Cracolândia: 72% dos moradores de rua dizem que vida não mudou com operação

Pesquisa mostra que, passados cinco meses da investida da PM no centro, 17% acham que situação piorou e o restante vê progressos

ARTUR RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2012 | 03h00

Boa parte dos moradores de rua da região central de São Paulo acha que de nada adiantou a operação da Polícia Militar na cracolândia. Pesquisa inédita da Secretaria Municipal de Assistência Social, obtida com exclusividade pelo Estado, revela que 72,3% deles afirmam que a intervenção policial - que completa cinco meses hoje - não mudou suas vidas. Outros 17,2% acreditam que a situação piorou - sobretudo por causa da violência dos agentes de segurança - e o restante vê progresso ou não respondeu.

A pesquisa foi feita com uma amostra de 380 pessoas, retirada do grupo de 6.675 pessoas que moram nas ruas e não são atendidos pelos albergues da Prefeitura. O estudo foi realizado de janeiro a março por pesquisadores da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Entre os moradores de rua que presenciaram a ação, 14,2% disseram ter sofrido alguma agressão policial. E 23,5% criticaram a investida da PM porque, segundo eles, a cracolândia apenas mudou de endereço.

Novo mapa. Em rondas pelo centro, o Estado confirmou que, em vez de lotarem as Ruas Helvétia e Dino Bueno, onde em dezembro censo da Prefeitura contou 743 pessoas, usuários de drogas agora se concentram na Rua dos Gusmões. Na nova geografia da cracolândia, moradores de rua e viciados não se misturam mais, como acontecia até o fim de 2011. Catadores de papelão que costumavam dormir na área agora tomada pelo crack migraram para os quarteirões perto do Elevado Costa e Silva, o Minhocão. Eles relatam que os policiais militares os confundiam com os chamados "noias".

Essa segregação é apontada como a principal consequência positiva da operação para os 10,5% dos entrevistados que aprovaram a ação. Eles destacaram também a diminuição da oferta de crack. "Como tem menos droga, fumo menos", confirmou Robson da Silva, de 29 anos.

Fora do centro, a operação continua a causar discussão. Para a defensora pública Daniela Skromov, é uma ação "apenas de limpeza, que não deu certo". O prefeito Gilberto Kassab (PSD) afirmou que "se avançou muito", mas reconhece que há muito por fazer. O Ministério Público ameaça ir à Justiça para contestar a operação, sob argumento de que tráfico e consumo persistem na região mesmo com a PM.

Enquanto isso, o Complexo Prates - espaço de 11 mil m² construído pela Prefeitura para tratar os viciados - atende uma média de 180 pessoas por dia, 15% de sua capacidade. / COLABORARAM ADRIANA FERRAZ e DIEGO ZANCHETTA

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