WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Coveiro temia velório e hoje limpa oferendas

Filho de pastor, Daniel Chagas trabalha no Cemitério da Consolação

Felipe Resk, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2015 | 03h00

Daniel Chagas é filho de pastor evangélico e, quando criança, se pelava de medo de participar de um velório. Na época, não poderia imaginar que, aos 56 anos, não só trabalharia de coveiro, como também seria o principal responsável no Cemitério da Consolação - o mais antigo de São Paulo - por limpar as oferendas destinadas a orixás todo o santo dia.

Às 7 horas, Chagas termina de tomar o café na copa do cemitério e veste seu uniforme azul. Só então apoia a enxada no ombro e vai até o Cruzeiro das Almas, onde são acesas velas para os mortos. Lá, também estão concentradas as ofertas para os santos, que o coveiro precisa recolher. O trabalho é evitado pelos colegas de profissão.

“Olha, tem funcionário que você pode mandar para qualquer canto, menos para o Cruzeiro”, conta, rindo. Mas nem sempre ele foi tão tranquilo com o assunto. “No começo, eu morria de medo de colocar a mão e alguma coisa acontecer.”

A solução veio com o tempo. Ao todo, Chagas soma 36 anos dedicados a cemitérios: os últimos oito limpando oferendas. Primeiro, tentou se valer de uma dica dos colegas. Era só usar a mão esquerda para coletar os trabalhos e, assim, evitar que os orixás se irritassem. Depois, desenvolveu uma estratégia própria: imaginar-se varrendo papel ou folhas caídas de uma árvore.

Menos trabalho. Atualmente, um ponto que joga a favor do coveiro é que as oferendas têm diminuído com o passar do tempo. Na manhã desta quarta-feira, por exemplo, Chagas só precisou recolher meia dúzia de ovos de pata, um pano branco, duas garrafas de cachaça e três vasos de flor. Quase nada, segundo ele, se comparar ao que já viu. “Uma vez, encontrei duas cabeças de porco-do-mato em cima de um tacho de barro.”

As oferendas, que enchiam até nove sacos de lixo, hoje não lotam dois. Entre os coveiros, circula o comentário de que falta dinheiro para as pessoas presentearem os santos. O Serviço Funerário do Município, por sua vez, acredita que a queda está relacionada a um maior movimento no cemitério, com visitas guiadas e eventos culturais. A autarquia afirma que o espaço é laico e respeita todas as manifestações religiosas.

Segundo Mãe Paula Duwe, do Núcleo de Umbanda Cacique Pena Branca, os adeptos de religiões africanas temem a intolerância. “A orientação é usar locais onde já se pratica a religião, como os santuários, porque temos mais respeito e privacidade”, diz. “Além do mais, no cemitério, a gente sabe que alguém vai ter de limpar. É questão de consciência também.”

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