Vidal Cavalcante/Estadão
Vidal Cavalcante/Estadão

Curiosidades do Jardim Anália Franco

As muitas transformações do bairro em pouco tempo de existência

O Estado de S. Paulo

15 Dezembro 2015 | 02h34

O nome do Jardim Anália Franco é uma homenagem à importante educadora e filantropa fluminense que mantinha no Brasil diversas escolas e instituições de apoio a mulheres e crianças desamparadas. Em 1901, a professora comprou uma chácara que ocupava partes do Tatuapé, da Vila Formosa e da Água Rasa, onde montou um educandário e manteve uma produção rural executada principalmente por mulheres desamparadas – ela contratava ex-prostitutas e investia na educação de crianças.

Anália Franco morreu em 1919, aos 66 anos. No fim dos anos 60, o lar, que funcionou de 1911 a 1993, já não tinha condições financeiras de se manter como antes e foi preciso lotear o terreno que até mesmo chegou a abrigar um lixão – o famoso aterro da Vila Formosa. Muitas transformações ocorreram: vieram os empreendimentos imobiliários que fizeram surgir sobrados geminados, depois subiram muitos prédios de alto-padrão e houve o boom de valorização do bairro nos anos 80. Chegaram o shopping Anália Franco e a Universidade Cruzeiro do Sul, que ocupa a casa sede do educandário. 

1. Quem foi Anália Franco?

A fluminense Anália Emília Franco (1853-1919) tinha 8 anos quando sua família se mudou para São Paulo. Formou-se professora aos 15 anos, morou em Guaratinguetá e em Jacareí, onde deu aulas. De volta à capital paulista, terminou a escola normal em 1878, aos 25 anos. Foi educadora, colunista de revistas e autora de contos e romances.

Anália fundou e manteve dezenas de instituições, entre escolas, abrigos, clínicas, asilos, orquestra e companhia de teatro. Lidava sobretudo com crianças, mulheres e velhos. Em 1901, abriu em São Paulo a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva (o futuro Jardim Anália Franco), onde empregou ex-prostitutas e abriu um educandário. 

Casou-se em 1906 com Francisco Antônio Bastos. Em 1919, morreu de gripe espanhola. Ela tinha 66 anos.

2. Construções históricas

Havia na chácara Paraíso uma casa de taipa-de-pilão que existe até hoje e na qual viveu por mais de dez anos o regente Diogo Antônio Feijó (1784-1843) – um dos antigos proprietários do sítio do Capão, cujo nome ele pediu para mudar (escolheu Paraíso). O exemplo de arquitetura bandeirista e representante da "São Paulo de barro" está fechado para visitação. A casa principal da fazenda, outro prédio antigo, funcionou com sede do educandário Anália Franco e nos anos 90 foi comprado e recuperado pela Universidade Cruzeiro do Sul, que funciona agora no local. 

O primeiro registro encontrado da casa do Regente é de 1698. No entanto, a história da edificação começou a ganhar destaque apenas em 1827, quando Feijó se mudou para lá, bem no período em que foi regente do Império. No século XIX, o lugar passou por uma reforma, perdendo algumas de suas características originais e ganhando um segundo andar. 

3. O aterro sanitário

Construído no lugar da área que pertenceu ao Lar Anália Franco, que por falta de recursos precisou lotear os terrenos, o bairro ocupava não só a chácara principal e arvoredo do educandário, mais um imenso parque (hoje Parque Anália Franco) e o famoso lixão ou aterro sanitário usado pelos moradores da Vila Formosa para jogar coisas fora. Até meados dos anos de 1950, esse lixão ajudou a sabotar um empreendimento imobiliário planejado para a região: a ideia da construtora que loteou a Vila Formosa, independente do Tatuapé desde 1923, era transformá-la em povoado planejado e chique como o Jardim Europa. Não deu muito certo.

4. O Morumbi da zona leste

O boom imobiliário do Jardim Anália Franco começou em 1985. Cinco anos depois, já haviam sido construídos mais de quarenta edifícios com, no mínimo, 250 metros quadrados de área útil por apartamento. Desde então, o bairro foi considerado uma espécie de Morumbi da zona leste, só que no lugar das mansões o que se via eram os prédios bacanas. Atualmente, conserva aspectos de cidadezinha do interior, com uma potente infraestrutura de comércio, serviço e lazer.

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