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Crack expõe bebê a risco antes do parto

Ricardo Brandt - O Estado de S. Paulo

03 Junho 2014 | 20h 41

Metade das dependentes engravida após se viciar e 4 em 10 não usam preservativo; até 5% da droga consumida pode passar ao feto

Drogado e exposto a risco por causa do vício da mãe, antes mesmo de nascer. É como fica um bebê na barriga de uma dependente que usa crack durante a gravidez. No Brasil, apesar de as mulheres representarem um quarto do total de usuários regulares da droga, metade delas havia engravidado pelo menos uma vez depois do vício e quatro em dez não usam preservativo nas relações sexuais.

O risco para o bebê é um dos maiores problemas enfrentados com o avanço da droga no País. O prejuízo - direto e em potencial - provocado na criança é o melhor exemplo para mostrar que o crack deve ser considerado um dano não só para a saúde do usuário.

“Uso há 19 anos. Eu paro, volto. Deus foi muito grande na minha vida. Por mais que eu erre, use essa maldição de droga, acho que Ele acredita em mim. Tudo que uma mulher grávida não podia fazer eu fiz. Fui agredida, fumei, bebi, sangrei. Fumei até dois dias antes (de o bebê nascer), quando minha mãe me pegou na rua”, conta Nanci (nome fictício), de 32 anos, ao lembrar do nascimento de uma das duas filhas - hoje com 5 e 2 anos.

Durante quatro meses, o Estado percorreu 6,6 mil quilômetros e visitou 13 cidades do interior de São Paulo que declaram ter problemas decorrentes do consumo de crack para traçar um diagnóstico do avanço da droga e suas mazelas.

Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre o perfil dos usuários de crack no País mostra um dado preocupante: 10% das mulheres estavam grávidas na época da entrevista. E 46% tinham engravidado pelo menos uma vez desde que passaram a usar crack.

Vanessa, de 30 anos, na terceira gestação, é interna do primeiro hospital público de tratamento para dependentes de crack do interior paulista, aberto em novembro, em Botucatu. “Nunca fiz pré-natal”, diz.

Robson Fernandjes/Estadão
Vanessa, de 30 anos, é interna do primeiro hospital público de tratamento para dependentes de crack

Efeitos. Pouco se sabe cientificamente sobre o que o crack provoca no bebê quando a mãe faz uso da droga na gestação. Um dos estudos sobre o assunto, feito nos Estados Unidos, aponta o baixo crescimento da criança. O problema seria decorrente da redução de oxigênio na placenta, que ocorre durante o uso da droga pela mãe.

“Tanto o peso quanto o comprimento ao nascer são significativamente afetados pelo consumo de cocaína na gravidez”, apontam três pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), entre eles Márcio Mariano Moreira, especialistas em psicologia da infância e dependência química.

Eles tomaram como base um estudo de 2002 que indicou que, aos 7 anos, a criança de uma mãe que usou a droga na gestação tem chance duas vezes maior de apresentar baixa curva de crescimento.

O fato está relacionado ao aumento dos batimentos cardíacos e da pressão arterial da mãe, obrigando o corpo a mandar mais sangue para seu coração e reduzindo a quantidade mandada para o feto. O princípio ativo do crack (eritroxilina) é um potente vasoconstritor e um problema que eleva o risco de aborto.

Outro problema envolvendo o aborto dos bebês é a confusão mental e psicológica da usuária. “Eu fazia de tudo para perder esse bebê usando droga”, conta Vanessa, que agora planeja o enxoval de Bernardo. Ela lembra que, durante uma briga com a mãe por causa da droga, subiu no telhado, foi picada por abelhas e se jogou de uma altura de 3 metros. “Fiquei toda machucada, mas não perdi o bebê.”

Placenta. Outro indicativo citado pelos especialistas da Unifesp é que de 3% a 5% do crack consumido pela mãe pode passar para o bebê em formação na placenta. O cordão umbilical é quase um canudo que bombeia parte da química da droga direto para o feto. O que isso provoca, ainda não se sabe.

Além do risco desse consumo indireto, outra preocupação para profissionais de saúde pública e especialistas é o “inimigo externo” que pode chegar ao bebê via contágio decorrente do padrão promíscuo de vida sexual da dependente.

Mais de um terço dos usuários de crack no Brasil (39%) disseram não ter usado preservativo nas relações sexuais do mês anterior à entrevista. Fora das capitais (onde o perfil do dependente se aproxima daquele que vive no interior paulista), esse porcentual chega a 47%.

“Usei (crack) até o último dia (de gravidez). Só parei um dia antes, quando fui internada para ter o bebê”, conta Cássia (nome fictício), de 28 anos, em Ibitinga. Mãe de três filhos, um de cada pai, ela perdeu a guarda das crianças na Justiça e contraiu hepatite. “Usava (crack) com ele do lado, ficava no mato fumando e ele do lado”, conta ela, levada pela mãe para o Núcleo de Saúde Mental de Ibitinga.

A mãe, de 66 anos, que pediu para não ser identificada, conta que uma das crianças teve de passar por tratamento psicológico e também tinha problemas na boca e no sistema digestivo. “Os dentes dele estavam todos podres. Ela dava de mamar no peito, acho que a droga descia. A boca dele era cheia de feridas, não conseguia comer”, diz a avó, que tem a guarda das crianças. “Tive de denunciar ela porque ela não me dava esse menino. Eu precisava pegar a criança porque ela não estava mais consciente, ia para a rua com ele. Não achava justo.”

Hoje, o menor evita a mãe viciada em crack. “Quando ela chega perto, ele fala ‘não posso ficar com você’. Isso tem machucado ela”, explica a avó. Além de perder a guarda das crianças, a Justiça determinou que Cássia não pode se aproximar dos filhos enquanto não passar por tratamento. “Tenho medo que ele (filho) entre nessa vida. Por isso quero parar.”

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