Natalini.

Com 1,5 milhão de m², o Parque do Carmo, um dos maiores de São Paulo, que fica em Itaquera, na zona leste, está sem serviço de limpeza desde novembro. Escadarias e canteiros foram tomados pelo mato, que avançou também sobre o playground. Há churrasqueiras pichadas e quebradas, bancos depredados e até o Salão de Vidro, uma das dependências do equipamento, fechou por falta de funcionários. Na área do planetário, o capim também tomou conta.

“Faz meses que não limpam, está esquecido”, diz o autônomo Henrique Ferrari, de 36 anos, que frequenta o Carmo há duas décadas. A assistente administrativa Cristina Ferreira, de 47 anos, concorda, mas diz que o local “também precisa da ajuda dos frequentadores, as pessoas precisam ter mais consciência”. O caixa Fabiano Gabriel, de 42 anos, considera o quadro “desagradável”. “Falta cuidado, segurança e preservação.”

No Parque da Aclimação, na zona sul, o Jardim Japonês, criado há um ano com auxílio de um banco, tem mato alto e sujeira. A Prefeitura afirma que não houve manutenção e é necessário “verba para restaurar ou novo parceiro”. Um dos três banheiros também está fechado por falta de funcionário. Segundo a SVMA, foi preciso fazer um “planejamento operacional” para “adequar a equipe.”

Oito parques estão sem contrato de vigilância, entre eles o Trianon, na Avenida Paulista, no centro; o Parque da Independência, no Ipiranga, na zona sul; e o Zilda Natel, no Sumaré, zona oeste. Outros tem equipes incompletas. No Parque Jardim da Luz, onde há exposição permanente de obras da Pinacoteca do Estado, no centro, deveria haver 27 funcionários de manejo, mas há cinco, além de cinco seguranças por turno, de manhã e à tarde, e três à noite. 

Vizinha do Independência, a recepcionista Maria Priscila Santos, de 45 anos, deixou de fazer cooper no local. “Mesmo quando tinha segurança ficava preocupada, imagina sem. Já vi gente desesperada por causa de roubo de celular aqui dentro.” 

Com uma base da Polícia Militar do lado de fora do portão, o Trianon não tem nenhum vigia dentro. “Eu não vou, dá medo. Antes, havia seguranças lá, mas agora não tem ninguém”, diz o desempregado Jorge Moraes, de 53 anos, que agora prefere ler o jornal no Parque Prefeito Mário Covas, bem ao lado, que também está com problema no contrato de seguranças. 

Herança. Natalini afirma que herdou a situação precária da gestão Fernando Haddad (PT). “Os parques, hoje, estão com problema, a gente reconhece isso. No ano passado, foram executados R$ 146 milhões do orçamento para parques, mas o dinheiro acabou em setembro”, diz. “Quando a gente assumiu, havia 80 parques com zero de vigilância ou zero de manejo – ou aquém do necessário.”

De acordo com o secretário, o orçamento previsto para este ano foi de R$ 154 milhões, incluindo gastos com pessoal e custeio, mas a parte da verba para manejo, de R$ 54 milhões, só deve durar até maio. É nesse mês também que vencem os contratos remanescentes. Para que os parques não fiquem sem nenhum funcionário, a Prefeitura terá de correr contra o tempo. É preciso licitar contratos de todas as unidades. Até a semana passada, apenas a licitação do Parque do Carmo havia sido publicada. A concorrência dos oito parques que estão sem vigilância também está encaminhada para publicação, segundo Natalini. “Demoramos um pouco para fazer uma coisa que não tenha contestações e que consiga correr rápido”, afirma. 

Só o Parque do Carmo e o Ibirapuera terão licitações isoladas, enquanto nos outros isso será feito por lotes, dividido por regiões. “Conseguimos um remanejamento de recursos que, somado, dá R$ 80 milhões, para cobrir o resto do ano”, diz. 

A gestão Haddad diz que deixou R$ 5,5 bilhões para “fazer frente aos contratos que estavam vencendo ou a vencer” e que não fez renovações para não obrigar a atual gestão a administrar contratos que não firmou.

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Prefeitura aposta em mutirões de limpeza e na busca de parceiros

Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente diz que recuperou 38 dos 80 parques que têm problema de falta de funcionário

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

28 Março 2017 | 03h00

SÃO PAULO - Sem os contratos renovados, a Prefeitura tem organizado mutirões de limpeza e forças-tarefa para recuperar os parques mais afetados. A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA), afirma que até o momento recuperou 38 dos 80 parques que têm problema de falta de funcionário. A administração municipal também procura doadores, parceiros interessados em adotar parques, além de preparar o pacote de concessão de todas as unidades. 

“Na força-tarefa, reunimos as equipes de quatro ou cinco parques, além de funcionários da Prefeitura regional, e vamos todos para um parque só (para limpá-lo), até resolver”, diz o secretário Gilberto Natalini. “Além disso, há a participação da população e de empresas, doando mão de obra.”

Entre os equipamentos que foram alvo da iniciativa estão o Parque Raposo Tavares, no Butantã, com corte de mato e limpeza em bebedouros e banheiro, e o Ibirapuera, que teve quadras, campo de futebol e banheiros recuperados. “Quando a comunidade abraça, ela protege o parque”, diz Natalini. “Mas isso tem um limite. Não dá para colocar as pessoas da comunidade para planta ou serrar uma árvore que caiu. Por isso, estamos atrás do custeio”, afirma.

Parcerias. Para diminuir custos, a Prefeitura tem buscado pessoas e empresas interessadas em investir nos parques. De acordo com Natalini, alguns equipamentos estão prestes a ser adotados, entre eles o Parque Alfredo Volpi, no Morumbi, zona sul da capital, e o Parque do Carmo. “O prefeito João Doria está fazendo um esforço enorme no caminho de buscar parcerias para os parques”, diz. Atualmente, apenas o Parque do Povo, no Itaim-Bibi, é “adotado”. “A pessoa assume financeiramente o parque inteiro ou parte dele, mas a administração continua municipal”, explica.

Já de doação, a Prefeitura recebeu reformas e equipamentos, que vão de torneiras a máquinas roçadeiras. “São doações grandes, médias e pequenas”, afirma o titular da pasta.

A Prefeitura calcula ser necessário investir R$ 200 milhões para solucionar os problemas relacionados a infraestrutura e a equipamentos de todos os parques municipais. 

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