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Crise da água se agrava. Bônus deve continuar em 2015

Fabio Leite e Rene Moreira - FRANCA

10 Julho 2014 | 23h 00

Comitê anticrise que monitora o Sistema Cantareira revela que, até esta quinta, o volume médio de água que chegou aos reservatórios foi 64% menor do que no mês passado

SÃO PAULO - Embora já tenha chovido nas represas em dez dias mais do que choveu em junho inteiro, a crise hídrica no Sistema Cantareira se agravou neste mês. Dados do comitê que monitora o manancial revelam que, até esta quinta-feira, 10, o volume médio de água que chegou aos reservatórios foi 64% menor do que no mês passado, que é considerado o mais seco da história do sistema. Ainda ontem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) disse que pretende estender o bônus para quem economizar água até o próximo ano. 

Um balanço parcial mostra que o déficit do Cantareira, que abastece parte da Grande São Paulo e a região de Campinas, já cresceu 26% neste mês, chegando a 20,8 mil litros por segundo. Isso ocorre porque a vazão média afluente até agora é de apenas 2,4 mil litros por segundo, 9% da média do mês, diante de uma retirada de 23,2 mil litros por segundo para abastecimento público. Se o ritmo permanecer, o manancial deve perder em julho cerca de 54 bilhões de litros, o equivalente a 5,5% de sua da capacidade total.

Os números indicam que os 22,1 milímetros que choveram até esta quinta no sistema - em junho, foram apenas 15,8 milímetros -, não surtiram efeito no nível das represas por dois motivos: os rios que nascem no sul de Minas e alimentam o Cantareira, como Jaguari e Jacareí, continuam com vazão baixíssima; e a água das chuvas que cai sobre os reservatórios praticamente secos acaba sendo absorvida pela terra.

Nesta quinta, técnicos da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) estavam com receio de que a população deixasse de economizar água por causa da chuva. Conforme o Estado antecipou, esta quinta marcou o esgotamento dos 981,5 bilhões de litros do volume útil do manancial. Agora, restam 182,5 bilhões de litros do volume morto, reserva profunda abaixo das comportas.

Prorrogação. Segundo a Sabesp, até o mês passado, 87% dos clientes abastecidos pelo Cantareira já haviam reduzido o consumo, dos quais 55% atingiram a meta de 20% de economia e conseguiram desconto de 30% na conta por meio do programa de bônus lançado em fevereiro. Foi alegando a “ampla adesão” ao uso racional da água que Alckmin desistiu de multar quem aumentasse o consumo de água. Neste mês, ele iniciou sua campanha pelo reeleição ao governo. 

Nesta quinta, em visita à região de Ribeirão Preto, onde vistoriou obras e fez gravações para seu programa do horário eleitoral gratuito, o governador afirmou que deve manter o bônus até 2015. A Sabesp havia anunciado o programa de descontos até dezembro. “O bônus vai continuar e estamos estudando prolongá-lo mesmo no período das chuvas para poder recuperar as represas”, disse o governador, que garante abastecimento sem rodízio até março.

Perspectivas. A prorrogação indica que o próprio governo trabalha com a hipótese de a crise do Cantareira se estender no próximo ano. No início desta semana, o Estado revelou que uma análise estatística feita pelo comitê anticrise mostra que o manancial tem apenas 25% de chance de acumular, entre dezembro e abril do ano que vem, um volume de água (546 bilhões de litros) suficiente para se recuperar e sair da crise.

A estimativa considera previsões da própria Sabesp de que o volume morto dos reservatórios que já está sendo captado deve se esgotar entre outubro e novembro deste ano. Sendo assim, se o Cantareira acumular 546 bilhões de litros nos cinco meses seguintes, ele chega a maio de 2015 com 37,3% da capacidade, nível considerado confortável para atravessar a estiagem do próximo ano.

Os cálculos do comitê anticrise apontam, contudo, que há 50% de probabilidade de o manancial atingir ou exceder um saldo de 394 bilhões de litros no período e 75% de alcançar ou ultrapassar 219 bilhões de litros. Nesses cenários, o Cantareira começaria o próximo período seco, respectivamente, com 21,7% ou 3,8% da capacidade, ambos insuficientes para tirá-lo da crise de estiagem.