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Corpo de Bombeiros/Divulgação

Curva indica desequilíbrio de monomotor de Agnelli

Avião não possuía certificação e testes de equipamentos em condições extremas, mas poderia voar com autorização

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Luiz Fernando Toledo, Rafael Italiani e Fabio Leite ,
O Estado de S. Paulo

21 Março 2016 | 07h31

SÃO PAULO - A curva para a direita feita pelo avião de Roger Agnelli, ex-presidente da Vale, indica que o monomotor dele se desestabilizou pouco antes da queda, que terminou com a morte do empresário, do piloto e de cinco familiares de Agnelli, no sábado, 19, na Casa Verde, na zona norte de São Paulo. A mudança no rumo da aeronave – que devia ir reto – antes de atingir o solo, foi vista por pilotos do Campo de Marte, de onde ele decolou.

Uma das hipóteses prováveis para o desequilíbrio do avião é a distribuição irregular do combustível nas asas do monomotor. Segundo Roberto Peterka, especialista em segurança de voo, os relatos de testemunhas indicam que essa é uma das possibilidades da queda da aeronave, às 15h23, minutos após a decolagem. “Aparentemente, pela trajetória que ele (o avião) fez, pode se tratar de um desbalanceamento de combustível, ou seja, uma asa teria mais combustível do que a outra”, disse.

O desbalanceamento do combustível foi a causa apontada pelo Instituto de Criminalística (IC) para a queda do Learjet 35 sobre uma casa no mesmo bairro, em 4 de novembro de 2007, deixando oito mortos. Segundo o laudo, o problema foi provocado por erro do piloto e do copiloto. Foi o maior acidente da história do Campo de Marte.

Outras hipóteses podem ter levado à curva na trajetória do avião, segundo especialistas, como a assimetria de comandos de voo. “Isto (a queda em curva) pode representar ‘n’ possibilidades. Travamento do comando ou tentativa de fazer alguma manobra”, avalia o secretário-geral do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA), Rodrigo Spader.

O avião, modelo CA-9, fabricado pela Comp Air Aviation e registrado por Agnelli em 2012, era experimental, ou seja, não possui certificação ou testes de equipamento e ensaios em condições extremas de operação por autoridade aeroviária. Embora o uso de aeronaves experimentais seja permitido pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), a regulamentação diz que elas não podem voar em áreas populosas, como a do Campo de Marte, exceto se autorizados pelo Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA).

“Existem algumas restrições para o voo de aeronaves experimentais”, disse Peterka. Raul Marinho, representante da aviação geral e de instrução do SNA. Ele afirma, contudo, que a legislação sobre o tema é “confusa”. “Segundo o Código Brasileiro de Aeronáutica, os aviões experimentais deveriam ser de construção amadora. Mas este avião que se acidentou ontem não é de construção amadora.” A ANAC e representantes da família Agnelli não foram localizados neste domingo, 20.

Caixa. Investigadores do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa) da Aeronáutica estiveram no local da queda e recolheram parte da fuselagem, de fibra de carbono. O avião não possuía caixa-preta, o que dificulta a apuração do acidente. A presença do equipamento que registra dados do voo e a conversa na cabine do piloto neste tipo de avião não é obrigatória.

O Instituto Médico-Legal (IML) terminou neste domingo a identificação dos corpos de Agnelli, da mulher dele, Andrea de Azevedo Marques Trech Agnelli, do casal de filhos Anna Carolina e João, de Parris Bittencourt, genro do executivo, Carolina Marques, namorada de João e do piloto Roberto Baú.

Políticos e empresários lamentam morte. Políticos, empresários e executivos lamentaram a morte de Roger Agnelli, ex-presidente da Vale, morto no sábado em um acidente aéreo, em São Paulo, aos 56 anos. Também morreram no desastre a mulher de Agnelli, Andrea, os filhos João e Anna Carolina, a nora e o genro. A presidente Dilma Rousseff afirmou em nota que o País perdeu “um brasileiro de extraordinária visão empreendedora”. Os corpos do executivo e família foram enterrados neste domingo, na zona sul de São Paulo. 

A nota da Presidência afirma ainda que “Agnelli dedicou sua carreira a grandes empresas brasileiras, sempre comprometido com o desenvolvimento do País”. Na noite deste domingo, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, divulgou uma nota de pesar em que também ressalta o perfil empreendedor de Agnelli. “Foi um grande brasileiro.”

Liderada pelo executivo ao longo de uma década - de julho de 2001 a maio de 2011 - a Vale também divulgou nota de pesar: “A Vale e seus empregados se solidarizam com a dor dos familiares e amigos do executivo que tanto contribuiu para o desenvolvimento da empresa”.

Segundo a nota, durante os dez anos em que Agnelli presidiu a Vale, a companhia se consolidou como a maior produtora global de minério de ferro e a segunda maior mineradora do mundo. “Foi durante sua gestão que a Vale intensificou a estratégia de expansão global, que levou a Vale a um novo patamar no mercado global.” 

A morte de Agnelli foi notícia nos sites de veículos estrangeiros como o Financial Times e o The Guardian, que o definiu como o “banqueiro que transformou a Vale em uma gigante da mineração”.

Brandão. O presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro de Mello Brandão, e o presidente do banco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, também se manifestaram. Foi na instituição financeira, em que passou 20 anos, que Agnelli deslanchou na carreira. Em 1998, então com 38 anos, ele foi o mais jovem profissional a assumir uma diretoria do Bradesco. Trabuco lembrou que ele e Agnelli fizeram parte da mesma geração de executivos do Bradesco e destacou que o “estilo expansivo no trato pessoal e resoluto na gestão dos negócios marcou um período de grandes transformações mundiais”. 

Para o presidente do Conselho do Bradesco, “Roger Agnelli teve uma existência relevante e deixa legado de trabalho sério e determinado”.

Amigo próximo de Agnelli, Jair Ribeiro, presidente do Banco Indusval & Partners, disse que o executivo era uma pessoa focada. “Uma constante no Roger foi sempre pensar em ser o melhor e, muitas vezes, o maior.” 

Ribeiro lembrou ainda que o amigo era muito ligado à família. “Andrea era a grande parceira de Roger. Eles estavam juntos há mais de 30 anos.”

O atual diretor executivo jurídico da CSN, Fabio Spina, que foi diretor da Vale a convite de Agnelli, lembra da ousadia do empresário. Após a saída do executivo do comando da mineradora, em 2011, eles fundaram juntos a holding AGN Participações. 

Um episódio marcante para Spina foi a decisão de Agnelli de embarcar navios lotados de minério para a China na crise de 2008, mesmo sem contratos fechados. A estratégia era arriscada: a Vale teria 45 dias de viagem até o país asiático para acertar a venda da mercadoria no mercado spot (à vista). “A ideia era não parar a produção. Isso segurou a Vale em meio à crise.”

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